DIVERSOS COM EVENTUAL INTERESSE

«Como eu fazia o sal»

Quinta-feira, 12 de Novembro de 1998 – pág. 17 Irina Morais

Emília Almeida desde nova sabe o que é fazer o sal. Aos 20 anos de idade veio para Aveiro, onde começou a sua vida. Cedo conheceu o trabalho nas salinas e para trás ficou o gosto de andar na escola. Casou e dedicou a sua vida ao sal e à família.

 

Emília Almeida nasceu em Águeda, há 82 anos. Lembra-se muito bem do seu tempo de escola. Estudou apenas até à 3ª classe e recorda que aprendeu pelo "Livro Tostão". Diz com humildade: «Não sei como é que aprendi aquilo tudo. Sei que, quando entrei para a escola, já conhecia o livro todo». Recorda-se perfeitamente do seu primeiro dia de escola: «Quando a minha mãe me foi matricular, a professora achou-me com capacidade para passar logo para a 2ª classe. E fui.» Com apenas 12 anos, Emília Almeida foi obrigada a sair da escola. Teve muita pena, pois era muita a vontade de aprender. Depois da morte de seu pai houve que ficar em casa a tratar da irmã mais nova. Diz com muita tristeza: «Já não pude estudar mais. E eu gostava tanto de ler! Ainda hoje gosto».

Com vaidade diz que nunca deixou de aprender porque sempre leu muito. «Hoje ainda leio e aprendo, mas não com tanta facilidade.

 

«Aos 20 anos vim viver para Aveiro»

Na beira-mar conheceu o homem da sua vida. Aos 25 anos, tornou-se sua mulher. Ele tinha 30 anos, era viúvo com dois filhos pequenos que quase não conheceram a mãe. Juntos tiveram mais dois filhos. «Criei-os todos como se fossem meus».

O marido de Emília Almeida era marnoto e ela doméstica «Não trabalhava fora de casa, só quando era a altura da botadela é que eu ia ajudar. Eu gostava tanto!». A botadela era o início da fabricação do sal. «Fabricar o sal dá muito trabalho, só quem sabe daquilo o consegue fazer». Emília Almeida recorda com muita saudade a botadela. Afirma-se como sendo uma mulher alegre e adorava ir para a botadela. «Dava-me gosto ir para lá». Fazer o sal é um trabalho muito moroso e requer muita minúcia. A primeira etapa é a preparação da marinha. «Os muros e o chão são preparados com muito cuidado. O chão é alisado e amaciado com o círcio.»

Diz nada perceber de sal, mas a voz que falou revelou muita sabedoria sobre o que eram aquelas tarefas. Embora as caracterize como árduas, tudo o que exprime cobre-se de uma leveza e de uma satisfação. «Aos fins-de-semana os rapazes e as raparigas também iam e era uma festa. Dançavam todos na eira». Emília Almeida diz que era tudo muito saudável e que, «quando chegava a hora do comer, tinha tudo um gosto tão saboroso, que nem sei explicar.» Mas parece impossível explicar muito melhor, porque, como diz Emília Almeida: «Só quem viveu aquilo sabe o sabor que tem».

«Bacalhau, chicharro de par e sardinha escachada, tudo bem demolhado / muito bem temperado, com muito azeite e muito alho. / A mesa já estava posta em alvas toalhas no chão, / Em cima do feno seco, / Parecia mesmo um colchão».

Emília Almeida descreve com termos precisos o que era a fabricação do sal, mas ao mesmo tempo deixa escapar entre as palavras alguma nostalgia e muita, mas muita tristeza. É com essa tristeza que hoje é uma poetisa.

«Ah! Que saudades eu tenho dela! era bom e acabou-se... / era assim a botadela!»

 

«Aquilo era muito bom de ver e de viver»

O que entristece Emília Almeida é ter assistido à morte lenta das salinas. Gosta muito do sal. Talvez até no comer o sal lhe tenha um sabor diferente. Hoje, o sal já não tem o mesmo valor de antigamente. «Agora é diferente. Quase não se usa sal». Diz gostar muito da comida a saber-lhe bem e que o sal é o principal sabor que a comida pode ter. «Aqui no lar quase não põem sal. O comer nem me sabe».

De um espírito crítico muito apurado, Emília Almeida não deixa de responsabilizar a tecnologia frigoríficos, arcas como a principal culpada pelo desaparecimento do sal. Com saudade recorda o salgar do porco e os barcos que saíam de Aveiro, carregados de sal para todo o país. A tecnologia faz desaparecer muitas coisas boas, que deixaram saudades. É isso que Emília Almeida lamenta. É o preço da era moderna. Quantas são as pessoas que recordam com saudade e se entristecem ao lembrar dos montes de sal e do trabalho das marinhas!

Aveiro, a terra do sal. Há quanto tempo se perdeu o seu objecto identificativo? Apesar de tudo, para sempre ficarão na memória dos aveirenses as salinas, os montinhos de sal, os marnotos e as salineiras.

 

 

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