Almanaque Desportivo do Distrito de Aveiro 1950, pág. 78.


Jornalistas Desportivos do Distrito

Tavares da Silva

Ex-seleccionador da equipa portuguesa de futebol, árbitro com galões de internacional, chefe da redacção da revista "Stadium", o categorizado colaborador desta página, e de tantas outras insertas nas mais variadas publicações desportivas, é natural de Veiros, concelho de Estarreja.

 A política do alargamento
       e expansão do futebol

Artigo de TAVARES DA SILVA

O alargamento da Primeira Divisão do Campeonato Nacional de futebol representou uma verdadeira conquista. O que levou muito tempo a levar a cabo não pode sumir-se com a facilidade com que se desfaz uma bola de sabão. De oito para catorze clubes foi um caminho percorrido em sucessivas etapas, gradualmente, hoje uma arrancada amanhã outra, mas sempre várias pessoas a gritarem aos quatro ventos que a tentativa era ousada e que o malogro seria certo e fatal. Mas o problema debatia-se com tal largueza e profundidade, especialmente por parte dos jornalistas especializados, que os dirigentes eram manifestamente compelidos a tomarem as medidas adequadas.

Lisboa, gozando de uma situação privilegiada, continuou a ter na Prova um número de representantes à altura do seu prestígio, importância e mérito, mas deixou evidentemente de só por ela abarcar metade dos participantes.

Os tempos do abrir a boca e engolir os outros desapareceram. Todos sabemos, mesmo, que a evolução se deu no bom sentido, e que, por efeitos do alargamento, o futebol assentou raízes em várias regiões, influenciando até em múltiplos sectores da actividade portuguesa.

Por efeitos desta expansão e das constantes e regulares deslocações dos clubes de Lisboa e Porto à Província, o desnível entre os concorrentes foi aos poucos desaparecendo, para dar lugar a um nivelamento técnico. Isto não significa, manifestamente, igualdade de valores, mas representa tão somente uma forte tendência do Jogo. O estado antigo de coisas, em que Lisboa vinha à Província, e ganhava sem esforço e com o sorriso da boa disposição, foi substituído pela fórmula de que todos os encontros são difíceis e não é possível vencer a batalha sem sangue, suor e lágrimas...

Só nos grandes centros urbanos era possível ver-se bom futebol e futebol praticado por boas equipas, mas, hoje, os factos modificaram-se profundamente, ao ponto de assistirmos a partidas de excelente qualidade, por vezes. em diferentes terras do País. A tendência dos clubes de Lisboa, aliás, com os pesados encargos que advêm da aquisição e manutenção dos melhores jogadores portugueses, apareçam eles onde apareçam (Rola, do Clube Desportivo de Estarreja, filiado na Associação de futebol de Aveiro, foi adquirido por setenta contos!) é para reduzirem as suas deslocações à Província e levantarem organizações que lhes permitam fazer face às suas grandes despesas, para as quais não chega uma cotização fabulosa.

Julgamos, porém, através de tudo, que já não se voltará para trás, devendo intensificar-se a propaganda do jogo e a sua expansão. A orientação da centralização do futebol apenas nos grandes centros urbanos cederá necessariamente o passo à directriz de fazer intervir nos grandes campeonatos um número cada vez maior de clubes disseminados pelas várias regiões do País. Exige-o, racionalmente, o desenvolvimento do futebol.

Infelizmente, um número grande de Associações ainda não tem representação num Campeonato que se diz de Portugal, mas que é de âmbito restrito. Na época passada, toda a faixa do centro do País, de Lisboa ao Porto, ficou em branco, pela descida da Associação Académica, felizmente já de regresso; e, na presente temporada, dá-se o facto, que consideramos grave, de se efectuarem desafios da Primeira Divisão, no Porto, domingo sim domingo não.

É, nesta altura, quando tudo indicava que se insistisse na orientação, dando-se a fixação no número de catorze, que é um passo para novo alargamento e abrir de mais amplas perspectivas, que vem a medida, que consideramos iníqua, da redução para doze, por uma penada federativa, sem se atender ao tremendo esforço realizado em determinadas regiões, a direitos conquistados, numa visão mesquinha e limitada do que interessa ao futebol português.

A corrente sadia e menos apegada aos Grandes Clubes, que, aliás, não deixa de considerar e ter em alta conta ― ainda no ano passado quase todos os participantes da Primeira Divisão pediram para o número de 14 ser alargado para ingresso da Académica ― continua a defender a orientação do Campeonato da Primeira Divisão abrir aos poucos as asas de maneira a cobrir e a abarcar todo o território português. Necessariamente que os estreantes na Prova devem reflectir no começo hesitações de toda a ordem, mas a sua educação técnica não deixará de dar-se. À volta desses clubes juntam-se todas as forças da região, surgindo assim equipas fortes.

A Associação de Futebol de Aveiro ― escrevemos de Aveiro, numa manhã chuvosa, mas com a ria refulgente em tons maravilhosos de um azul suave e doce ― uma das mais importantes do Pais, pela quantidade de jogadores inscritos e pelo número de clubes importantes espalhados na sua jurisdição, não participa na Primeira Divisão. Até um dia...

Pensemos todos no que este facto representaria para o distrito, em movimento e força, expansão desportiva e fortalecimento dos clubes. O dia há-de chegar!


 

Página anterior Página de opções Página seguinte