Balanço dos acontecimentos

Alto Zaza, 23 de Fevereiro de 1973

 

Após três dias de relativo descanso, em que estive reduzido a cerca de vinte homens e aproveitei para vos escrever, seguiram-se outros atribulados. Problemas uns atrás dos outros, que não me deram tréguas e me impediram ou tiraram a vontade de escrever. Por isso, tenho um espaço de nove dias com acontecimentos diversos por relatar. Mas podem desde já estar descansados. Não me aconteceu nada que eu não conseguisse resolver, apesar de algumas situações terem sido aflitivas.

«Problemas com os terroristas, certamente?» — estão vocês a pensar.

Não! Felizmente, nos últimos tempos, os «turras» têm-se portado muito bem. Não têm dado problemas. Se calhar, até serão alguns deles que mos têm trazido... mas não da maneira que estão a pensar.

Os sustos que tenho apanhado têm sido motivados pelos nativos, que me procuram frequentemente para os ajudar. Alguns deles, que tenho socorrido, têm aparecido no destacamento a caminho do encontro com o Criador. Um deles, trazido por vários homens, que nunca tinha visto, fez-nos passar momentos de angústia. Esteve quase a passar para o outro lado, apesar de todos os nossos esforços. Outro, trazido também de longe, estava numa situação idêntica, embora menos grave.

São vários os casos que me têm surgido ultimamente. Sou procurado por muita gente que não conheço. E como os terroristas não costumam usar distintivos, não me admira nada que alguns dos que tenho socorrido sejam mesmo terroristas. Mas isto não é problema que me preocupe! São seres humanos como eu. E, se me pedem ajuda, não me interessa saber quem são. Interessa-me, e é isso apenas que me preocupa, é salvá-los das garras daquela senhora que nos trata da saúde com uma foice de lâmina curva bem afiada. Já várias vezes a pressenti rondar por perto. E, em alguns casos, nada pude fazer para enxotá-la para longe. De modo que, se puder subtrair-lhe alguma vidas, dar-me-ei por bastante satisfeito. Destas lutas contra a senhora Morte falaremos em breve.

Agora, antes de entrar nos pormenores dos acontecimentos, importa dizer-vos que me encontro de perfeita saúde e na melhor das disposições. Se assim não fosse, não estaria a escrever-vos.

Antes de passar ao relato dos factos, cumprindo a minha obrigação prometida, transcrevo o resultado do balanço que acabo de fazer. É uma espécie de sumário, que irá facilitar a tarefa, permitindo-me um melhor ordenamento cronológico dos acontecimentos:

- Chegada do pessoal da operação e ida de tarde ao Quitari rebocar uma viatura;

- De coração nas mãos, para salvar um indígena;

- Uma aquisição dominical;

- Novo salvamento, compensado com um encontro inesperado com Toni de Matos;

- Carta de um ataque fantasma;

- Início da rotação do pessoal;

- Experiências culinárias desastrosas, numa carta a uma familiar;

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