FIGURAS EM AVEIRO LIGADAS AO DESPORTO

«Pião - O Malabarista»

Quinta-feira, 12 de Novembro de 1998 – pág. 19 Daniela Sousa Pinto

Agostinho Marques Pião tem 75 anos e nasceu Lisboa (1923). Conhecido pelas gentes da cidade pelo "Malabarista", foi considerado o melhor jogador de todos os tempos do Beira Mar. Sente-se aveirense e torce sempre, em primeiro lugar, pelo Beira Mar; e, só depois, pelo Sporting. É a história de um homem que afirma ter nascido com talento para jogar. O primeiro jogador profissional da equipa aveirense conta como foram os anos que dedicou ao futebol.

Começou o seu percurso futebolístico com 16 anos, no Desportivo dos Olivais, onde jogou durante três épocas. Depois, foi para o Sporting, que pagou pela sua transferência 10 contos. «Na altura era muito dinheiro!». Vestiu a camisola dos "leões" durante dois anos e, depois, foi emprestado, em 1946, ao Beira Mar que nunca o comprou, mas que também «nunca mais me deixou sair. E ainda bem! Foi em Aveiro que conheci a minha Joana: a mulher mais bonita da cidade, com quem casei, há 50 anos. Tivemos filhos e netos; tenho uma vida muito agradável e uma família muito bonita». Por causa do Beira Mar nunca o ter deixado sair, o Sporting cortou relações com aquele clube, durante 16 anos.

No Sporting teve grandes treinadores como o Joaquim Ferreira, o mestre Cândido de Oliveira considerado o melhor treinador do mundo , entre outros. No Beira Mar, conheceu homens de grande talento como Viriato, Artur Baeta e Artur Daniel.

É um homem feliz e orgulhoso de uma carreira que assume ter sido brilhante. Jogou até aos 30 anos que diz terem sido «os melhores anos da minha vida. Tínhamos uma equipa muito unida, havia muita camaradagem e fazíamos muitas malandrices...»

Dos momentos que mais o marcaram salienta a vitória contra o Viena de Áustria e não esconde o orgulho de ter feito parte «do melhor plantel que o Beira Mar já teve. Era uma equipa muito forte.» Não esquece os seus companheiros e fala, com muito carinho, de alguns homens, também, eles com muito jeito para a bola, como o Magalhães, o Barreto, o Adolfo, o Augusto... No Beira Mar ganhou muito dinheiro, mas «era muito gastador. Gastei quase tudo.»

Deixou de jogar no Beira Mar, porque «já não podia. Estava cansado e, fui para o Bustos como jogador-treinador. Eles pagavam em géneros: sacos de batatas, pipas de vinho, eu sei lá! Davam-me tudo.»

Em 1960, começou a treinar os miúdos do Beira Mar. Mas custou-lhe deixar de jogar à bola. «Mesmo assim, durante os cinco anos que treinei os seniores e os juniores, não foi tão difícil porque podia matar o bichinho a treinar os garotos. Continuava envolvido no futebol». E mais uma vez não esconde o orgulho de ter lançado jogadores à primeira categoria, «o que nos últimos anos não tem acontecido.»

Lamenta que o Beira Mar não seja a equipa de antigamente. «Hoje, estão lá jogadores que no meu tempo nem nas cabinas entravam para nos ver vestir!»

Aos 40 anos deixou, para sempre, o futebol. Mas nunca esqueceu o Beira Mar. Continua a gostar de futebol do Beira Mar em particular e preocupa-o que a equipa esteja em baixo. «O Beira Mar não tem meio-campo e falta-lhe um avançado. «Não é preciso ir buscar estrangeiros para fazer uma boa equipa. Bastava dar uma volta ao distrito de Aveiro. O que não falta são rapazes maravilhosos.»

Acredita que os jogadores não ganham demais, porque as suas carreiras acabam cedo. «É uma carreira muito curta, e, a não ser que saibam investir, se não ganhassem muito dinheiro terminavam a vida na miséria.»

Um homem que jogou por amor fica triste pelo facto do futebol não ser tão puro, mas compreende a situação como resultado do evoluir dos tempos.

Aos 75 anos sente-se feliz pelo que deu ao futebol e pela vida que tem. Só lamenta que o seu neto, Fernando Miguel, «muito talentoso», não queira dedicar-se ao futebol.

A equipa em 1946, considerada o Grupo de Honra do Beira Mar e a melhor do distrito na época de 1946/47.


Ora, bolas!

Agostinho Pião conta:

«O melhor jogador português foi o Coluna! Os melhores jogadores de hoje são: o Simão Sabrosa e o Figo.»

«Fomos fazer um jogo de treino a Vagos, na altura da festa da Nossa Senhora e, de cada vez que marcávamos um golo, a banda tocava. Então o Conceição disse-me: "Vamos pôr a música a tocar sem parar!" Foram 15 golos!»

«Saber jogar futebol é uma coisa que nasce connosco. O futebol não se ensina; corrige-se.»

«Fazíamos muitas malandrices... Uma vez, a malta disse ao Magalhães que eu sabia cortar o cabelo. Ele acreditou e pediu para que eu lho cortasse. Eu cortei, mas fiz-lhe um lindo serviço... é que eu nunca tinha sido barbeiro! O Magalhães era um santo.»

« Estávamos a perder contra o Espinho por duas bolas a zero e, a vinte minutos do fim, o treinador tirou-me da posição de interior e colocou-me a extremo direito: dei dois golos a marcar e marquei mais dois. Ganhámos quatro a dois!»

«O Beira Mar não aproveita os jogadores que tem. O caso do Ribeiro, que é excelente a meio-campo, está a jogar na posição de lateral! Estão a atirá-lo para o entulho!»

 

O Jogador: Agostinho Pião

Posição: interior-médio ofensivo

Características: bom marcador − em média 2 golos por jogo − fazia da bola aquilo que queria; daí a alcunha de «Malabarista».

 

 

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