Henrique J. C. de Oliveira, Os meios audiovisuais na escola portuguesa. Recursos existentes no distrito de Aveiro e sua utilização pelos docentes. Universidade do Minho, Instituto de Ciências da Educação, Braga, 1996, vol. I, 247 pp; vol. II (Anexos), 95 pp.

Foi em 1996 que defendi, na Universidade do Minho, em Braga, a tese de mestrado subordinada ao tema «OS MEIOS AUDIOVISUAIS NA ESCOLA PORTUGUESA», após um ano de frequência da parte curricular, em 1993/94, e um ano de investigação, em 1994/95, durante o qual tive a oportunidade de conhecer todas as escolas do distrito de Aveiro com ensino básico (2º e 3º ciclo) e secundário.

Para uma ideia do conteúdo da tese, apresentamos toda a Introdução. Para aqueles que pretendam conhecer o trabalho efectuado, facultamos a versão integral do 1º Volume através da Internet, fornecendo, no final desta página, a hiperligação para a respectiva pasta.

 

INTRODUÇÃO

O desenvolvimento tecnológico no campo da comunicação audiovisual, num período posterior à segunda guerra mundial, levou os especialistas a considerar que a humanidade se encontra numa nova etapa evolutiva, baptizada na década de 1970 como a «terceira geração dos meios audiovisuais[1]», uma época em que o homo communicans, indivi­dualmente, se apropria dos diferentes meios de comunicação para os passar a utilizar, de acordo com as suas apetências e capacidades criadoras, para os mais diversos fins, destinando-os não só a si mesmo, mas visando também a comunicação com os outros. Segundo Cloutier, para quem a história da comunicação se pode dividir «em quatro episódios que se sobrepõem», caracterizando-se cada um deles «pela utilização de novas formas de comunicação, que transformam a sociedade e constituem um novo tipo de comunicação» (J. Cloutier, s/d, p. 21) a história da comunicação vivia, nesta época, o seu quarto episódio. Era, e ainda não o deixou de ser em muitos aspectos, uma época em que a acessibilidade da gravação de imagens e sons, com as modernas técnicas, permite ao Homem manipular os «media» individuais - os self-media -, permitindo-lhe entrar na era da comunicação individual.

Volvidos mais de vinte anos, quase no limiar do terceiro milénio, o homem estará talvez a passar já para um quinto episódio. Não só os meios anteriormente existentes se desenvolve­ram e generalizaram, como outros surgiram e trouxeram novas potencialidades ao universo da comunicação humana, com a implementação de sistemas interactivos multimédia, que permitem a integração harmoniosa de todos os sistemas existentes e lhes conferem novas possibilidades, levando mesmo à criação de universos virtuais e de novas formas de comunicação. O diálogo homem-máquina torna-se possível e o homem passa de uma situação de espectador passivo a uma posição de interlocutor activo, dele dependendo a forma de acesso à informação. Mais recentemente, as novas "auto-estradas" da informação, com a criação de redes informáticas - caso da Internet -, abrem ao homem novos horizontes no campo da comunicação e da procura de informação.

Esta fantástica revolução no domínio da comunicação audiovisual, em que a imagem alcançou uma posição de destaque, é hoje encarada por todos nós como um fenómeno normal. O homem moderno vive cada vez mais rodeado de sons e de imagens, que o impedem de se isolar e de se voltar para o seu próprio mundo interior, que o impedem de reflectir sobre si mesmo. O homem moderno vê-se como um cidadão de um planeta que se transformou, no dizer de McLuhan[2], numa enorme aldeia global, vivendo, quase no próprio instante em que ocorrem, os acontecimentos à escala planetária.

Actualmente, em casa de cada um, o jovem começa desde muito cedo a alimentar-se de imagens as mais variadas e desencontradas, começando desde logo a adquirir uma visão multifacetada e fugaz de um mundo que o rodeia, fornecendo-lhe uma nova forma de cultura  e constituindo uma escola paralela, cuja fortíssima motivação o prende e modela, fazendo não raramente com que a escola, onde mais tarde é inserido, lhe pareça obsoleta e enfadonha.

A nível do ensino, os meios audiovisuais começaram já a ser encarados pelas entidades responsáveis e pela comunidade escolar como meios normais de acesso à informação e ao construir do saber. A sua inserção no acto pedagógico constitui um prolongamento e reforço dos conhecimentos adquiridos de maneira fragmentária na escola paralela e uma forma de reduzir o desfasamento habitual entre a escola e a realidade envolvente.

Enquanto há alguns anos atrás era relativamente fácil encontrar em Portugal escolas onde nem um simples aparelho de rádio existia e onde máquinas de projecção de imagens eram aparelhos raros e quase desconhecidos, hoje uma situação destas será considerada como caso raro e de excepção.

A vulgarização e acessibilidade dos modernos meios tecnológicos que privilegiam a imagem, a que recentemente se juntaram os meios informáticos, geralmente designados pela expressão «Novas Tecnologias da Informação», fazem com que a imagem seja considerada como uma poderosa forma de comunicação, cujas potencialidades são reforçadas quando associadas à comunicação verbal nas suas duas vertentes - oral e escrita.

Em que medida os recursos audiovisuais e as novas tecnologias conseguiram já a sua inserção na escola portuguesa? E em que medida procuraram os docentes acompanhar a moderna e célere evolução tecnológica? Qual o papel que a imagem desempenha actualmente no ensino? Que recursos são hoje privilegiados pelos docentes?

No presente trabalho, procuraremos ver não só alguns aspectos relativos ao conceito de imagem e evolução dos recursos tecnológicos que dela se servem, mas também obter algumas respostas para as questões formuladas. Por uma questão metodológica, o trabalho está dividido em três partes, as duas primeiras de carácter teórico e a terceira de carácter experimental.

A componente teórica subdivide-se, por sua vez, em duas partes distintas: I - Uma abordagem geral ao estudo da imagem; II - Imagem e educação.

A primeira parte - Uma abordagem geral ao estudo da imagem - é constituída por quatro capítulos, ao longo dos quais são abordados o conceito de imagem e a evolução dos recursos comunicativos de natureza audiovisual que privilegiam a imagem.

No primeiro capítulo, intitulado «O conceito de imagem», procuramos dar uma ideia dos diferentes conceitos de imagem, desde os conceitos correntes, susceptíveis de serem encontrados em qualquer dicionário ou enciclopédia, até aos conceitos mais elaborados, passando pela óptica e cinematografia, filosofia, psicologia, literatura, sociologia, linguística e semiótica, entre outros aspectos.

No segundo capítulo, intitulado «Características, classificações e funções», procuramos apresentar algumas características da imagem, chamando a atenção para o seu valor simbólico, presença constante e papel eternizante, e funções desempenhadas no ensino.

O terceiro capítulo, intitulado «Evolução da comunicação através da imagem: das origens ao século XX», abrange um período de tempo extremamente dilatado, em que a evolução tecnológica se processou de uma maneira lenta, ao contrário do momento presente. Neste capítulo, que começa com os primeiros quadros murais criados pelo homem num estádio ainda bastante primitivo, procuramos ver de que modo a imagem foi assumindo um papel de relevo cada vez maior na comunicação humana, importância essa que conheceu um momento importante na civilização greco-romana e que, depois, passou por momentos não menos importantes, graças a invenções significativas, tais como a invenção da imprensa, dos sistemas de projecção fixa, do tradicional quadro negro, da fotografia e do cinema.

O capítulo IV, intitulado «Evolução da comunicação através da imagem: século XX», corresponde ao período de tempo actual, extremamente curto, em que a evolução tecnológica atingiu uma aceleração extraordinária, em que recursos comunicativos recentes, em poucos anos ou mesmo meses, se tornam obsoletos e ultrapassados por outros mais avançados e com maiores potencialidades. É um período em que surgem os grandes meios modernos de comunicação e tratamento da informação e em que a imagem atinge o seu expoente máximo de penetração em todo o lado, primeiro com a televisão e o vídeo, na primeira metade do século XX, depois, com os sistemas informáticos, que permitem a criação, captura e tratamento de imagens digitais e de síntese, e com os sistemas multimédia, a partir essencialmente dos finais da segunda metade do nosso século.

A segunda parte, intitulada «Imagem e educação» é constituída por três capítulos, ao longo dos quais são abordados alguns aspectos relacionados com a evolução das concepções pedagógicas, referindo-se os nomes mais significativos ligados à pedagogia, não só a nível dos diferentes países, mas também relativamente a Portugal.

No capítulo I, intitulado «Concepções pedagógicas», efectuamos uma apresentação cronológica de diferentes concepções e teorizadores pedagógicos, começando pela primeira grande didáctica da história da educação, da autoria de Coménio (Didáctica Magna), até ao momento actual, abordando sucessivamente nomes como Lancaster, Froebel, Pestalozzi, Herbart, Thorndike, etc.

No capítulo II, intitulado «A imagem como recurso pedagógico em Portugal - sécs. XVI a XX», procuramos apresentar não só alguns dos principais nomes da pedagogia em Portugal, mas também efectuar a análise de alguns decretos entre 1863 e 1924, referindo brevemente, entre outras, as reformas verificadas nos governos de Afonso Costa, Sidónio Pais, Leonardo Coimbra e António Sérgio.

No capítulo III, intitulado «Evolução tecnológica e audiovisuais - séc. XX», procuramos apresentar alguns problemas decorrentes da evolução tecnológica e educativa dos nossos dias e a evolução e problemas relacionados com os conceitos de «audiovisual» e «tecnologia educativa».

A terceira parte diz respeito à componente experimental do nosso trabalho e encontra-se subdividida em três capítulos.

No capítulo I, intitulado «Objecto de estudo e metodologia do trabalho», após o enquadramento e justificação do problema, apresentamos os objectivos e formulamos a hipótese. Efectuamos também a delimitação do problema e a caracterização da população e da amostra recolhida, apresentando, em seguida, a metodologia utilizada, abordando-se as diferentes fases no desenvolvimento do trabalho, instrumentos criados para a recolha de informações e os meios utilizados para o seu tratamento.

No capítulo II, intitulado «Os dados da investigação: apresentação e análise», são fornecidos todos os elementos recolhidos em 71 das 73 escolas do distrito de Aveiro. Após uma apresentação e primeira análise dos dados obtidos com o primeiro inquérito, cujos elementos apresentados em diversos mapas se encontram sintetizados em dois quadros (quadros 5 e 6), efectuamos uma apresentação e análise não só dos recursos encontrados nas diferentes escolas do distrito, como procuramos, simultaneamente, apresentar e analisar os resultados dos inquéritos aos docentes relativamente a esses mesmos recursos. Além dos recursos educativos que privilegiam a imagem, não pudemos deixar de apresentar e analisar todos os elementos relativos aos recursos sonoros e outros aspectos, que consideramos também importantes para o ensino, tais como a sala de audiovisuais, a mediateca, os laboratórios de fotografia e de línguas e o fotocopiador.

No capítulo III, intitulado «Conclusões», após uma reflexão sobre a hipótese apresentada no 1º capítulo da 3ª parte e de termos formulado dois conjuntos de questões dela decorrentes, procuramos sintetizar em dois quadros (46 e 47) os recursos existentes e respectivas frequências relativas de utilização, fornecendo as respostas a todas as questões formuladas. O capítulo termina com uma síntese das principais conclusões.

Ao longo de todo o trabalho, procurou-se utilizar uma linguagem simples, concisa e objectiva, recorrendo, para a análise dos dados, não só a quadros claros e correctamente estruturados, mas sobretudo a gráficos de fácil leitura.

Este trabalho encontra-se desdobrado em dois volumes. No primeiro, apresenta-se toda a exposição referente às componentes teórica e prática; no segundo, os diferentes tipos de instrumentos criados, bem como todos os mapas, quadros e gráficos que permitiram a realização deste trabalho e que poderão, eventualmente, fornecer alguns contributos para estudos futuros. Deste modo, torna-se mais fácil uma leitura de toda a parte expositiva, simultaneamente com a observação dos diferentes mapas e gráficos.

 


     [1] - In Jacques MOUSSEAU - La troisième génération des moyens audio-visuels, In: "L'Audio-Visuel. Les encyclopédies du savoir moderne", la Bibliothèque du Centre d'Études et de Promotion de la Lecture, Paris, 1974, pp. 15-22.

     [2] - Marshall MCLUHAN, La Galaxie de Gutenberg, Montréal, H. M. P., Paris, Mame, 1967.

 

Para consulta do 1º Volume da tese de mestrado, «clicar» nos livros.

Acesso à tese de mestrado.

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