Só, sem capelão nem furriéis

Aspecto da Quimabaca (Norte de Angola, sector de Uíje) em 22 de Março de 1973.

O resto do dia passou-se igualmente bem e com grande velocidade. Velocidade de tal modo acelerada, que chegou o dia do capelão nos deixar. Na manhã do dia vinte, tive uma manhã tranquila, gozando os últimos minutos da companhia do capelão. Os furriéis quiseram substituir-me no controlo do povo de Quimizenguene. Depois do almoço, foram eles a levar para Quimbele o capelão e o ajudante. Acabei o resto do dia sozinho.

Passeei pela sanzala, na companhia da miudagem. Visitei e conversei com alguns nativos junto das cubatas, explicando-me eles, com viva satisfação pelo meu interesse, o que estavam a fazer. Conversei com os soldados e fiquei a saber que estavam satisfeitos por terem vindo comigo para a Quimabaca. Gostavam de aqui estar. E passei o resto do tempo a passar a limpo os recenseamentos efectuados, para os mandar para a sede do batalhão.

O dia vinte e um de Março foi também inteiramente passado sem sair da sanzala. Sem viatura para efectuar recenseamentos, não fiz praticamente nada que se visse. Aliás, quando digo que não fiz nada, não significa que seja inteiramente verdade. Há sempre muita coisa para fazer, mas faz já parte das rotinas diárias. Tirando que tive a manhã ocupada a ajudar o enfermeiro, porque todas as manhãs temos gente nativa a fazer bicha junto à tenda onde temos os medicamentos e que funciona como “consultório” local, não fiz nada que mereça um registo mais desenvolvido. Os furriéis só regressaram ao destacamento à hora do jantar.

E o dia vinte e dois, aquele em que agora nos encontramos, foi passado na conversa convosco. Tenho neste preciso momento os vossos dois últimos aerogramas na minha frente, trazidos de Quimbele pelos furriéis. Vinham bem acompanhados com uma encomenda de queijo. Infelizmente, não veio o esperado e tão desejado exemplar da revista «Science et Vie» que vos tinha pedido. Espero que não tenha ido fazer um cruzeiro para outros locais.

Voltando agora à normalidade das correspondências, aproveito para responder às questões que me põem. Pergunta-me o pai o que aconteceu à minha máquina fotográfica. Creio que já vos expliquei bastas vezes o que sucedeu. Continua avariada. Penso que deve andar a passear pelo Japão, se é que a enviaram para lá para ser reparada. É por isso que não vos tenho mandado fotografias minhas nestes últimos tempos. Mas pela quantidade de aerogramas que têm estado a receber, dá para perceber que me encontro de perfeita saúde e disposição.

Folgo agora em saber que já tenho na minha conta vinte mil escudos. Não é que seja muito, mas é já alguma coisa. Talvez venham a ser necessários, qualquer dia, quando tiver de pagar a passagem de avião para ir aí passar férias. E daí talvez não. Deverei fazê-lo com o dinheiro que aqui vou amealhando. Aqui não há onde o gastar. Salvo casos raros e pontuais, como aconteceu com os leitões, não tenho onde o gastar.

Toda a malta aqui comprou em Quimbele gravadores de cassete iguais ao do furriel Rodrigues, o mesmo modelo que adquiri aí na Metrópole em 1969, para fazer os inquéritos. Penso também vir a comprar um, mas estereofónico e de tipo profissional, porque pretendo registar as batucadas e alguns costumes nativos.

E vou pôr ponto final na escrita. Está na hora de ir jantar. E, antes disso, tenho ainda de fechar todos os aerogramas e formar um maço, para que nenhum se extravie. Espero que nos serviços postais militares ninguém se assuste com a quantidade. Eles são tantos, que não creio que haja alguém com paciência para os abrir e espiolhar o que o alferes diz. Até à data, nunca notei que a minha correspondência fosse aberta e controlada.

Agora é que é mesmo. Um beijo muito saudoso para todos. E ponto final na escrita!

 

Vosso filho,

                        Ulisses.

 

 

P. S. - Afinal são só 37 aerogramas de uma vez!!! Mas ficou a escrita em dia. E não se podem queixar de não ter notícias minhas para lerem!

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