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João André Nolasco Dias Ferreira
(
3º Ciclo
- Secª J. Estêvão)

Amizade ameaçada


— «Havia uma altura em que reinava a paz. Antes dos reis, antes das guerras. O sol brilhava mais do que nunca, mais dourado do que o ouro. A brisa do vento balançava alegremente as flores, as intermináveis sinfonias dos pássaros ouviam-se vindas de cima das árvores. Tudo estava limpo. Imensidões de espécies de animais corriam na erva fresca. Tudo era suave, tudo era mágico.».

— Por favor, pára de ler isso, Rafa! — Disse o António.

— Qual é o problema de ler um livro? — Perguntou o Rafael.

— O Tó tem razão — afirmou a Mariana. — Já estamos fartos de te ouvir. Não sabes ler nada mais engraçado?

Os três amigos estavam no parque que ficava junto às suas casas. Naquele dia quente de Verão, estar com os amigos era óptimo. Contavam-se piadas, punha-se a conversa em dia e era bom para descontrair, porque estar sempre metido em casa em frente da televisão ou do computador não era nada fixe num dia tão bom como aquele.

— Que acham deste dia, hem? — Perguntou o Rafael. — Eu acho um espectáculo, não há nada melhor do que o Verão!

— Tens razão — concordou o António. — No Verão não há daqueles dias cinzentos em que temos de ficar em casa fechados como se fossemos escravos.

— Temos de aproveitar estes dias de férias em que não fazemos nada. Daqui a alguns dias já estamos em aulas outra vez — disse a Mariana.

— Pois é. Já só falta uma semana — lembrou o António.

— Vejam as coisas pelo lado bom — animou o Rafael. — Ainda temos alguns dias de férias e a escola para onde vamos é outra. Vamos para o sétimo ano, lembram-se? Vamos conhecer malta nova e tudo, pá!

— Pois é! — Disse outra vez o António. — Bem, é melhor ir andando para casa. A minha mãe deve estar à minha espera.

— Eu também. — Disse a Mariana.

— Até amanhã. — Despediu-se o Rafael.

O António gostava muito dos seus dois amigos. Tinham andado nas mesmas escolas desde o primeiro ano e viviam os três na mesma rua. Do outro lado dessa rua havia um parque para onde iam aos fins-de-semana ou nas férias, e falavam uns com os outros. Estavam na última semana das férias do Verão, a última antes do regresso às aulas, que trazia uma novidade para eles. Os amigos iam iniciar o sétimo ano e mudar para uma outra escola, assim como outros alunos. Iam fazer novas amizades. Iam ter novos professores e o António não sabia se o Rafael e a Mariana iriam continuar a ser os seus dois melhores amigos.

À hora do jantar, a mãe do António serviu a sopa e perguntou:

— Então, António, tudo preparado para o novo ano de aulas que aí vem?

— Tem de ser! Este ano vai ser a matar! — Respondeu o António.

— Óptimo! — Disse a mãe. — Olha, já vieram as listas com os livros para a tua escola. Vamos comprá-los depois de amanhã, porque amanhã tenho de arrumar algumas coisas.

— Está bem! — Respondeu o António.

No dia seguinte, o António foi ter com os seus dois amigos ao parque junto da sua casa. Entretanto, o Rafael perguntou ao António:

— Já recebeste a lista com os livros para a escola?

— Já. Recebi-a ontem. — Respondeu o António.

— Eu também — disse a Mariana. — Podemos combinar quando é que os vamos comprar para podermos ir todos juntos.

— A minha mãe disse que ia comigo amanhã. — Respondeu o António.

— Tudo bem! — Disse a Mariana. — Por mim, tudo bem. De certeza que os meus pais vão concordar em ir amanhã. E tu, Rafa?

— Na boa! — Respondeu. — Amanhã podem contar comigo que eu estou lá.

— Então, até amanhã. — Disse o António. — Tchau!

— Até amanhã!

Todos os anos, os três amigos, o António, o Rafael e a Mariana, iam com os seus pais a uma livraria que ficava na baixa da cidade onde viviam. Para o António, isso era óptimo. O António gostava de partilhar momentos da sua vida com os amigos. Na maior parte das vezes, enquanto os pais arranjavam os livros, o António podia ir para algum sítio com os seus amigos e pôr a conversa em dia, porque, apesar de viverem os três na mesma rua, não se viam todos os dias.

No dia seguinte, o António foi com os pais à baixa para comprar os livros. Quando chegaram, o António sacudiu os ombros e disse:

— Bem, vou andar por aí a ver se encontro os meus amigos. Até logo!

Começou a vaguear pela baixa, a parar aqui e ali, a ver algumas montras. Até que, passada já uma quantidade considerável de tempo, ouviu um par de vozes familiares a chamá-lo pelo nome. Voltou-se e viu o Rafael e a Mariana, com expressões alegres, sentados numa esplanada. Foi ter com eles e sentou-se numa cadeira vazia na mesa dos amigos.

— Onde é que vocês os dois estiveram? Há séculos que andava à vossa procura!

Olhou para os outros dois e, numa fracção de segundo, viu-os trocarem olhares. Não gostou nada disso. Achou que eles lhe estavam a omitir alguma coisa e ficou preocupado, mas tentou esconder a preocupação e continuou:

— Vamos voltar para a livraria. Os nossos pais já se devem ter despachado.

Depois de uma nova troca de olhares, o Rafael e a Mariana disseram:

— Está bem!

— Bora lá!

Enquanto caminhava para a livraria com o Rafael e a Mariana, o António pensava naquele assunto tão estranho. Era um bocado injusto que amigos de tão longa data ficassem assim estranhos de repente. Por outro lado, tinha medo que eles descobrissem aquilo em que pensava. Mesmo assim, continuou a caminhar como se nada fosse. Contudo, queria investigar o assunto. Entretanto, os três amigos chegaram à livraria no momento em que saíam de lá os seus pais. Como já se fazia tarde, o António, o Rafael e a Mariana despediram-se uns dos outros e acompanharam os pais de volta para suas casas.

O António passou os últimos dias de férias a arrumar e a rever algumas coisas para a escola. Por isso, não pôde sair para o parque para falar com os seus amigos, Rafael e Mariana. Mesmo assim, espreitava regularmente pela janela, para saber se eles apareciam ou não por lá. Como não os viu durante aqueles dias todos, não se preocupou muito com a falta que lhes pudesse fazer. Naquela altura, estava mais preocupado em preparar-se para o regresso às aulas. Ele queria mesmo sair-se bem naquele ano.

Quando chegou a véspera do dia do começo das aulas, a mãe do António levou-o à escola para verem as listas das turmas. O António já sabia que ia ficar com o Rafael e com a Mariana na mesma turma, mas não sabia que não havia mais ninguém com o nome iniciado pelas letras entre M e R, ficando o Rafael a seguir à Mariana na listagem dos alunos. Foram então apresentados, juntamente com os outros colegas, à directora de turma, que lhes forneceu informações e explicou as regras da escola. A turma tinha vinte e quatro alunos. Um deles era o Carlos. Usava óculos, tinha cabelo curto. Rapidamente simpatizou com o António. Um outro era o Francisco, que era alto e muito engraçado. Havia ainda o Jorge, o Henrique, o Afonso e outros rapazes e raparigas que não eram conhecidos do António até então.

No dia seguinte, começaram as aulas. O António ficou sentado junto do Afonso. Este era um aluno um bocado distraído, que lhe pedia ajuda regularmente, mas o António não se importava de lhe explicar os exercícios. O Rafael ficou sentado ao pé da Mariana. À medida que os dias passavam, eles começaram a ter um comportamento cada vez mais estranho. Estavam sempre a conversar um com o outro nas aulas, o que já era esquisito, uma vez que a Mariana costumava ser uma boa aluna e, agora, perdia-se também em brincadeiras. Os professores chamavam-lhes várias vezes a atenção. Para além disso, desapareciam misteriosamente em quase todos os intervalos. Já praticamente nem falavam com o António e, quando o faziam, estavam sempre a trocar olhares como se soubessem algo de muito importante que ele desconhecia. O António não percebia o que se passava com eles e começou a ficar seriamente preocupado com o assunto. Achava que o Rafael e a Mariana já não queriam ser seus amigos. Por outro lado, a sua amizade com os novos colegas de turma evoluía. Havia na turma uma rapariga chamada Luísa, que era muito estudiosa e simpática. Havia outra rapariga, a Catarina, que já era amiga da Luísa, porque vinham da mesma escola. Às vezes as duas ajudavam-no a resolver alguns exercícios. Também fez amizades com o Eduardo e com o Diogo, que eram dois outros alunos da turma com quem andava nos intervalos.

Quando chegou o fim-de-semana, depois de acabar os trabalhos de casa, o António saiu para dar um passeio pelo parque, onde ia regularmente. Preparava-se para atravessar a rua, quando viu, sentados num banco do parque, o Rafael e a Mariana a beijarem-se calorosamente. Fez-se luz no espírito do António! Agora percebia tudo. Todos aqueles sinais misteriosos que o tinham atormentado nos últimos dias ganhavam significado! O António voltou para casa, porque queria pensar melhor no assunto. Percebia que eles quisessem passar mais tempo juntos, mas perguntava-se por que razão os seus amigos já não falavam com ele. Porque é que não lhe tinham ao menos contado que estavam juntos? Talvez já não quisessem a sua companhia. O António ficou aborrecido. Fechou-se no quarto, deitou-se na cama e deixou-se adormecer.

Na segunda-feira, antes da primeira aula, o Rafael foi falar com o António:

— Ei, António! Tenho uma coisa para te dizer.

— Vais contar-me a história do teu namoro com a Mariana? — Interrompeu o António. — Não te preocupes, já descobri. Não foram lá muito discretos quando estiveram no parque no sábado.

— Pensei que ficasses um bocado abalado com a notícia. — Disse o Rafael.

— Fiquei um pouco chateado por não me teres contado antes. — Respondeu o António. — Pensava que, por causa disso, já não queriam falar comigo.

— 'Tás a ver? Estávamos um bocado inseguros em relação à tua reacção! — Desabafou o Rafael.

— Não há problema nenhum. Continuo a ser vosso amigo. — Respondeu o António.

— Fixe! A Mariana vai ficar contente com isso! — Exclamou o Rafael.

A partir dessa altura, o António, a Mariana e o Rafael passaram a ser os melhores amigos de sempre, como já tinham sido antes. Voltaram a encontrar-se no parque frequentemente. Foram os melhores alunos da turma e terminaram o ano com excelentes resultados. Mais tarde tiraram o curso de Medicina. Um ano depois, o Rafael casou com a Mariana. O António foi o primeiro a receber um convite para o casamento.
 

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