Domingo do mistério de Deus

(vulgo «da Santíssima Trindade», a 7 de Junho de 2020)

Há cada vez mais teólogos de renome a lastimar um domingo dedicado ao esforço da razão para «explicar» o mistério de Deus… O «mistério de um só Deus» foi substituído por uma «trindade de mistérios»: o de Deus criador, pai e mãe em plenitude; o de um ser humano que se deixou penetrar por Deus sem entraves da sua liberdade, conhecimento e vontade; o da actuação perene de Deus na história humana. Se não se pode provar e afirmar que «Deus existe» como é que podemos provar e afirmar que um determinado ser humano é Deus? Se a sua existência levanta sérios problemas, quem tem a arrogância de falar sobre «como» é Deus na sua intimidade? Se até toda esta terminologia de modo nenhum se pode referir a Deus adequadamente! Como diz serena e profundamente o cardeal Nicolau de Cusa, já no séc. XV: «Deus está fora de qualquer conceito», «é inefável»; só posso adorar como Deus aquilo que ultrapassa totalmente tudo o que é cognoscível (in De Deo abscondito). Só assim é que esta adoração também é amor em plenitude, amor sem medo, pois não está sujeito aos limites do amor entre os seres humanos, por mais nobre que se apresente. Mas por que é que dizemos que o amor está acima de todas as coisas? Porque se pode mover para o infinito, porque deseja a plenitude – porque o ser humano é inquieto, perante a consciência de não compreender a origem dessa inquietude, que é o mistério de Deus.

Este domingo também se podia chamar o «domingo do silêncio»: porque o amor não cabe em palavras e deseja poder confiar plenamente. As palavras até são enganosas ou pelo menos desajustadas e até infelizes. Por muito inteligentes e intuitivos que possamos ser, só ficamos a perder se nos prendemos a uma imagem de Deus «à semelhança» do nosso esforço racional.

Miguel Torga, no «Sexto dia» de A Criação do Mundo, conta a história de uma rapariga, fiel catequista, de comunhão diária, que foi obrigada a consultá-lo por afirmar que estava «grávida de três meses do Espírito Santo». Depois de a ter cuidadosamente examinado, o Dr. Rocha verificou que ela «estava como nascera». Não a conseguiu convencer como médico mas sim como poeta: advertiu-a que arriscava ir para o inferno, pois o Espírito Santo não podia ter dois filhos – ou deixava de haver trindade! E com que coragem se comparava a Nossa Senhora? «E despediu-se curada e agradecida».

Aveiro, 12-05-2020

 

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