Programador de Spectrum em Portugal

Henrique J. C. de Oliveira é conhecido no panorama do Spectrum como HJCO. Além de professor dedicado, programador, responsável por inúmeras traduções e adaptações de type-ins de programas do Spectrum para a nossa língua, gere ainda a página “Aveiro e Cultura” (1), um projeto comunitário de índole cultural que existe deste 2001 e é mantido pelo coordenador do Projeto Prof2000. A página incorpora múltiplas temáticas, sendo uma delas precisamente dedicada ao Spectrum. Provavelmente terá até sido a primeira página nacional a alojar programas para este computador, não só os de Henrique de Oliveira, mas também de outros autores nacionais e internacionais. E isso numa época em que a internet não estava tão difundida como agora e não era assim tão fácil ter acesso aos ficheiros com os programas.

A sua organização e método permitiu-nos catalogar uma boa parte da sua obra por ordem cronológica; no entanto, alguns dos programas foram criados ao longo de vários períodos, não sendo possível alocá-los a um ano específico. Como curiosidade, programava os seus programas num TC 2068, computador que ainda hoje em dia possui.

Dos programas com data identificada, o primeiro a surgir foi “Aniversário”, em 1985. Henrique de Oliveira criou este pequeno programa para felicitar os aniversariantes. Além de os presentear com um bolo de anos com uma vela, o seu nome e a sua idade, toca ainda o tradicional “Parabéns a Você”, numa celebração bastante original. Segundo nos confessou, ainda utiliza atualmente o programa.

Também nesse mesmo ano a música ocupou o seu espaço, tendo Henrique de Oliveira criado em “Músic1ZX” um pequeno portfolio com algumas melodias bastante populares ou tradicionais que povoavam o imaginário das crianças, casos do “Atirei o Pau ao Gato”, “Fui ao Jardim da Celeste” ou o “Linda Falua”.

Outro pequeno programa escrito por Henrique de Oliveira foi “Trabalho em Grupo”, em 1986. Destinado aos alunos do 1º e 2º ciclo, apresenta as regras indispensáveis para se trabalhar em grupo. É bom lembrar que na altura não existia PowerPoint nem outros utilitários do género.
 

Em 1987 surgem dois programas educativos e um jogo. “Átomo de Hidrogénio” foi escrito em Abril desse ano expressamente para a Escola Secundária Homem Cristo, em Aveiro, tendo sido baseado nos programas publicados no livro “Química 10”, manual de química do 10º ano de escolaridade de Ana Maria Faria, Maria Irene Ribeiro e Maria Teresa Sá, editado pela Didáctica Editora em 1984. Apresenta como opções o espectro, as orbitais e o tamanho relativo dos átomos e dos iões, conforme descrito no menu inicial.

Foi também nesse período que escreveu “Tabaco”, inserido numa campanha antitabágica realizada na Escola Secundária Homem Cristo, em Aveiro. O programa chama a atenção, de forma humorística, para as desvantagens do vício do tabaco. Como curiosidade, no final da apresentação introduz uma opção que permite visualizar diversas rotinas criadas por diferentes programadores, ficando as pessoas com uma ideia mais aproximada das potencialidades gráficas dos computadores.

E é nesse ano que se aventura no seu único jogo original: “Helihjco”. Henrique de Oliveira escreveu-o sentado a uma mesa de café, sem computador, apenas com folhas de papel quadriculado e uma caneta. A linguagem utilizada foi o Basic Sinclair e depois apenas teve que copiar as rotinas escritas para o computador. Fê-lo para responder a um desafio feito por alunos seus, que frequentavam aos sábados à tarde, na escola onde era professor, o Clube de Informática.

É um jogo que utiliza rotinas de scroll horizontal, ao estilo de alguns bastante mais modernos. Parece um jogo fácil, mas é bastante difícil conseguir-se chegar ao fim, exigindo reflexos muito rápidos. O objetivo é levar o helicóptero desde a base até ao porta-aviões, sendo necessário atravessar a cidade e o mar ao longo de 43 setores, evitando chocar contra edifícios e nuvens.

 


Início da missão em “Helihjco”

E o fim…

 

Um ano depois retoma os programas educativos, lançando “Os Maias”. Esse programa sobre Eça de Queirós foi um de vários que escreveu para utilização pelos seus alunos.

Sabendo do projeto e do interesse destes pelo tema, a escola onde era professor dispensou-o do serviço de exames para ter tempo de programar. De forma bastante sintética, apresenta o essencial sobre a vida e obra do famoso escritor, permitindo ajudar os alunos a rever a matéria, preparando-os para os exames de uma forma lúdica.

Apesar da reduzida capacidade de memória do Spectrum, apresenta elevada quantidade de informação: biografia de Eça, evolução literária do autor, relação de todas as obras escritas e uma análise das principais características da obra em estudo.

 

Um dos ecrãs de “Os Maias”, apresentando o próprio escritor

 

Em 1989, em Arouca, durante um curso de formação que ministrou a professores do 1º ciclo desse concelho, escreveu “Tabuada”. O programa permite aos alunos aprender a tabuada de multiplicar, ao mesmo tempo revendo e testando os seus conhecimentos mediante a realização de um pequeno inquérito no qual no final é indicada a percentagem de sucesso alcançada.
 

O último dos programas em que é possível identificar uma data concreta surge já nos anos 90 do século passado, mais concretamente em 1994. “Totoloto”, tal como o nome indica, ajuda a preencher os boletins deste jogo da sorte.
 

Já referimos que Henrique de Oliveira, além de desenvolver os seus próprios programas, também dedicou parte do seu tempo a digitar e adaptar programas de outros autores. Um deles merece especial destaque, pois introduziu tantos melhoramentos que praticamente criou um jogo novo. Assim, “A Forca”, baseado em “Hangman” de Raymond Blake, jogo lançado em 1983, recria o conhecido desafio do “Enforcado”. Foi concebido para os alunos da Escola Secundária Homem Cristo, e introduziu mais de 2.000 palavras portuguesas.
 

Cavaquinho” foi escrito na década de 80. Na altura, Henrique de Oliveira participava, juntamente com outros professores e alunos da escola de Aveiro, num grupo coral e de cavaquinhos, e este pequeno programa visava ajudar a afinar o cavaquinho e dar a conhecer os diferentes acordes, apoiando os músicos sempre que o maestro não podia estar presente. Na ausência deste, o computador auxiliava nos ensaios, ajudando a recordar as posições dos dedos e permitindo, inclusive, afinar o instrumento. Tem a particularidade de poder também ser utilizado na aprendizagem da guitarra ou da viola. Este programa foi mais recentemente digitado pelo próprio autor, uma vez que a cassete onde possuía a cópia de segurança estragou-se, dai a data de 2003 que aparece no ecrã inicial e que naturalmente não constava do original.

 

Também na década de 80, Henrique de Oliveira escreveu um programa divido em quatro módulos. “Français Niveau 1” é constituído pelos módulos ou unidades 0A, 0B, 1 e 2. A unidade 0 é a primeira de uma série de dezoito programas para iniciação do estudo do Francês. Inclui, além das instruções e objetivos deste curso destinado a professores, indicações acerca do método de trabalho e as próprias instruções do programa. A nível de conteúdos, foca-se nas seguintes temáticas: França - situação e principais elementos geográficos; os sons; instruções sobre a maneira de organizar um caderno para registo e aprendizagem do vocabulário; jogos; e até cantigas para exercícios de leitura e memorização. Devido à quantidade de informação, o programa foi desdobrado nas unidades 0A e unidade 0B. Estes dois blocos estiveram na origem de um módulo didático desenvolvido na década de 90, criado através do Toolbook II Instructor.

 

A unidade 1 de “Français Niveau 1” proporciona uma aula de exercícios de conversação, durante a qual, após uma fase inicial de perguntas formuladas pelo professor, as questões deverão ser colocadas pelos próprios alunos. Os alunos aprendem a responder à pergunta “Qu'est-ce que c'est?”.

 

Finalmente, a unidade 2 tem como título “Le magnétophone de Betty”. Os alunos são introduzidos ao texto escrito, utilizando-se previamente o registo magnético do livro de iniciação de Francês “Méthode Orange 1”. Em primeiro lugar os alunos ouvem por diversas vezes o texto e procuram memorizá-lo. Em seguida, com o apoio do computador, efetuam o registo escrito de todo o texto nos cadernos diários, fazendo posteriormente a sua leitura. O programa apresenta ainda uma opção na qual o texto desfila sob a imagem de Betty diante da montra de uma loja.

 

Miras TV”, também escrito nos anos 80 do século passado, gera seis diferentes miras tais como as que apareciam na RTP. Mera curiosidade, semelhante a outros programas do género, mas com grande utilidade para quem pretende regular os monitores ou televisões.

 

Uma das seis miras de “Miras TV”

 

Finalmente, o último dos seus trabalhos a ser preservado foi “Boas Festas”. Sendo mais um programa usado na sala de aula pelos alunos, passava por várias etapas. Na primeira era carregado o programa e listado para análise linha a linha. Os alunos tentavam então identificar os diferentes blocos, indicando o que cada um fazia e inserindo no programa linhas REM com o rótulo da função. De seguida criavam um bloco inicial de apresentação com instruções para quem o fosse utilizar e depois um bloco com INPUTS, com duas variáveis, para registo do nome feminino e masculino. Finalmente, os alunos apresentavam ao grupo o que tinham feito, salvavam o programa e partilhavam-no com os colegas.

Extraído de uma publicação editada pelo

Museu do Spectrum em Cantanhede.


(1) - http://ww3.aeje.pt/avcultur/hjco/HJCO/Pg005410.htm

 

 

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08-01-2026