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AVE...
ave... Lá está! Lá está a ave ao centro das armas de Aveiro: Uma
ave sobre céu verdadeiro. Fizeram bem em circundar a ave com o céu
e os astros. Nada da terra e nada do mar. O ar e a luz, apenas. É
heráldica feliz. A linda e luminosa região de Aveiro, rica de
terra e de mar, não pôde deixar de prestar, no seu próprio escudo,
a sua melhor homenagem ao ar e à luz. ê prova de gratidão perene.
Achamos certo e justo. Os xailes das mulheres têm mais de ave do
que parecenças com qualquer coisa da terra ou do mar. Mais do que
nada, foram, sem dúvida. o ar e a luz que fixaram Aveiro aqui
neste largo de terra mesmo ladinho ao mar. O ar parece mesmo daqui
de Aveiro, e a luz, essa, entornou-se aqui por cima, fora de toda
as regras de iluminação, esbanjadoramente, milagre do disparate de
aprendiz que não estivesse prático em manejar as torneiras da luz.
Autêntico milagre do sol não ter espírito de economia.
Precisamente: mãos rôtas de luz!
Aveiro
não tem fronteiras nem no mar, nem em terras nem no ar. As
fronteiras do mundo não passam por aqui. Em todas as direcções o
horizonte ou o zénite estão no infinito. Não há aqui possibilidade
de obstar o além. Todas as alturas, incluída a aviação, serão
infrutíferas para abrangermos com a atmosfera esta paisagem de mar
e terra, ambos ao mesmo nível e metidos um pelo outro, com
promiscuidade, sem os naturais limites da personalidade.

De
modo que a mais extraordinária vista de Portugal não tem varanda
para a vermos. Já Oliveira Martins mandou irmos vê-la dos montes
de Angeja (9 quil.). Não estamos de acordo. É pouco. A única forma
de podermos ter uma vaga ideia destas vastidões e de conhecermos
as medidas próprias para sonhar devidamente este panorama,
consiste em cruzarmos a região nas várias direcções com o mapa na
cabeça. Escusado será dizer que este mapa não se encontra à venda,
coincide com o oficial, mas é pessoal e intransmissível.
E isto é
tão verdade que estamos aqui no pedaço de Portugal onde há mais
bicicletas. Mais bicicletas, sinónimo de plano, de raso. Por
conseguinte, lealmente vos digo que o único sítio donde podereis
ver com exactidão toda a maravilha destas paragens de Aveiro está
convosco mesmos, deixando subir livremente o sangue à imaginação.
De [p.13] nenhuma outra forma diferente desta podereis,
condignamente, corresponder à natureza. Algumas das célebres
aguarelas de Turner podiam ter por título Aveiro. Turner, sobre
uns centímetros de terra na tela punha-lhe quilómetros cúbicos de
ar e nuvens iluminadas com aquela extravagância que a imaginação
não supera. Como as cores mal lhe cabiam no fiozinho de terra, vá
de estendê-las pelo ar e pelas nuvens com uma prodigalidade para
muitos irreconhecível. Pois vinde a Aveiro: as cores que o ar e as
nuvens usam aqui são uma homenagem permanente da natureza ao
fantasista Turner. O pior é que a homenagem desbota Turner.
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Há
vários milhares de anos caíram aqui as célebres janelas do palácio
do Céu. Ficaram intactas as vidraças nos respectivos caixilhos
porque as janelas caíram sobre a relva verdinha, Hoje são as
salinas.
*
Não é
impunemente que o rio, aqui em Aveiro, muda de sexo e toma o
feminino ria. Em Aveiro reina o feminino. O homem anda pró mar e
noutros giros de homem e a casa é ao gosto dela. E se bem que o
gosto dela seja para gosto dele, o cuidado é dela. Essa vocação de
esperar e de guardar o sítio que têm as mulheres faz o perfil das
gerações e das regiões. E aqui é tão evidente que a fisionomia de
Aveiro é francamente feminina. Mas ao dizer mulher não
completaríamos o sentido se não lhe juntássemos povo. Não é
questão de juntar palavras e pôr mulher do povo, não, é outra
coisa:
Em
toda a parte acontece haver uma uniformização de tipos, apesar das
raças diferentes que lá se cruzaram; e se há, de [p.14] facto, um
tipo ao qual possamos chamar português, não é um tanto com as
feições que devemos contar, como
com determinada expressão comum que nelas se inclua. Mais
surpreendente que noutra parte, Aveiro dá-nos o tipo inconfundível
da portuguesa. Ainda que qualificada pela região, lá está aquela
determinada expressão comum a uniformizar os vários caracteres
fisionómicos. Seja por que for, esta gente pronuncia bem o
português, e sem denúncia da região, como acontece em todas as
outras. Paramos a cada passo, não para escutar conversas mas para
ouvir as vozes a falar. Para ouvir e para ver. Aquela expressão
comum a nós todos está lá, com todo o seu invencível. A
uniformização fez-se. E é a toda a amplidão desta uniformização
que podemos devidamente chamar povo.
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As
mulheres de Aveiro são no seu conjunto (digo exactamente: no seu
conjunto) o melhor tipo físico de portuguesa. A sua maneira de
andar (que já a notou uma Rainha) é impressionante: uma graça
antiquíssima vivida pelos nossos olhos dentro; a sua presença
igual à que tínhamos visto há séculos nas margens do Mediterrâneo;
a sua feminilidade a um tempo sadia e delicada, isto é, bem
meridional; tudo isto demasiado comum e evidente para que o não
notemos. Simplesmente, neste firmamento humano as estrelas são
todas da mesma grandeza.
De vez em quando uma estrela cadente
risca, instantaneamente, este firmamento: é uma excepção que se
escapa à uniformização. De modo que Aveiro, aqui no meio de
Portugal e o mais longe que se pode estar de qualquer fronteira
com o estrangeiro, dá-nos a impressão, à qual não podemos fugir,
de ser a nascente natural da semente portuguesa.
Lê-se
perfeitamente em Aveiro, à luz prodigiosa deste céu incrível, a
verdadeira noção da palavra povo, esse segredo sereno e longínquo,
e que tem os vassalos da sua tirania sempre prontos para a ligação
dos dias aos anos e aos séculos, quando haja e quando não haja
cabeça.
Almada Negreiros |