Irritado pela sentinela

Aqui me têm de novo e ligeiramente aborrecido. Não por ser de noite e estar sozinho. Lá fora, a noite está óptima. Ao longe, ouvem-se os ruídos próprios da bicharada nocturna da selva angolana. É para nós um indício excelente! Enquanto houver toda esta sinfonia à nossa volta, é sinal que não andam elementos hostis a rondarem-nos a porta. A noite, que deveria ser escura, é tudo menos isto. Está como um vasto manto escuro marchetado de milhares de diamantes de uma nitidez espantosa. Houve um objecto particularmente brilhante que atravessou o céu, mesmo na nossa vertical. Dado o seu tamanho, brilho e trajectória rectilínea e rápida, creio que é um satélite artificial. Surgiu no melhor momento. Quebrou o meu estado de irritação. Imaginem que fui dar com uma sentinela a fumar. Via-se perfeitamente à distância. Era um óptimo alvo a abater. Com um pouco de pontaria, no momento em que estava a puxar uma fumaça e a ponta do cigarro mais brilhante, tão brilhante que dava para perceber os contornos da cara, ficaria com a cabeça como uma bola de boliche, se eu fosse turra. Não com os três buracos onde se enfiam os dedos para lançamento, mas com dois: os da entrada e saída da bala. Foi isto mesmo, com imagens carregadas de realismo, que fiz ver ao rapaz. Aproximei-me dele, quase sem barulho, e disse-lhe:

— Ouve lá! Queres ir encaixotado para a metrópole? Se eu fosse terrorista, já estavas com a cabeça feita num crivo. Ficavas com ela como carne picada!

O rapaz apanhou um valente susto. Quase não conseguia falar. A gaguejar, pediu-me desculpa.

— Sabes o que é que eu devia fazer? Devia punir-te com uns dias de prisão, por estares a descurar a tua posição e a colocar a tua vida e a de todos nós em risco. Quase me apetecia ser terrorista e estar a cocar-te ali, daquele lado, na orla da mata. De certeza que eras o primeiro a passar para o lado dos anjinhos. Ou dos anjolas! O que é que vou fazer a um anjola como tu, que não sabe respeitar as normas de segurança quando está de sentinela ao destacamento? (...)

Vou deixar isto de lado, para ver se acalmo. Se me ponho a retomar a cena de há minutos, ainda me enervo mais. Posso ainda vir a mudar de ideias e a punir o rapaz. Mas isto não é fácil de pôr de lado! Continuo a magicar no problema! Avisei-o que, por esta vez, passava. Mas que se o voltasse a apanhar, a ele ou a algum camarada, a desrespeitar as normas de segurança ou a dormitar no posto, que o puniria com o máximo para exemplo de todos. E acrescentei-lhe que passasse a mensagem aos outros, que enquanto eu ali estivesse no Cabula Calonge, que se acautelassem, porque costumo manter-me acordado durante a maior parte da noite e passo frequentes rondas, às horas mais irregulares e menos previstas.

Antes de aqui regressar ao meu quarto, passei pela cubata onde estão os furriéis. Pu-los ao corrente do sucedido.

— O meu alferes vai punir o rapaz? Quem é ele?

— Por agora não interessa quem é. Foi um dos elementos que está de sentinela. Não interessa quem! O que interessa é que o furriel de serviço deve passar rondas frequentes, tal como eu costumo fazer. E não pensem que é por estar aqui com um grupo diferente do meu que sou mais rigoroso. O pessoal que anda comigo já me conhece suficientemente. Sabe bem que o alferes Ulisses é o primeiro a passar rondas frequentes durante a noite e que nunca descura a segurança do pessoal que lhe está subordinado. Se eu volto a deparar com uma situação susceptível de pôr em risco toda a malta, come não só o soldado que estiver de sentinela como o pessoal de serviço responsável pelas rondas. Quero rondas frequentes e a espaços irregulares, para que ninguém corra riscos desnecessários. Tenciono acabar a comissão inteiro e regressar a Portugal com toda a gente. Para isso é preciso que todos respeitem rigorosamente as normas de segurança, que todos cumpram com as suas obrigações e não caiam numa balda perigosa. Estou a fazer-me entender?

— O alferes está a esquecer-se que não somos só nós a fazer sentinelas. Os milícias também as fazem. Por isso, não é necessário tanto rigor como o alferes pretende.

— O facto de termos connosco milícias, isso não é desculpa para o nosso pessoal descurar as normas de segurança. Também passo pela zona onde eles se encontram. E ai deles ou de vós que isto volte a suceder. Livrem-se que eu volte a deparar com deslizes desta natureza. Tenham uma boa noite e até amanhã, se não nos virmos antes.

Saí e regressei aqui, ainda mais irritado do que com o soldado por causa da estupidez do furriel. Mas procuremos pôr uma pedra sobre o assunto. Vamos lá ver se consigo acalmar-me e se retomo a boa disposição com que saí daqui.

Ao que parece, a falta de inspiração que me afligia antes de sair da cubata tinha razão de ser. Alguma entidade benigna não queria que eu aqui ficasse a rever as coisas passadas. Uma entidade benigna certamente a zelar pelo nosso bem-estar e a criar-me motivos para me fazer sair e ir passar uma ronda às sentinelas.

Com tudo isto, que se lixem os diálogos que pretendia. Estava a tentar reavivar as conversas com o capitão e os meus camaradas, antes de vir para Cabula Calonge, para vos tornar os relatos mais vivos, mais naturais e mais agradáveis, para vos ajudar a viverem também, pela imaginação, as situações por que tenho passado. Mas que se lixem os diálogos! Ainda continuo com a irritação de há pouco. Parece que fiquei como uma bateria sobrecarregada de energia. Pareço uma bateria a lançar faíscas!

Já imaginaram o perigo que às vezes corremos sem darmos por isso? Não haja dúvida que, por vezes, é mais fácil estar no meio da macacada do que no meio de macacos de duas patas como estes com quem tenho de conviver frequentemente. Uma cambada de inconscientes! Uma cambada de irresponsáveis! Se fosse só o irresponsável a estar em risco, ainda era o menos. Era mais um, menos um. Agora ficar toda a malta em risco só por causa de um macaco que não sabe estar devidamente no seu galho... Como é lamentável a inconsciência e a estupidez humana!

Desculpem-me estes desabafos. Como vêem, o convívio convosco é também uma forma de catarse para mim. Ajuda-me a descarregar o azedume em que agora me encontro e a repor o meu equilíbrio nos parâmetros certos.

A sentinela estragou-me a escrita, está visto. Sabem que mais? Acho que isto por hoje já não dá mais nada. Vou acabar. Vou fechar todos os aerogramas e dormir um pouco. Mais logo, com novo sol a brilhar e sem azedume, retomo a escrita. Entretanto, estes vão já para a saca do correio, para que não estejam tanto tempo sem notícias minhas.

 

 Uma beijoca do vosso filho,

                                                                                 Ulisses.

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