Joanão e Joaninha

(Teatro infantil)

(Peça em um acto)

 

 

 

I - Apresentação

 

II - A peça de teatro

 

III - Listagem alfabética dos colaboradores

 

IV - Apreciações críticas

 

I

Peça levada à cena, pela 1.ª vez — 13-DEZ-1969 (dois espectáculos) — no TEATRO AVEIRENSE, integrado no "NATAL DA CELULOSE / 1969".

Movimentou perto de 40 participantes: cenaristas, carpinteiros de cena, técnicos da luz e do som, actores, contra-regra e ponto...

 

O TEATRO COMO ESPECTÁCULO NATALÍCIO
NA COMPANHIA PORTUGUESA DE CELULOSE

 

A década de 1960 foi a época de mais exibições do Grupo Cénico do CAT/Celulose. Chegou mesmo a construir-se um pequeno e mal-amanhado pavilhão em madeira, junto ao Portão Poente, do lado de fora da vedação fabril, para aí se fazerem os ensaios do Grupo e até para palco, por duas ou três vezes, dos espectáculos do "1.º de Maio".

As Festas de Natal, para terem melhores cómodos, realizavam-se em Aveiro, em um dos grandes palcos da cidade. Mas diga-se desde já que, tanto nas Festas de Natal como nas do 1.º de Maio, se produziu bom teatro amador, quase sempre com a participação exclusiva dos próprios trabalhadores e dos seus filhos, pois muitas das peças eram dedicadas e feitas pelas próprias crianças em verdadeira comunhão de cultura com os adultos intervenientes.

E se dou realce ao teatro feito na década de 1960 é porque, depois do pronunciamento de 1974, os responsáveis pela realização dessas festas preferiram recorrer, as mais das vezes, ao aluguer de grupos cénicos estranhos ao CAT ou ao espectáculo mais baratucho duma qualquer parelha de palhaços, meio artístico onde nem sempre abunda a boa qualidade.

O Dr. João de Almeida, um prestigiado e culto Chefe de Serviços até então ao serviço da Empresa, no prefácio com que honra o meu livro "ESCRITOS" (1985), recorda esses tempos: «Muitas das anteriores Festas de Natal, quase sempre produto da prata da casa — que não havia, então, dinheiro para mais — tiveram como seus pontos altos as peças de teatro que o CAT produzia, escritas e encenadas pelo Bartolomeu Conde, também actor de muito mérito, numa actividade que constituía, de resto, um prolongamento da que já desenvolvia no CETA".»

Excluindo o que, por amizade, é empolado a meu favor, ficam de pé, como corroboração do que atrás fica indiciado, as peças de teatro infantil que guardo no meu espólio ARTISTA e que serão, ao fim e ao cabo, fios de memória eventualmente mais duradoiros que "aquilo" que a terra transforma em água, bolor e pó.

E ao respigar para esta edição uma dessas peças (*) — "JOANÃO e JOANINHA" — presto assim, em nome de uma plêiade de "jovens", testemunho dos que, ocupando as suas horas de lazer, deixaram o seu nome gravado em muitas e diversas actividades culturais que se desenvolveram na Empresa: grupos de teatro, cursos de alfabetização, aulas de "explicações" a filhos de trabalhadores, colaboração em boletins informativos e na revista mensal "O NOSSO JORNAL", cadernos culturais e historiográficos, textos de prosa, poesia, etnografia... com o posterior beneficio da sua publicação em livros editados pela Empresa, etc. etc.! Tudo feito gratuitamente e com a alegria própria de quem vivia numa comunidade que a si mesma se gabava de ser a "família celulósica".

Que vos apraza a leitura de "JOANÃO E JOANINHA".

            Bartolomeu Conde

___________________________

(*) — "A Cidade dos Homens", "Elogio à Árvore" — jograis: "O Homem da Cobra" — pantomina: e "Recordando..." — fantasia infantil inspirada no folclore regional (salineiros, moliceiros, pescadores, desfolhadas, etc.). Esta peça movimentou mais de trinta crianças, todas filhas de trabalhadores da Empresa.

II

JOANÃO E JOANINHA

 

Narrador: Atenção! A—ten—ção! Minhas meninas e meus meninos escutai a fantástica história do pastor Joanão e da Princesa Joaninha, que ficou com o nariz do tamanho duma pinha!

Voz de criança 1: Fala mais alto!

Voz de criança 2: Aqui atrás não se ouve bem!

Voz de criança 3: Mais alto! Mais alto!

Narrador: E agora, ouvis bem?

Voz de criança (todas): Muito bem! (palmas)

Narrador: Pouco barulho! A—ten—cão! Eu vou principiar a história: havia um pastorzinho chamado João. Uns, chamavam-lhe João: outros não. Por isso ficou a ser Joanão. (noutro tom) Não era lá muito esperto, coitado...

Voz de criança 1: (menina) Nem lindo!

Voz de criança 2: Nem sabia ler!

Voz de criança 3: Era pobre como Job!

Narrador: Chiu! Essa agora! Mas era honrado e leal!

Voz de criança 4: Era, mas era, um grande simplório!

Narrador: Lá isso era! Por Deus, não tinha maldade nenhuma: Passava os dias com as ovelhinhas, a tocar flauta... Ouçam, ouçam, lá está ele na Várzea do Outeiro Verde... (ouve-se música campestre de flauta). Querem saber, fugiu-lhe uma ovelha... (mé, mé, mé... tlim, tlim, tlim...)

Joanão: (entrando) Borrega, borreguinha, onde estás tu? Anda cá, sou teu amigo! Borrega, borreguinha...

Narrador: E foi assim que Joanão descobriu à janela do Castelo a Princesa Joaninha.

Princesa: (com uma pomba no regaço) Sobe, sobe lá aos céus, traz-me um príncipe encantado... e rico... e forte... e belo... Ah! que quereis pastor?

Joanão: Procuro minha ovelhinha, Real Princesa! (aparte) Que linda, ai tão linda!... O meu coração palpita... Minha cabeça anda à roda... Nunca vi menina tão linda!... (alto) Gosto de ti, Princesinha!

Princesa: Tu, pastor!... Ah! Ah! Ah! (alto) Escudeiros, pagens, cavaleiros, corram daqui este pastor! Para longe, muito longe daqui.

Pagens: (entrando de corrida, a empurrar Joanão) Ah! Ah! Ah!

Pagem 1: Já viram tal palerma!

Pagem 2: Leva que contar para a aldeia!

Pagem 3: Se ele cá voltar!

Pagem 4: Ele que experimente...

Pagens (todos): Ele que experimente! (voltam para dentro do castelo)

Narrador: Claro, Joanão, apesar da sova, ficou apaixonado pela linda Princesa. Todos os dias passava com o seu rebanho perto do Castelo do Rei, olhando para a janela. Por vezes, sentava-se e tocava a sua flauta! Mas sempre que o via, a princesa mandava-o correr pelos seus pajens.

(Joanão entra a tocar flauta e a olhar para a janela da Princesa)

Princesa: (aparecendo à janela) Fora! Fora daqui... Escudeiros...

(Os pagens saem a correr do Castelo)

Pagem 1: Embora daqui, seu palerma...

Pagem 2: Seu pacóvio...

Pagem 3 e 4: Pastor de ovelhas ranhosas...

Pagens (todos): Ah! Ah! Ah! (Voltam para o Castelo)

Narrador: Mas o pobre de Joanão tinha o coração cheio da beleza de Joaninha. Os seus olhos só viam Joaninha. Um belo dia, o pai de Joanão, sentindo que estava prestes a morrer, chamou o filho e disse-lhe assim: (Imitando a voz do Pai de Joanão, pausada) «Estou velho meu filho. Pouco mais durarei. Vais ficar só no mundo mais as tuas ovelhas. Chega-te mais a mim, meu filho: olha, há um tesouro enterrado junto à macieira grande, ao fundo do quintal. Se cavares uma cova de três palmos, logo encontrarás uma caixa reluzente. Dentro dela estará uma libra de ouro e uma corneta. Ambas as coisas são dotadas de poder mágico. A libra, por muitas coisas que compres, nunca se gastará. E a corneta, quando a tocares, faz com que apareça de repente um exército numeroso, contra o qual não há força que o vença. Mas tem cuidado, não comas maçãs dessa árvore, porque cais na desgraça. Mas se por ventura te sentires alguma vez infeliz, bebe água da Fonte dos Magos e tudo te será fácil e bom.»

Narrador: E dito isto, o bom do velho morreu. Joanão fez o que o pai lhe dissera e encontrou a tal caixa, com a libra dentro e a corneta também. E com a libra comprou um ror de coisas: uma quinta, um moinho de vento, muitas ovelhinhas, e contratou muitos criados para o servir. A fama da sua riqueza chegou ao castelo do Rei e a Princesinha, que era muito interesseira, mandou chamar Joanão, para saber donde lhe vinha a fortuna.

(Princesa à janela, cantando uma ária e ouvindo-se, romântico, o som dum piano)

Joanão: (alto) Real Princesa Joaninha, aqui estou! Sou o Joanão, o homem mais rico destas redondezas. Digo-te que és a mais linda menina que existe ao cimo da terra! Gosto muito de ti!

Princesa: (Da janela) Joanão, meu doce e belo apaixonado, eu também gosto muito de ti. Aguarda, que quero receber-te pessoalmente à porta do meu castelo! (retira-se)

Joanão: () Como sou feliz! Como o meu coração bate com tanta alegria! (ajoelhando-se) Princesa da minha alma, minha terna companheira de sonhos, queres ser minha namorada?

Princesa: (hipócrita, dando-lhe a mão a beijar) Que felicidade! Como palpito de contentamento! Sempre te amei e sempre aguardei este feliz encontro. Ah! Mas uma coisa te peço, meu amado: meu pai, o nosso bom Rei, quer saber a origem da tua fortuna. Por mim, meu terno amor, creio em ti, e isso me basta... Mas sabes bem, o Rei meu pai...

Joanão: Perfeitamente, linda Princesa. Toda a minha fortuna vem duma libra que tenho e que por mais que a gaste, ela volta sempre ao meu poder...

Princesa: E tu mostras-ma, mostras?

Joanão: Aqui está Princesinha, minha querida noiva.

Princesa: Que linda! Que amor! (aparte) Agora é só minha!

(Joanão ajoelha-se para beijar a mão da sua amada, mas a Princesa repele-o com desdém)

Princesa: (entrando para o Castelo) Escudeiros! Corram com este intrujão, que me queria roubar. Para longe... Para longe... Nunca mais o quero ver. Não o quero ver...

(Pagens entrando de roldão)

Pagem 1: Ah! Grande maroto...

Pagem 2: Merecias a morte...

Pagem 3 e 4: Uma Princesa, hein! (agarram em Joanão, rudemente, batendo-lhe e ameaçando-o de morte)

Joanão: (estrebuchando) A minha libra de ouro... Eu quero a minha libra... É minha... É minha...

(Os pagens atiram com Joanão para o chão. Entram para o Castelo, fecham a porta, e ouvem-se risos prolongados do interior. João chora a sua desdita)

Joanão: A minha rica librinha! Má Princesa... Sem coração... Impostora... (Alto para o Castelo) A libra é minha... Minha... Minha. (Levanta-se e limpa­ as lágrimas) Ah! A minha corneta? Onde tenho eu a minha corneta? Ah! Está aqui! (toca ansioso).

(Um exército organiza-se de todos os lados, ao som do rataplã)

Joanão: Soldados! Sois o meu orgulho. Fui ofendido por gente deste Castelo. Vamos tomá-lo de assalto. A quem obedeceis?

Exército: A Joanão, nosso Chefe!

Joanão: Vamos ao assalto! Artilheiros, preparai as bombardas! Espingardeiros, apontai às ameias. Archeiros, preparai as frechas! Vou contar até três. Depois, fogo: Um... dois...

Rei: (Abrindo, aflito, a porta do castelo) Senhor Joanão, por quem sois, suspendei o vosso assalto. Sou um Rei pacífico. Quero a paz. Quero que o meu povo viva em paz. Nada fiz para que vos revolteis contra mim.

Joanão: Quero a minha libra, Majestade. É minha. Nada preciso do vosso Castelo, mas quero a minha libra...

Rei: Serenai os ânimos, meu fiel súbdito. Convido-vos para a minha mesa, pois gosto de ouvir vossas razões e queixumes. Dizei.

Joanão: A princesa...

Rei: Descansai. Sereis bem recebido... (virando-se para os pagens) Ide por comida e servi-nos aqui a merenda. Trazei faisão doirado. Vinho do Reno, ambrósia da Turquia... (para um pajem) depressa... (para outro) Rápido... (para os restantes) Imediatamente... (chamando alto) Joa—ni—nha! Joa—ni—nha!

Vozes: (dentro do Castelo) Joa—ni—ha... Joa—ni—nha... Joa—ni—nha...

Princesa: (à janela) Meu pai e real senhor, aqui me tendes?

Rei: Descei e obsequiai a visita deste fidalgo cavaleiro.

Joanão: (seduzido) Soldados, dispersai...

Exército: Viva o nosso Chefe Joanão! (saem de cena)

Princesa: (entrando, e falando ao ouvido de Joanão) Estava a brincar contigo. A libra está guardada e eu serei tua esposa... meu querido Joanão. (Alto para o Rei) Meu pai, meu adorado Rei, peço-vos a vossa bênção... Este cavalheiro é o meu noivo de que vos falei há momentos!

Rei: Agrada-me a vossa escolha. É um homem poderoso... e fá-Io-ei reposteiro-mor do reino. Nas próximas cortes proporei a sua nomeação para chanceler do selo privado! (noutro tom) Sentai-vos, senhor... Sentai-vos, minha filha!

Pagem 1: (alto, para dentro do Castelo) O Rei e a princesa já estão à mesa! (Ouvem­-se toques de clarim)

Princesa: Que lindo dia!

Rei: Que lindo dia!

Joanão: (distraído) Ah! Que lindo dia!

Rei: Que forte exército vós tendes! Onde arranjastes tantos soldados? (Criados servem faisão)

Princesa: Comei!

Rei: Bebei! Que forte exército vós tendes! Onde arranjastes tantos soldados?

(Joanão não responde. Delicia-se com a comida. Bebe)

Princesa: n

Rei: Comei! (Joanão bebe. Começa sem compostura. Bebe demais. Dá mostras de estar bêbedo)

Joanão: Quereis saber, Majestade, onde arranjei o meu exército? É fácil! Para mim é fácil. (Arrota) Basta assoprar nesta corneta!

Princesa: Numa corneta?!

Rei:  Numa corneta?!

Joanão: Nesta corneta mágica!

Rei e Princesa: Pode lá ser!... (trocam olhares espantados)

Joanão: Experimentai, realezas, basta assoprar... (passa a cometa ao Rei, que assopra, ao mesmo tempo que se forma o exército ao som do rataplã)

Exército: Às ordens do nosso Rei!

Joanão: (Apatetado e espantado. Cambaleia) Que ouvi? Às ordens do nosso Rei?!

Exército: Às ordens do nosso Rei!

Rei: Levem este pastor reles para longe do meu palácio... E que eu nunca mais o veja. (empurram Joanão, que profere sons ininteligíveis. Atiram-no para o chão e arrastam-no para fora. Riem-se. Fazem caçoada)

Exército: (alguns soldados) Pobre pateta... Pastor de ovelhas ranhosas. Querias a nossa princesa, hein?! (Todos entram para dentro do Castelo. Joanão arrasta-se para o centro da cena. Levanta-se lentamente. Ouve-se música triste)

Joanão: Sinto-me muito infeliz! Quero morrer! Vou comer uma maçã da macieira mágica, quero morrer. Perdi tudo... quero morrer! (sai)

Narrador: Em vez de morrer, como pensava, cresceu o nariz a Joanão. Cresceu... Cresceu... Cresceu muito...

Joanão: (entrando) Que vergonha, um nariz deste tamanho! Não quero morrer assim. Tenho vergonha!

VOZ do Pai de Joanão: (gravada) Se por ventura te sentires infeliz, bebe água da Fonte dos Magos e tudo te será fácil e bom, meu filho.

Joanão: (Batendo na testa e recuperando todos os seus sentidos) A Fonte dos Magos! A Minha única esperança! (Sai. Ouve-se entretanto o som de água a correr e música de agradável fantasia)

Narrador: Milagre! Mi—la—gre! O nariz pencudo desapareceu a Joanãol Está radiante o nosso amigo pastor!

Joanão: (Entrando) Bem, isto não vai nada mal. Se eu recuperasse a minha libra e a corneta, então outro galo cantaria! E não me metia noutra. A princesa que vá passear... O meu coração está livre dela. (alegre) Livre dela! (reflectindo) Ora espera, eu vou colher maçãs da macieira que dá narizes grandes e venho-as vender ao Rei e à Princesa que tão mal me trataram. Olá se vou! (sai)

Rei e Princesa: (Saem do Castelo, em passeio feliz. Ouve-se a música “Lenda do Beijo")

Joanão: (Vestido de campónio e apregoando) Quem quer maçãs fresquinhas, que dão inteligência aos ignorantes,  força aos velhos e noivos elegantes? Quem quer...

Rei: (interrompendo) Camponês, dão força aos velhos? Dá cá uma.

Princesa: O que dizes? Noivos elegantes? Dá-me uma que seja de efeitos rápidos. (comem as maçãs sofregamente. Ouve-se música mágica, dão um grito e quando se viram para o público mostram um nariz descomunal)

Princesa: (Correndo para o castelo) Ai! Ai! Ai! Que desgraça!

Rei: (Só. Entretanto o campónio desapareceu a rir) Estou perdido... Estou perdido (alto) Chamai os médicos... Os mé—dicos!

Vozes: (dentro do Castelo) Os mé—dicos... Os mé—dicos...

Médicos: (entrando com os seus apetrechos, Auscultam-no Apalpam-lhe o pulso. Vêem-lhe a língua. Falam entre si.) Nada há a fazer. (Alto, para o Rei) A ciência, majestade, esbarra com o impossível! Nem com transplantações... Nem com a melhor terapêutica será possível remover o apêndice nasal. No entanto...

Rei: (esperançoso) No entanto...

Médicos: No entanto... Chá de malvas... Ou emplastros de lombrigas, talvez banha de cobra... Ou fezes de menino macho...

Escudeiro: (Alto, protocolar) Majestade Real, os ministros de Vossa Alteza desejam reunir em Conselho, como está determinado por ordem régia...

Rei: (para os médicos) Ide. Não me martirizeis mais. Estou cheio de tanta apalpadela! Deixai-me. Para nada prestais! (para o escudeiro-mor) Dizei aos ministros que os espero aqui. Trazei escabelos suficientes. (aparte) Esconderei o nariz o melhor que puder. (Entram os ministros, com faixas indicativas dos seus ministérios: economia, finanças, educação e salvação pública)

Ministro 1: (vénia) Majestade!

Rei: Sr. Morgado-Conselheiro.

Ministro 2: (vénia) Majestade!

Rei: Sr. Duque.

Ministro 3: (vénia) Majestade!

Rei: Sr. Visconde.

Ministro 4: (vénia) Majestade!

Rei: Sr. Conde. Sentai-vos! (Os ministros troçam do nariz do Rei) Senhores ministros, tenho recebido queixas numerosíssimas e constantes pela maneira como se processam e executam as leis neste reino. Verifico que os meus desejos de bem servi o povo são miseravelmente desrespeitados...

Ministros: Não é bem assim, Majestade... Há exagero, por certo... Não podemos aceitar tal censura...

Rei: (Esquece-se, na exaltação, de tapar o nariz com as mãos. Fala com ênfase, quase dementado) ... e o povo lastima e chora tais governantes...

Ministros: Peço a demissão imediata... (aparte)

1.º Com um Rei assim não pode haver ordem...

2.º E então com este nariz...

3.º O povo ri-se do Rei...

4.º O reino está de tanga... O tesouro é saco roto... (No meio desta desordem aparece um faquir, tocando flauta, música do "Mercado Persa", em frente ao Rei e a cada um dos ministros. O faquir pára, faz gestos mágicos, enquanto se ouve música apropriada. O Rei dá um grito e rodos reparam que o nariz está já normal).

Rei: (aos pulos) Estou salvo! Estou salvo! Estou curado! Milagre! Milagre!

Ministros: Oh! Ah! Oh! Ah! Mi—Ia—gre! (alto) Viva o nosso Rei! Viva...

Princesa: (Entrando desvairada) Pai!... Ah!... (E cai desfalecida nos braços dos ministros) Como foi, pai, que isso aconteceu? Só eu continuo uma desgraçada pencuda... Quem te tirou a penca, pai? (Empertigando-se) Quem foi, pai, diz, anda...

Rei: Foi aquele, ali...

Princesa: Ó meu faquir, meu faquirzinho... (ajoelha)

Faquir: (retomando o seu passo de ballet, toca flauta, pára em frente da princesa. Faz sortes com as mãos. Nariz na mesma. Reflecte. Toca a flauta.. Todos estão suspensos, como que hipnotizados pelo faquir. Este pára rápido.) Só por dinheiro... Muito dinheiro...

Ministro 1: Não há nem um tostão...

Princesa: (para o Rei) A libra de ouro? Dai cá a libra de ouro.

Rei: (a limpar supostas lágrimas) Toma-a... Mas a corneta, não.

Faquir: Dinheiro... E cor—ne—ta... Vamos!

Princesa: Pai desumano...

Faquir: Cor—ne—ta...

Princesa: Dai cá a corneta, pai... Dai cá... Dai cá... (tirando-a rudemente) Aí... Toma lá, meu faquirzinho...

Faquir: (despindo-se)

Rei: Ah! É Joanão...

Princesa: Ah! É Joanão...

Joanão: E tu, Princesinha má e egoísta, ficarás com o nariz que tens. Guarda­-o, que bem o mereces!

Princesa: (muito afectuosa) Eu amo-te tanto, meu querido Joanão!

Joanão: Ah! Ah! Ah! (A princesa cai, com um longo suspiro, nos braços dos ministros. Os médicos entram e verificam por auscultação)

Médicos: O pulso está fraco!... O coração fraqueja... (alto) Ligaduras. Tragam ligaduras!... (vozes dentro do Castelo) Li—ga—du—ras... Li—ga—du—ras...

Princesa: (Moribunda) Perdoa-me, Joanão... Perdoa o meu orgulho... Não sou digna desta coroa! Toma-a (Deixa cair a coroa e desmaia)

Joanão: Para que me serve isto?

Escudeiro: Aqui estão as ligaduras!

Médicos: O caso é grave! Temos de lhe acudir a tempo!

Ministro: Imediatamente, para os aposentos! (levam-na a pulso)

Rei: Quem tudo quer, tudo perde! (sai)

Joanão: () Quem tudo quer, tudo perde! — é verdade! Bem, agora vou outra vez para pastor. Que vão para o diabo o Rei e a Princesa! Que vão para o Diabo esta libra maldita... (atira-a fora) e esta corneta que tanta infelicidade me trouxe... (e pisa-a com os pés). Antes me quero no meio das minhas ovelhinhas... E com esta alegre companheira!... (sai a tocar a flauta, em marcha alegre)

FIM


III 

COLABORADORES

O espectáculo, desde a sua montagem até à sua exibição em palco, foi produto da colaboração dos seguintes participantes (por ordem alfabética): Alberto Macedo, Alberto Ramada, Alfredo Santos, Américo Peralta, António Benjamim, António Soares, Armandina Sampaio, Armando, Bartolomeu Conde, Eduardo Silva, Felisberto Pacheco; Fernando Cordeiro, Fernando Santos, Fernando Valente, Figueiredo Fino, Gabriel Ferreira, Graciano Carreira, Henrique Silva, Idalécio Cação, Jeremias Bandarra, João Conde, Joaquim Oliveira, José Maria Manso, José Maria Marques da Silva, José Maria Moura, José Rebelo, José Soares Vinagre (Dr.), Macário de Pinho, Manuel Oliveira, Manuela Pinho, Maria José Conde, Odemiro Soares, Rogério Miranda, Romeu Vieira, Tiago Moreira e cinco vozes anónimas.

IV

FELICITAÇÕES RECEBIDAS

«... o agradável e belíssimo espectáculo, digno de figurar em qualquer dos melhores palcos portugueses») - Do Eng.º Rodrigues de Carvalho, Presidente do Conselho de Administração da Companhia Portuguesa de Celulose.

«Com os melhores cumprimentos agradece a gentileza da oferta da interessante peça "JOANÃO e JOANINHA" que já leu com o maior interesse e agrado, endereçando-lhe sinceras felicitações.» - Do Dr. Manuel Ferreira dos Santos Lousada, Governador Civil do Distrito de Aveiro

«Quanto à peça juvenil "JOANÃO e JOANINHA", da autoria de Bartolomeu Conde, li-a com o maior prazer e posso afirmar a V. Exas que me causou a melhor impressão, quer pelo seu estilo simples e gracioso, quer pela mensagem de beleza e boa moralidade que encerra.» -Em carta de 22/08/68 para a Direcção do CAT, enviado por Raul dos Santos Braga, Director do Pelouro Cultural da FNAT.

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