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Retroprojector
e Retrodiascópio |
De todo o material visual de projecção fixa deverá
ser o retroprojector o de maior utilidade, aliado a uma grande
simplicidade, facilidade e comodidade de utilização. Tal
como o nome indica[1],
permite projectar para trás da pessoa que o utiliza, não se
tornando necessário voltar as costas aos presentes
para exploração dos elementos de uma imagem, gráfico
ou texto. É um meio audiovisual tão fácil de utilizar
e versátil que, hoje em dia, quase não conseguimos
dispensá-lo
em aulas, acções de formação, conferências, debates, em
suma, em todas as actividades que envolvam situações de
comunicação em grupo. A juntar à sua versatilidade, tem a
vantagem de permitir efectuar a projecção de documentos à
luz do dia, sem necessidade de escurecimento da sala. Mas
das suas vantagens e potencialidades nos ocuparemos em breve.
Antes de mais, convirá que o utilizador tenha alguns
conhecimentos acerca das características deste utilíssimo
meio de comunicação audiovisual.
O retroprojector é uma máquina de projecção
constituída essencialmente por uma fonte de luz e um sistema
óptico, além de outros elementos também importantes, ainda
que complementares. Observemos a figura 1. Tal como aí se
mostra, o retroprojector é constituído por uma caixa
de secção quadrada - o corpo do aparelho -, na qual
existe uma fonte de luz, constituída por uma lâmpada de
quartzo de 24 Volt e 250 Watt, e um espelho esférico para
reflexão e concentração da luz. Alguns aparelhos mais
modernos têm a hipótese de fazer variar a distância do
foco de luz, por meio de uma cremalheira ou parafuso de
ajuste, permitindo obter certos efeitos de iluminação e de
projecção. Outros apresentam ainda a lâmpada protegida
por uma tampa de vidro especial que, além de protecção,
funciona como um filtro calórico. Aparelhos mais sofisticados
apresentam mesmo um sistema de mudança automática de
lâmpada,
quando esta se funde, prevenindo eventuais dissabores.
Quando acontece o percalço de se fundir uma lâmpada num
retroprojector, há que tomar a precaução de colocar a
nova lâmpada de substituição segurando-a com a bolsa
protectora de plástico, em que vem embalada, ou com um lenço
de papel ou de tecido. Se tivermos o azar de lhe tocar com os
dedos, deveremos imediatamente limpá-la com algodão
embebido em álcool. Se o não fizermos, a gordura dos dedos
atacará a ampola de quartzo e, ao fim de muito pouco tempo,
com o calor gerado pela lâmpada, esta ficará deformada e
inutilizada.
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Figura
1
: Esquema
de um retroprojector |
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Nos retroprojectores mais antigos, quando se liga o
interruptor da lâmpada, dever-se-á também ligar o
ventilador para arrefecimento. Nas máquinas mais modernas,
a ventilação é regulada por meio de um termostato. A
ventoinha (n.º 4) funciona automaticamente, ligando ou
desligando sozinha em função da temperatura do aparelho.
Para segurança de trabalho, nunca se deverá tapar as janelas
de ventilação, existentes lateralmente no corpo da máquina.
Sem ventilação, a temperatura atingida inutilizará o
retroprojector.
Na parte superior do retroprojector, encontra-se uma
placa de vidro (n.º 5), onde se colocam os elementos que
queremos projectar. Sob essa placa está uma lente dupla de
Fresnel, que concentra os raios luminosos na objectiva,
situada na cabeça de projecção (n.º 7). Esta, fixa numa
coluna de suporte (n.º 6), pode subir ou descer permitindo a
focagem correcta da imagem. O espelho, acoplado à cabeça de
projecção, permite regular a posição da imagem no ecrã,
colocando-a na altura desejada.
O retroprojector, como máquina que é, tem vantagens e
inconvenientes, embora as primeiras sejam as dominantes. Como
inconvenientes, apenas lhe apontamos o facto de ser necessário
haver energia eléctrica no local onde for utilizado e de
exigir algumas precauções durante a sua utilização: nunca
deverá ser deslocado enquanto a lâmpada não tiver
arrefecido, nunca deverão ser obstruídas
as entradas de ventilação e dever-se-á evitar
dar-lhe qualquer encontrão enquanto estiver a funcionar, para
que não se corra o risco de fundir ou soltar o filamento da lâmpada,
inutilizando-a. Teremos ainda de ter o cuidado de colocar o
aparelho em boa posição, de modo que o eixo óptico da
projecção fique perpendicular ao plano do ecrã. Se não
observarmos isto, a imagem ficará distorcida.
Há também toda a vantagem em possuir um ecrã; no
entanto, a sua ausência não impossibilitará a utilização
deste meio audiovisual. Poder-se-á utilizar uma parede da
sala, desde que esta seja lisa e de cor clara. O
retroprojector deverá também ser colocado a uma distância
do ecrã equivalente a cerca de uma vez e meia a largura
deste, a fim de se obter uma imagem com dimensões que
permitam uma fácil visão dos alunos.
À
excepção dos inconvenientes e cuidados a ter, que acabámos
de apresentar, o retroprojector apresenta grandes
possibilidades, permitindo projectar praticamente tudo, desde
imagens transparentes a recortes de imagens ou objectos opacos
e, sobretudo, sem necessidade de escurecermos a sala,
permitindo que o utilizador esteja sempre voltado para a
assistência.
Vejamos algumas sugestões práticas, com base não só
nas experiências feitas, como também na observação de
aulas e de trabalhos executados por professores de diferentes
níveis de ensino.
Começaremos por falar da criação das imagens para o
retroprojector. Estas são normalmente desenhadas sobre películas
transparentes de acetato, à venda em qualquer papelaria
avulso ou em caixas de 100 folhas de formato A4, podendo também
ser desenhadas em qualquer suporte transparente. Mas
podemos ainda criar imagens a partir de suportes opacos,
recortando-as de jornais e anúncios publicitários,
desenhando-as em folhas de papel A4 e recortando-as com uma
tesoura, picotando-as com um alfinete, ou mesmo projectando
directamente as silhuetas de pequenos objectos colocados em
cima da placa de vidro do retroprojector.
O sistema mais habitual de criação de imagens, e também
o mais fácil, consiste em desenhá-las directamente (ou, no
caso da habilidade para desenho ser diminuta, por
sobreposição sobre imagens existentes) em película
de acetato, utilizando canetas próprias de ponta média.
Claro que também poderemos usar lápis dermográficos de
cores diversas, mas o mais prático será o recurso às
canetas próprias. Há dois tipos de canetas de acetato, tendo
em conta a resistência do desenho ao apagamento: de tinta
facilmente apagável com um pano ou de tinta só apagável por
meio de álcool ou de uma borracha própria para acetato.
Como as imagens, gráficos, esquemas e textos que elaboramos
deverão poder servir para futuras utilizações, convirá
utilizar canetas de tinta resistente ao apagamento e elaborá-las
com uma certa qualidade gráfica. Textos, imagens, gráficos
e esquemas deverão ser claros, de tamanho adequado, havendo
toda a vantagem em que estejam enquadrados por uma moldura
rectangular, deixando-se margens como se estivéssemos a
utilizar uma folha A4 pautada. Esta prática, que para alguns
poderá parecer um adorno secundário, uma perda de tempo e
um desperdício de acetato, é bastante vantajosa. A
cercadura rectangular à volta da imagem que, no caso por nós
indicado, corresponde às margens de uma folha A4 pautada,
facilita o enquadramento da imagem,
permitindo um alinhamento paralelo com as
margens do ecrã, evitando o mau aspecto que dá uma imagem
torcida ou inclinada para um dos lados. Por outro lado, do
ponto de vista psicológico, ajuda a concentrar a atenção do
aluno na área central. Posteriormente, a existência de
margens no acetato permite um arquivo mais funcional num
caderno de argolas de formato A4.
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Figura
2: Como
organizar um acetato com uma só imagem ou texto. |
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Observemos os esquemas das figuras 2 e 3, que poderemos
considerar como esquemas-tipo daquilo que habitualmente temos
vindo a fazer para a organização de arquivos
audiovisuais e que temos vindo a aconselhar em acções de
formação. Se apenas apresentamos uma imagem por folha,
começamos por desenhar uma moldura com caneta preta, boleando
os vértices, a 2 centímetros da margem esquerda, a 1
centímetro
das margens superior e direita e a 3 centímetros da margem
inferior. Entre a moldura e a margem inferior, a cerca de 1,5
cm, traçamos uma linha horizontal a vermelho, na qual
indicaremos o título do acetato, para arquivo por ordem
alfabética
no caderno de argolas. Deste modo, facilmente localizaremos
os acetatos quando precisarmos de os voltar a utilizar.
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Figura
3: Como
organizar um acetato com mais de uma imagem. |
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Se pretendemos utilizar uma sequência de duas ou três
imagens ou de esquemas na mesma película de acetato,
deveremos separá-las por meio de molduras, tendo o cuidado de
numerar cada uma no canto superior direito da moldura, tal
como se documenta na figura 3. Note-se que só deveremos
juntar mais do que uma imagem no mesmo acetato, se todas
obedecerem ao mesmo tema ou assunto; caso contrário, não
convirá misturar imagens de assuntos diferentes, pois
impossibilitará um arquivo correcto, dificultando, mais
tarde, e sobretudo se se possui um arquivo já bastante
grande, a localização do material pretendido,
levando a perdas de tempo.
Os sistemas de arquivo acabados de apresentar
aplicam-se também quando obtemos acetatos de imagens, textos,
esquemas ou gráficos já existentes por meio de fotocópia.
Convirá, já que falamos de acetatos obtidos por meio de
fotocópias, lembrar que estas só podem ser feitas
utilizando folhas de acetato especiais
para fotocopiador. Se usarmos folhas próprias para
registo manual correr-se-á o risco da folha ser derretida
pelo calor, podendo mesmo inutilizar a fotocopiadora.
Por vezes, professores estagiários queixam-se, ao
tentarem colorir as imagens sobre a película de acetato, que
a passagem do feltro da caneta sobre traços já feitos
provoca uma esborratadela do trabalho. De facto, isso é muito
natural que suceda, porque as canetas, ao passarem sobre traços
já feitos, têm a mesma acção que um algodão embebido em
álcool. Para evitar isto, quando se pretender colorir uma
imagem, dever-se-á fazer o esboço de um dos lados e, em
seguida, voltar a folha e efectuar a pintura de toda a superfície
do desenho do lado contrário. Deste modo, não haverá o
perigo de apagar traços já feitos, podendo-se, inclusive,
efectuar uma mistura de cores por meio de tracejado, feito ora
de um, ora do outro lado. De maneira semelhante, quando
projectamos um texto ou um esquema e pretendemos efectuar
sublinhados, durante a aula, ou cobrir ou mesmo preencher espaços
deixados em branco, como, por exemplo, num exercício de carácter
gramatical, o original ficará sempre protegido e sem nada
escrito, pronto para outras utilizações, se lhe colocarmos
outra folha de acetato por cima, escrevendo-se sobre esta
segunda folha. Mais tarde, poderá ser recuperada, limpando-a
com algodão embebido em álcool.
Quando, nas nossas turmas temos alunos deficientes
motores, que necessitam do dobro ou do triplo do tempo para
escreverem aquilo que o professor regista normalmente no
quadro preto e que alunos normais copiam quase ao mesmo tempo,
o retroprojector poderá dar uma grande ajuda. Em situações
destas, que temos vindo a enfrentar, o retroprojector tem-nos
permitido imprimir um ritmo quase normal às aulas. Há cerca
de três anos, deparámo-nos precisamente com um caso difícil,
o caso de um aluno que tinha dificuldades em escrever,
exigindo um tempo demasiado longo para registar o que quer que
fosse. Dar aulas ao ritmo deste aluno, prejudicaria os
restantes dezanove. Para trabalhar ao ritmo da maioria, o
aluno deficiente ficaria totalmente bloqueado, sem qualquer
hipótese de efectuar os registos necessários. A solução
para este problema encontrámo-la no retroprojector e no
recurso a quatro folhas de acetato, sempre as mesmas,
utilizadas
em todas as aulas. Tudo quanto dizia, todas as perguntas
formuladas, todas as indicações fornecidas aos alunos, eram
por nós fornecidas oralmente, mas, ao mesmo tempo, íamos
fazendo o seu registo nas folhas de acetato. Essas folhas
eram, no final da aula, entregues ao aluno deficiente,
permitindo-lhe, em casa, passar calmamente todos os elementos
para o caderno. E, no dia seguinte, antes de começar a aula,
entregava as folhas de acetato limpas, que nós voltávamos a
utilizar. O resultado final foi francamente positivo para
toda a turma. Embora o ritmo da aula se tivesse tornado
ligeiramente mais lento, os alunos habituaram-se a
registar tudo nos cadernos, tendo diminuído consideravelmente
a frequência de erros ortográficos e melhorando mesmo o
aproveitamento de alguns alunos mais fracos da turma.
O retroprojector apresenta ainda outras potencialidades
de utilização, permitindo montagens interessantes com
diversos acetatos sobrepostos e dobráveis. Pode-se, por
exemplo, projectar imagens com movimento, por meio de
montagens feitas em plástico transparente. A ilusão de
movimento pode também ser conseguida por meio de projecção
de imagens obtidas com luz polarizada e adaptando um
disco móvel com motor eléctrico aplicado na cabeça de
projecção.
As potencialidades do retroprojector são, pois, múltiplas,
dependendo da imaginação do utilizador, que, seguramente,
encontrará muitas outras aplicações. A título
exemplificativo, poderemos mencionar alguns trabalhos feitos
com professores do ensino básico. Depois de lhes termos
mostrado um diaporama e explicado a maneira como o elaborámos,
um grupo de trabalho decidiu criar um retrorama
para utilização numa aula, intitulado «As Vozes dos Animais»[2].
Após a elaboração do guião, à semelhança do que se faz
para um diaporama, o grupo, numa folha de acetato, desenhou
seis rectângulos rigorosamente iguais, um para cada imagem,
criou uma máscara rectangular numa folha de papel de formato
A4 de maneira a projectar apenas uma imagem de cada vez.
Gravou, em seguida, numa cassete o texto e os sons, deixando
um breve intervalo de alguns segundos entre o texto
correspondente a cada imagem. Durante a reprodução da
cassete, a cada momento de pausa correspondia a mudança da
janela para a imagem seguinte, resultando uma sequência
audiovisual (som e imagem) idêntica à que se obtém com um
diaporama. Daí a designação de retrorama que lhe atribuímos.
Do exemplo anterior, pode-se concluir que as
potencialidades do retroprojector estão dependentes da
capacidade criadora do seu utilizador.
A adaptação de uma cabeça especial de projecção,
fixa na objectiva, permite a projecção de diapositivos,
transformando o retroprojector num retrodiascópio.
Podemos, pois, dizer que o retrodiascópio é um aparelho com
características de dois diferentes reunidas num só. No
entanto, as funções como diascópio são bastante reduzidas,
ficando muito aquém das conseguidas com um diascópio, pelo
que nos parece preferível ter aparelhos independentes para
cada função.
Embora ainda não tenhamos dito tudo acerca do
retroprojector, apenas acrescentaremos que é possível
adaptar-lhe rolos de acetato, que permitem ter sempre uma
superfície limpa para escrita imediata durante a realização
de uma aula, à semelhança do que habitualmente se faz com o
quadro preto. Igualmente, o retroprojector permite efectuar
desenho directo em acetato a partir de diapositivos. Se
colocarmos um projector de diapositivos junto de um
retroprojector,
apontando o feixe luminoso para o espelho, obteremos uma
imagem no acetato, que poderá ser facilmente desenhada por
decalque[3].
À
maneira de memorando, aqui deixamos uma breve relação
daquilo que um professor deverá ou não fazer, resultante da
observação efectuada durante alguns anos em aulas de
professores estagiários:
1 - Nunca obstruir as janelas de ventilação,
colocando livros ao lado do aparelho.
2 - Nunca arrastar o aparelho com ele em funcionamento
para centrar a imagem no ecrã ou para o colocar à distância
conveniente. Uma lâmpada funde facilmente com as vibrações
enquanto está quente.
3 - Escrever os textos, os esquemas e os gráficos com
letra legível e suficientemente grande, de preferência com
cores escuras, para facilitar a leitura. As cores claras poderão
servir para colorir as imagens.
4 - Utilizar racionalmente a superfície do acetato,
elaborando esquemas claros e sugestivos.
5 - Não pôr a sala às escuras antes de utilizar o
retroprojector. Isto revelará que o professor desconhece as
características do retroprojector e que nunca o utilizou.
6 - Ter a preocupação de manter as imagens bem
focadas e centradas no ecrã.
7 - Não deixar de utilizar o retroprojector somente
por falta de um ecrã na sala. Conseguem-se boas imagens mesmo
numa parede de cor clara.
8 - Não deixar que a luz do sol incida na zona de
projecção. Não há nenhum aparelho, por mais potente que
seja, que consiga sobrepor-se à luz solar. A imagem ficará
anulada.
9 - Não criar acetatos apenas para uma única utilização.
Fazendo-os com qualidade, poderão servir mais vezes, poupando
tempo e dinheiro ao professor.
10 - Havendo meios na escola, contribuir para o
enriquecimento da mediateca, deixando arquivar cópias dos
acetatos para utilização de todos os professores e para o próprio,
mais tarde.
In:
Henrique J. C. de Oliveira, Meios audiovisuais e
tecnológicos aplicados ao ensino, Aveiro, 1992, pp. 38-46.
(edição limitada do autor).
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