Um animador da natação aveirense - Homenagem efectuada em Novembro de 1992.


Natação aveirense dos anos 50 a 74

Muito estranhamente a natação em Aveiro decaiu até 1950. Disso nos foi dando conta a imprensa e, especialmente, o “Correio do Vouga” de 8/7/1950, quando situava a interrogação: "regressará definitivamente a natação?" Isto depois de o "Sport Marítimo Murtoense, após um longo período de esquecimento", ter voltado de novo à modalidade,

Neste mesmo ano de 1950, os aveirenses estiveram presentes nos Campeonatos Nacionais, realizados em Coimbra, mas os representantes da Associação de Natação de Aveiro obtiveram classificações modestas, "reflexos da deficiente preparação dos nadadores", não se estranhando o 5º lugar nos 100 metros Costas, por Balseiro Brinco (Águeda): o 4º lugar nos 200 Livres, por Acácio Agostinho da Costa, que também se classificou em 5º lugar nos 400 metros Livres, ficando-se a classificação de João Agostinho da Costa por um igual 5º lugar nos 200 metros Bruços, ambos nadadores do Beira-Mar,

Em 1951, vê-se novamente a natação aveirense em aparente "coma", no que respeita às grandes competições, seguindo-se 1952 e anos subsequentes com classificações modestas,

Mil novecentos e cinquenta e cinco é o ano do grande "estoiro" nas águas da Ria e nas vozes que agitam a natação por todo o lado, depois de ser anunciada a Travessia de S, Jacinto/Aveiro, em estilo livre. numa  distância de aproximadamente 10 km!

Dois nadadores fazem concentrar em si e na natação as atenções e as surpresas gerais, já que a última vez que esta grande prova de fundo foi realizada tem a data de 29 de Setembro de 1923 e o nome TOBIAS DE LEMOS em 1º lugar, ao serviço do Clube dos Galitos, "gastando no percurso 2 horas precisas".

Em 25/9/1955, EDUARDO RAPOSO RODRIGUES DE SOUSA (ATITA), "pôs cobro aos Adamastores que se tinham instalado desde 1923", gastando no percurso, depois de vir "contra água desde os Moinhos até Aveiro, 2,45 horas",

Em 16/10/1955, CARLOS BAPTISTA COELHO, nadador do Clube dos Galitos, estabeleceu a mesma ligação S, Jacinto/Aveiro "no tempo de 1 hora 51 min. e 10 seg,",

Este nadador realizou cinco anos mais tarde esta mesma Travessia, mas em estilo Mariposa, cujo feito “extraordinariamente espectacular" citamos mais à frente,

Em 6/9/1956, DOMINGOS CALlSTO, glória antiga, aqui já mencionada, também realizou com êxito esta travessia, "proeza difícil de igualar, pois não devemos esquecer os seus 50 anos", tendo "gasto na prova 1 hora e 53 min.”.

Nesse dia da Travessia, considerado "o dia desportivo da cidade", ele foi na verdade "dedicado à natação, após a grandiosa prova feita pelo "veterano" Domingos Calisto, tendo-se realizado à tarde o "1º Festival no Tanque-Piscina do Beira-Mar", na altura existente na "Malhada da Pega",

Igualmente nesse dia aconteceu uma grande "homenagem prestada aos antigos nadadores do Beira-Mar, TOBIAS DE LEMOS, DOMINGOS CALISTO, JOAQUIM GONÇALVES, CIPRIANO A. COSTA e ANTÓNIO A COSTA, bem como ao antigo dirigente da Secção, AUGUSTO DE PINHO VARELA", encontrando-se entre a assistência Cândido dos Reis, da Federação Portuguesa de Natação, Carvalho da Encarnação, da Associação de Natação de Aveiro, Eng.º Coutinho de Lima, Presidente da Assembleia Geral do Beira-Mar, tendo usado da palavra o seu Presidente da Direcção, Eng.º Branco Lopes.

Com o aparecimento deste tanque e da prática que permitiria os treinos que iriam disciplinarmente apurar e "refinar" alguns dedicados atletas, melhorando-se-lhes também as técnicas e as qualidades pessoais que os faziam já sobressair, assiste-se a uma série de acontecimentos pouco habituais no nosso meio, exceptuados, naturalmente aqueles gloriosos tempos em que as bandas de música e a cidade faziam ver os seus adornos de gala, quando os feitos dos nossos nadadores e das nossas pugnas desportivas animavam a cidade.

Entre os muitos a dar nas vistas, pelo lado do Beira-Mar, podem citar-se nesta fase os nomes do ATITA, VASCO NAIA, ÓSCAR AGOSTINHO DA COSTA, LUÍS DE CARVALHO, CARLOS ALBERTO PINTO BASTOS, RICARDO VENTURA DA CRUZ, MÁRIO JÚLIO MATEUS, CARLOS EUGÉNIO CANHA e também outros mais modestamente situados, mas igualmente conhecidos, havendo posteriormente uma outra fase a destacar: CARLOS ALBERTO MACHADO, JOÃO LOURENÇO GAMELAS, JOAQUIM REIS FERREIRA, JOÃO LOURENÇO MAGALHÃES, ARMANDO AUGUSTO PINHO, MANUEL VICTOR RIGUEIRA, outros nomes se conhecendo mas que não constavam das fileiras dos beiramarenses, O seu Treinador, durante muitos anos, PORFÍRIO SOARES MACHADO, foi a grande figura e a dedicação motora da natação do Beira-Mar e de Aveiro, mais tarde aceitando os serviços de colaboração do então ALFERES FERNANDO TROVÃO e, curiosamente, mais tarde ainda, passaram /pág. 28/ os treinos do Clube a ser orientados pelo seu filho CARLOS ALBERTO MACHADO, que deu igualmente à cidade vários Campeões Regionais.

O Clube dos Galitos, pelo seu lado, realizou o seu maior esforço de sempre, após a existência do Tanque-Piscina do Beira-Mar, pois fazia os seus treinos nas águas da Ria e no Canal Central, compensando a desigualdade das condições de trabalho com o grande empenhamento dos seus atletas.

Nesse canal podiam ver-se dezenas de esforçados jovens nadadores, cujo entusiasmo era mais forte do que a adversidade do meio, situando-se os seus resultados na grandeza que os afirmava e os fazia aplaudir. Dentre os mais destacados, para além do seu treinador CARLOS BAPTISTA COELHO, são de referir JOÃO CARLOS MENDES, JOÃO DA CRUZ HENRIQUES, ANTÓNIO LOURIVAL, RAÚL PERICÃO SEIXAS, CARLOS ALBERTO VINAGRE "CALABÉ", ANTÓNIO CARLOS BAPTISTA, CARLOS MANUEL M. MATOS, JOÃO MANUEL VINAGRE, LlNO DE OLIVEIRA, LlNO FERREIRA BASTOS, MANUEL CARLOS ALMEIDA, ANTÓNIO MIGUÉIS VIEIRA, ANTÓNIO ESTÊVÃO DA NAIA, MANUEL PEREIRA PACHECO, FRANCISCO LIMAS, RICARDO NAIA FORTES, MANUEL MENDES MAIA, JOÃO JOSÉ PINHEIRO, JOÃO BALACÓ, JOÃO CARRAPICHANO, JOSÉ AZEVEDO GUIMARÃES, CARLOS ALBERTO ALMEIDA, ANTÓNIO MANUEL FERNANDES, JOSÉ CARLOS NUNES, ANTÓNIO DA SILVA ESTUDANTE, JOSÉ MARQUES ESTUDANTE, e outros mais também havendo que viviam as coisas da natação com arrebatadora força e estoicismo, face às difíceis condições em que tinham de treinar.

O ano de 1957 trouxe-nos a maior surpresa em termos de resultados nacionais e do nosso prestígio, escondido há muito e muito tempo, longe desta terra de anfíbios, como "cantava" Brandão.

Vasco Naia soergue a honra que obriga à "chapelada" e às "espinhas" que se curvam respeitosamente. Ele obtém um novo Título Nacional, passados vinte e seis anos, conseguido na Piscina Municipal de Coimbra, nos 200 metros Bruços, Aspirantes.

Depois foi um "soma e segue", cujos relatos ao leitor não os despojamos de nada e por isso os apresentamos como a imprensa os noticiou:

 

Do "Correio do Vouga", de 31/8/1957:

 

"VASCO NETO DA NAIA — Campeão Nacional de Natação

 

Um título nacional de natação não é coisa nova em Aveiro.

Já vários nadadores do Beira-Mar conheceram essa glórias noutros tempos, mas também já há muitos anos que não nos era dado o prazer de saborear tal facto.

Porém, não é a conquista de um título, entre tantas provas, que nos leva a cantar tanta vitória.

É que isto representa para Aveiro e muito especialmente para o Beira-Mar o início dum período de ressurgimento, o alvorecer duma nova época e um estímulo para a continuação dum trabalho que se principiou há dois ou três anos.

Foi autor dessa proeza o jovem Vasco Neto da Naia, nadador do Beira-Mar, que já na época finda tomou parte nos Campeonatos Nacionais realizados na Piscina de Vimeiro, onde passou despercebido, por razões várias. /.../

Não exageramos, assim, classificando de proeza a vitória do Vasco Neto da Naia, cuja prova foi considerada a melhor e mais empolgante dos campeonatos nacionais deste ano nas categorias de iniciados e aspirantes.

Ficou a 5/10 de segundo do recorde nacional que, aliás, já havia sido por ele batido num torneio particular, mas não homologado.

A sua facilidade e maneira de nadar entusiasmou a assistência que, no final, foi pródiga nos aplausos que lhe dirigiu." /.../

 

Do "Litoral", de 2/8/1958:

 

"NATAÇÃO: Brilhante comportamento do beiramarense VASCO NAIA no encontro Centro de Portugal-Andaluzia

 

Na Piscina Municipal de Coimbra realizaram-se no sábado, à noite, e no domingo, à tarde, as duas /pág. 29/ jornadas do torneio internacional de natação Centro de Portugal-Andaluzia, que terminou com a vitória de nuestros hermanos por 70 pontos contra 60. /.../

Os portugueses que mais se distinguiram foram o lisboeta Avelino Pereira, do Algés, que ganhou os 400 metros livres, e o aveirense Vasco Naia, do Beira-Mar, que participou nos 200 e 100 metros-bruços.

No sábado, Vasco Naia conseguiu um 3º lugar, com 3 m. 10,9 s., nos 300 metros. /.../

Mas nos 100 metros, corridos no domingo, Vasco Naia, com a excelente marca de 1 m. 24,6s. (apenas mais 0,2 s. que o recorde nacional da categoria, estabelecido em 1940 pelo académico Luís Pais Fidalgo) classificou-se em 2º lugar, à frente do lisboeta José Manuel Fonseca, do andaluz Rafael Molina e do conimbricense Apolino Teixeira. /.../

Assim como Vasco Naia, o tanque-piscina do Beira-Mar revelou, na sua existência, outros dois valorosos nadadores — ÓSCAR AGOSTINHO DA COSTA e RICARDO JORGE VENTURA DA CRUZ — que são já consoladoras realidades na renascida natação aveirense. Todos bastante jovens ainda, deles muito tem a modalidade a esperar. Mas não só destes, agora referidos, porque são, de momento, os mais destacados; mas também de numerosos outros, autênticas esperanças que, num futuro próximo, muito darão que falar.

E se os dirigentes do Clube aveirense puderem, como é seu intento, contratar um bom técnico da modalidade para preencher a vaga deixada em aberto pela saída para a Índia do Alferes Fernando Trovão, não temos dúvida em afirmar que os progressos dos nossos nadadores serão mais rápidos e mais firmes, como sinceramente desejamos."

 

Do "Correio do Vouga", de 6/9/1992

"VASCO NETO DA NAIA — é de novo campeão nacional

Disputaram-se nos passados sábado e domingo, na piscina da Praia das Maçãs, os campeonatos nacionais de natação, nas categorias de juniores.

A Associação de Natação de Aveiro esteve representada por nadadores do Recreio de Águeda, Sport Algés e Águeda e Sport Clube Beira-Mar, cabendo as honras a este último, com a conquista dum título.

Obteve-o Vasco Neto da Naia, na prova de 200 m. bruços.

Este mesmo nadador ostentava já o título nacional da distância na categoria de aspirantes, que havia conquistado em Coimbra na época finda. /.../

No entanto Vasco Naia, tendo acompanhado o seu mais directo rival — José Manuel Fonseca, até aos 150 m., teve na última pista um sprint irresistível, ficando a mais de 4 segundos daquele, que se classificou em segundo lugar. O outro nadador do Beira-Mar, Óscar A. da Costa, classificou-se em 4º lugar, merecendo elogios a sua actuação.

Amanhã realizam-se os Campeonatos Nacionais de Seniores, a que concorrem os nadadores do Beira-Mar, Vasco Naia e Óscar A. da Costa."

 

Do "Correio do Vouga", de 2019/1958:

"VASCO NAIA — em evidência no Portugal-Marrocos

Após notícias incompreensivelmente vagas sobre a classificação na prova de 200 m. bruços do encontro internacional Portugal-Marrocos, chegou finalmente a Aveiro a comunicação de que o nadador do Beira-Mar, Vasco Naia, havia vencido aquela prova.

O regozijo foi, pois, grande para a cidade.

Não há dúvida nenhuma que Vasco Naia conseguiu o que qualquer atleta ansiosamente deseja: — após a conquista dos títulos regional e nacional, a internacionalização e, mais, a tão desejada vitória para si, para o seu clube, para a sua terra e para Portugal. /.../

Foi grande a luta que travou para merecer essa honra, mas, à força da sua classe e do seu brio de atleta, conseguiu demonstrar mais uma vez que não poderia haver dúvidas em o considerar o melhor brucista nacional de 1958.

Vasco Naia merece, pois, o reconhecimento dos seus conterrâneos." /.../

 

/pág. 30/ Em 1960 volta a acontecer um feito invulgar no meio e na nossa natação, que faz atrair todas as atenções nacionais e internacionais. No dia 8 de Outubro deste ano (1960), é realizada a Travessia de S. Jacinto/Aveiro, em MARIPOSA, deixando-se aos leitores a leitura do que foi essa grande aventura, "proeza notável" como foi chamada e tem jazida na arca do que se não deve esquecer.

Os jornais nacionais de Outubro de 1960 atiraram para as suas manchetes: "Proeza Notável de um Nadador Aveirense", "Uma Prova de Projecção Internacional", "Mais de Nove Quilómetros em Estilo Mariposa". Tratava-se de CARLOS ALBERTO BAPTISTA COELHO que concluíra pela segunda vez a difícil Travessia. É do “Diário Ilustrado” de 11 de Outubro de 1960 que se transcreve a notícia, por ser a mais sucinta e adequada ao espaço de que dispomos: "EM AVEIRO: NADOU 10 KM EM ESTILO MARIPOSA, GASTANDO 1H E 35 M..

Aveiro, 11 — O instrutor de natação da Mocidade Portuguesa e do Clube dos Galitos, de Aveiro, Carlos Alberto de Moura Baptista Coelho, efectuou o percurso, a nado, de cerca de 10 quilómetros, entre Aveiro e S. Jacinto, no estilo mariposa, em 1 hora e 35 minutos, o que constitui uma proeza de projecção internacional, talvez mesmo, a maior distância até hoje percorrida em todo o Mundo, neste estilo.

A prova foi acompanhada por um júri técnico da Associação de Natação de Aveiro, composto pelos Srs. Tenente Joaquim Augusto Quaresma e Olinto Ravara e, ainda, pelos Srs. Director do Centro Extra-Escolar n.º 1 da MP., professor José Hernâni Moreira da Silva; assistente religioso do Centro, padre António Augusto de Oliveira, que filmou a travessia; dirigente do Clube dos Galitos, Rui Veiga; jornalista desportivo, Manuel Castro: e remador olímpico, Manuel da Cruz Regala."

No ano seguinte, surge, com destaque, um novo nome: António Lourival Pires Neves.

E é a propósito deste atleta que se transcreve texto que veio a lume, em Jornal não Identificado, e que curiosamente traduz o ambiente reinante em Aveiro com olhos de quem está de fora.

 

Dum jornal, no ano de 1961:

"SINGULARIDADES DUMA CARREIRA OU SINGULARIDADES DA NATAÇÃO DA PROVÍNCIA
 

LOURIVAL, DO GALITOS DE AVEIRO — ou um campeão nacional de 61 que ainda há dois anos tinha medo de se lançar à água.


Em Aveiro, quem não rema, remou — diz o provérbio. Mas nem só remou ou rema, porque todos os aveirenses sabem andar de bicicleta e nadar. As excepções, aliás escassas, só confirmarão a regra...

Este Lourival Pires, do Clube dos Galitos, que ganhou agora, na castiça Tomar, o campeonato nacional dos 200 metros, bruços, juniores, nada desde petiz. Habituou-se, com efeito, a "caminhar" na água mal aprendeu a caminhar... em terra. De saúde precária nos seus verdes anos, Lourival atribui mesmo ao benéfico exercício a relativa robustez que hoje o caracteriza.

À semelhança de quase todos os outros miúdos, foi na grande e mansa bacia lagunar que se acostumou a fender "líquido elemento". E como continua a treinar nos canais aveirenses, embora esses canais não possuam um mínimo de condições para uma preparação cuidada, meticulosa, verdadeiramente séria, pode muito bem chamar-se-lhe "estrela da Ria". Estrela, porque venceu entre vencedores, da Ria, porque é nela que continua a treinar...

Quando Aveiro, graças ao Beira-Mar, dispôs de um "tanque-piscina", Lourival utilizou-o com sequência. Infelizmente, o recinto teve a duração efémera das réplicas de Malherbe... E se, para um completo progresso da natação de competição importa haver uma piscina aquecida, hoje, Aveiro, cidade ribeirinha, a remirar-se na água nem um modesto tanque ao ar livre possui. Há, evidentemente, que eliminar tão chocante lacuna. De interesse turístico, uma piscina em Aveiro seria autêntica fábrica de campeões. O tanque beiramarense ofereceu-nos, de pé para a mão, um "internacional" — Vasco Naia. E, mesmo sem ela existir, os valores não deixam de aparecer. Ou não será o caso de Lourival? Mas como retocar convenientemente semelhantes vocações, se os requisitos técnicos faltam em absoluto, se um nadador, ainda que animado da melhor vontade, não treina quando quer, mas apenas quando a maré permite?"

Texto base de
Carlos Baptista Coelho
 e, na parte que a este diz respeito,
intromissão escrita por Gaspar Albino.


 

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