In: Rev. "Panorama", Junho 1941, n.º 1, vol. I, pp. 12-14.

 

Aveiro, Primeiras impressões

por José de Almada Negreiros

Acesso ao ORIGINAL

AVE... ave... Lá está! Lá está a ave ao centro das armas de Aveiro: Uma ave sobre céu verdadeiro. Fizeram bem em circundar a ave com o céu e os astros. Nada da terra e nada do mar. O ar e a luz, apenas. É heráldica feliz. A linda e luminosa região de Aveiro, rica de terra e de mar, não pôde deixar de prestar, no seu próprio escudo, a sua melhor homenagem ao ar e à luz. ê prova de gratidão perene. Achamos certo e justo. Os xailes das mulheres têm mais de ave do que parecenças com qualquer coisa da terra ou do mar. Mais do que nada, foram, sem dúvida. o ar e a luz que fixaram Aveiro aqui neste largo de terra mesmo ladinho ao mar. O ar parece mesmo daqui de Aveiro, e a luz, essa, entornou-se aqui por cima, fora de toda as regras de iluminação, esbanjadoramente, milagre do disparate de aprendiz que não estivesse prático em manejar as torneiras da luz. Autêntico milagre do sol não ter espírito de economia. Precisamente: mãos rôtas de luz!

Aveiro não tem fronteiras nem no mar, nem em terras nem no ar. As fronteiras do mundo não passam por aqui. Em todas as direcções o horizonte ou o zénite estão no infinito. Não há aqui possibilidade de obstar o além. Todas as alturas, incluída a aviação, serão infrutíferas para abrangermos com a atmosfera esta paisagem de mar e terra, ambos ao mesmo nível e metidos um pelo outro, com promiscuidade, sem os naturais limites da personalidade.

De modo que a mais extraordinária vista de Portugal não tem varanda para a vermos. Já Oliveira Martins mandou irmos vê-la dos montes de Angeja (9 quil.). Não estamos de acordo. É pouco. A única forma de podermos ter uma vaga ideia destas vastidões e de conhecermos as medidas próprias para sonhar devidamente este panorama, consiste em cruzarmos a região nas várias direcções com o mapa na cabeça. Escusado será dizer que este mapa não se encontra à venda, coincide com o oficial, mas é pessoal e intransmissível. E isto é tão verdade que estamos aqui no pedaço de Portugal onde há mais bicicletas. Mais bicicletas, sinónimo de plano, de raso. Por conseguinte, lealmente vos digo que o único sítio donde podereis ver com exactidão toda a maravilha destas paragens de Aveiro está convosco mesmos, deixando subir livremente o sangue à imaginação. De [p.13] nenhuma outra forma diferente desta podereis, condignamente, corresponder à natureza. Algumas das célebres aguarelas de Turner podiam ter por título Aveiro. Turner, sobre uns centímetros de terra na tela punha-lhe quilómetros cúbicos de ar e nuvens iluminadas com aquela extravagância que a imaginação não supera. Como as cores mal lhe cabiam no fiozinho de terra, vá de estendê-las pelo ar e pelas nuvens com uma prodigalidade para muitos irreconhecível. Pois vinde a Aveiro: as cores que o ar e as nuvens usam aqui são uma homenagem permanente da natureza ao fantasista Turner. O pior é que a homenagem desbota Turner.

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Há vários milhares de anos caíram aqui as célebres janelas do palácio do Céu. Ficaram intactas as vidraças nos respectivos caixilhos porque as janelas caíram sobre a relva verdinha, Hoje são as salinas.

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Não é impunemente que o rio, aqui em Aveiro, muda de sexo e toma o feminino ria. Em Aveiro reina o feminino. O homem anda pró mar e noutros giros de homem e a casa é ao gosto dela. E se bem que o gosto dela seja para gosto dele, o cuidado é dela. Essa vocação de esperar e de guardar o sítio que têm as mulheres faz o perfil das gerações e das regiões. E aqui é tão evidente que a fisionomia de Aveiro é francamente feminina. Mas ao dizer mulher não completaríamos o sentido se não lhe juntássemos povo. Não é questão de juntar palavras e pôr mulher do povo, não, é outra coisa:

Em toda a parte acontece haver uma uniformização de tipos, apesar das raças diferentes que lá se cruzaram; e se há, de [p.14] facto, um tipo ao qual possamos chamar português, não é um tanto com as feições que devemos contar, como com determinada expressão comum que nelas se inclua. Mais surpreendente que noutra parte, Aveiro dá-nos o tipo inconfundível da portuguesa. Ainda que qualificada pela região, lá está aquela determinada expressão comum a uniformizar os vários caracteres fisionómicos. Seja por que for, esta gente pronuncia bem o português, e sem denúncia da região, como acontece em todas as outras. Paramos a cada passo, não para escutar conversas mas para ouvir as vozes a falar. Para ouvir e para ver. Aquela expressão comum a nós todos está lá, com todo o seu invencível. A uniformização fez-se. E é a toda a amplidão desta uniformização que podemos devidamente chamar povo.

As mulheres de Aveiro são no seu conjunto (digo exactamente: no seu conjunto) o melhor tipo físico de portuguesa. A sua maneira de andar (que já a notou uma Rainha) é impressionante: uma graça antiquíssima vivida pelos nossos olhos dentro; a sua presença igual à que tínhamos visto há séculos nas margens do Mediterrâneo; a sua feminilidade a um tempo sadia e delicada, isto é, bem meridional; tudo isto demasiado comum e evidente para que o não notemos. Simplesmente, neste firmamento humano as estrelas são todas da mesma grandeza. De vez em quando uma estrela cadente risca, instantaneamente, este firmamento: é uma excepção que se escapa à uniformização. De modo que Aveiro, aqui no meio de Portugal e o mais longe que se pode estar de qualquer fronteira com o estrangeiro, dá-nos a impressão, à qual não podemos fugir, de ser a nascente natural da semente portuguesa.

Lê-se perfeitamente em Aveiro, à luz prodigiosa deste céu incrível, a verdadeira noção da palavra povo, esse segredo sereno e longínquo, e que tem os vassalos da sua tirania sempre prontos para a ligação dos dias aos anos e aos séculos, quando haja e quando não haja cabeça.

Almada Negreiros

Colaboração
Rui Teixeira
23-12-2025