"Qué lá isso?!"



Recebemos de uma auto-designada Comissão de Defesa dos Direitos Sociais dos Moleiros da Cova do Macho (CDDSMCM), uma carta bastante elucidativa dos estragos sociais que as “crónicas” publicadas neste mensário, subordinadas à temática dos Brasões, parecem ter provocado no seio daquela pequena mas pacífica comunidade.

Tradicionalmente vocacionados para a exploração agrícola e com raízes profundas no artesanato medieval da farinha e do folar, os naturais deste belíssimo cloroplasto-clausura de recato e terapia para o sossego do corpo e do espírito, – primam pelas suas excepcionais qualidades de bem-receber e bem-tratar.

Por isto se conclui que algo de muito forte e grave se deverá estar a passar para que o vexame sentido, patenteado nas palavras que se transcrevem, tenha efectiva razão de ser.

Que os nossos leitores ajuízem das verdadeiras origens deste “mal-estar”! E que não possa ser (quem sabe?) uma jogada infame e condenável de algum azulocrata” “falsa-realeza” ou “ressequido rato-de-castelo” que, querendo fazer-nos assistir a cometimento de hediondo crime, a perpetrar por algum dos intervenientes nas tais crónicas, tenha incitado aquelas pacatas gentes a enviar-nos a carta que agora damos ao off-set:

“Eh! Çenhores!!!

Qué lá iço, de estarem cempre a cassoar cu a jente? Nós só çabemos do trabalho e mais nada!

Qué lá iço, de nos acalcarem acim na sussiedade, cumo se muleiro fôce o quê? Caspaxo p’ralimpar os pés? Trapo de cilha de lombo de mula ó d’alimpa-rábo de porca parideira? Ó quê?

Qué lá iço dandarem a inbentar vrasões com alusórias ó nóço cuótidiano? Qué lá iço dandarem por tudi por nada a falar najente, qué cóba do máxo, qué máxo do muleiro, qué muleiro da cóba, qué da cóba do Funtão, qué ótra bêz do máxo?... qué lá iço?!!!

Qué lá iço de çó bosemessês é que tãêm níbel? Que ção instroídos?

Qué lá iço de no nóço cantinho çó aber cazévres e esterqeiros com licho de bácas e porcos e galinhas? E avêlhas? De quim ção as avêlhas, de quim ção? Dos muleiros? Das nóças famíleas? Qué lá?!!!...

Qué lá iço dandarem acim todos intertidos há lambada uns cús outros e se arressolbêrem a metêr nos ó barólho?! Qué?!...

E a nóça prezensa sussial?

E a nóça afirmassão aqui no resto do lugar?

E as nóças clientélas?

Qué lá iço?!

Bá lá, bá lá, quinda ajente é munto bãe adisposta!... Mas daqi para diênte já num bai çer açim! E a európa? Quéque bai diser a európa? Cuidadinho agora amigos! Beijam lá çe bão faser poico das peçôas lá pró Mali!... quéças é que meréssem!

Ó tamãe gustabam cajente bos afanáce os gipes e as carrinhas e as outras abiaturas todas que aqui deichácem quando biécem au Çular do Çenhor Duque ou Do ôtro Cónde da Barba Têza núma caisquer ócazião datrincar na çardinha açada na têlha? Gustabam?

Qué lá iço?

Fontõn, 25 de Maio de mil 992

 

Pel’A CDDSMCM

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