Hiperligação para a hierarquia superior.

Sandomil

Entre o passado e o futuro

In: "Notícias", 20 de Abril de 2011, pág. 10

Para quem vem do distrito de Coimbra, fica Sandomil à entrada do distrito da Guarda, servindo de sala de visitas do concelho de Seia a que pertence. Perdi-me logo à saída de Oliveira de Hospital e lá fui andando até Torrozelo, mas antes vi o caminho pedonal para Sandomil. Vi uma placa que indicava o caminho para Sandomil e fui por ali abaixo à espera de encontrar um lugar para fotografar uma paisagem fabulosa. Era difícil por a estrada ser má e não haver qualquer desvio. Como receei atravancar o trânsito, fui andando até chegar a uma urbanização moderna onde havia vários lotes para venda. Fotografei-os logo.
 

Para quem vem do distrito de Coimbra, fica Sandomil à entrada do distrito da Guarda, servindo de sala de visitas do concelho de Seia a que pertence. Perdi-me logo à saída de Oliveira de Hospital e lá fui andando até Torrozelo, mas antes vi o caminho pedonal para Sandomil. Vi uma placa que indicava o caminho para Sandomil e fui por ali abaixo à espera de encontrar um lugar para fotografar uma paisagem fabulosa. Era difícil por a estrada ser má e não haver qualquer desvio. Como receei atravancar o trânsito, fui andando até chegar a uma urbanização moderna onde havia vários lotes para venda. Fotografei-os logo.

Quando parei, vi que outra realidade estava bem perto. De facto, as traseiras das casas antigas serviam de muralha para um mundo rural bem diferente, fazendo recordar o tempo em que Sandomil era a horta do Seia e de Oliveira do Hospital e lugares em volta, pois a abastecia de muitos mimos da agricultura familiar que o Alva potencia.


Agora, que a emigração a esvaziou de gente, parece que só o desemprego faz com que se plantem leiras de pimentos como forma de minorar a falha de rendimentos. E no site da freguesia diz-se que ainda agora abastece de “miúças”, plantas para replantar uma larga região.

Mas, o facto de em S. Paio haver várias fábricas e muita actividade que engarrafam a estrada, faz com que o desemprego não aflija Sandomil. Só a aflige a quebra da actividade comercial que desanima alguns que pensam em encerrar e onde outros se limitam a aguardar um “milagre”. Parece.

Falam-me de que vai fechar a padaria e as lojas onde espreito o vazio e prevejo a falta do proprietário. Animado estava o café Passatempo onde muitos discutiam animadamente a crise, e por causa dela Sócrates, a madrinha Merkel e o padrinho Sarkozy. É o resultado de uma cultura emigrante que retornou para dar uma nova consciência da nossa ligação ao mundo. É o Passa-Tempo um entre cinco cafés.

Sandomil - Clicar para ampliar.
Aspecto de Sandomil. Clicar para ampliar a imagem.

Vi ainda muitas casas encavalgadas umas nas outras, mostrando como Sandomil tem crescido de forma anárquica nos últimos anos, mostrando como lhe falta um pensamento urbano, que a valorize como passado e presente. Entretanto, prosseguem as construções e reconstruções de casas, mas persistem casas degradadas e com elas a necessidade de repensar e requalificar Sandomil. Há como marca da história uma ponte antiga que dizem ser romana, uma ponte pênsil e uma ponte nova que a liga às anexas: Corgas, Furtado e Cabeça de Eiras. Como sempre há também entre Sandomil e as suas anexas uma rivalidade intensa que os blogues locais documentam. Infelizmente, algumas comissões de melhoramentos deixaram de ter actividade.

Falta agora que os sandomilenses discutam o seu património histórico, mal estimado, pior enquadrado e, infelizmente, mal interpretado num percurso turístico, onde as casas brasonadas devem inserir-se na nossa história secular. É o caso do Conde de Sandomil que reclama mais investigação histórica sobre a sua acção na Índia. O mesmo acontece com as suas igrejas e os seus santos, também eles alvos de rivalidades entre sede e anexas. Mas, se ainda há baptizados e ainda cinco vezes mais funerais, os idosos aproveitam a vida e convivem nos muitos bancos da aldeia. Também a Associação Humanitária de Sandomil existe para os apoiar cultural e desportivamente. E emprega cerca de 20 pessoas. Que bom.

Junto ao rio, ao atravessarmos na ponte pênsil, encontramos um parque de lazer que pode e deve ser um ponto de atracção com o seu bar Agarraventura. Por culpa de um incêndio florestal que poluiu o Alva e mais ainda por inércia, falta-lhe agora o peixe no rio. Era o que podia atrair pescadores para as suas margens, mas estas são já bem atractivas para um passeio calmo. Infelizmente, ao lado um belo restaurante, como aventura empresarial, encerrou talvez por erros vários e bem mais por falta de um plano turístico concelhio e regional que valorize esta paisagem. Foi o que, infelizmente, lançou mais desânimo na aldeia. Agora, outros fazem contas e prevêem a possibilidade de êxito futuro e com ele mais emprego. De facto, estes tempos de crise, quando a euforia deu lugar à calma, permitem pensar o futuro com mais realismo. Espera-se só que o Estado e as autarquias pensem o apoio a dar com pragmatismo e sem as megalomanias do passado.

Aires Antunes Diniz

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