Novos habitantes na região e pedido imprevisto dos furriéis

No dia 3 de Janeiro, a monotonia das rotinas diárias foi quebrada por actividade inesperada. Tínhamos acabado o pequeno almoço e preparava-me para ir para a minha barbearia habitual, em frente ao comando, quando entrou no destacamento um Land-Rover. Era o futuro administrador, que chegava ao Alto Zaza com trabalhadores nativos e os nossos sacos do correio.


— Bom dia, alferes.


Correspondi ao recém-chegado e cumprimentámo-nos.


— Sou o administrador do Alto Zaza. Vamos dar início à construção do posto administrativo. Trago o correio militar de Quimbele e pedia a colaboração do alferes.


Recebi os sacos do correio, que entreguei ao furriel de serviço, para efectuar a distribuição, e continuei a conversa com o futuro administrador da região.


— Em que posso ser-lhe útil?


— Pedia que o alferes me deixasse tomar as refeições no destacamento, sempre que precise e enquanto não tiver onde ficar. Já falei com o Senhor Capitão Alberto, para lhe pedir autorização. Disse-me que falasse com o alferes.


— Por mim, não tem qualquer problema. Terá todo o apoio que precisar. E, a propósito, já tomou o pequeno almoço?


— Obrigado, alferes. Já o tomei antes de sair de Quimbele. Tomei-o logo de manhã, na companhia do administrador de Quimbele. Agradecia era a companhia do alferes. Não conheço a região. É necessário um bom sítio para a construção do edifício da administração. Será um edifício bastante diferente do de Quimbele. Em Quimbele, há um edifício para a administração e outro para a residência do administrador. Aqui, será uma só construção, com residência e sector anexo para atendimento público.


— Só um momento. Preciso de dar ordens ao furriel de dia, para me substituir, e vamos dar uma pequena volta a pé. Estou até já a ver o sítio ideal para um novo edifício, com bons acessos e próximo do destacamento.


Chamei o furriel de serviço e disse-lhe o que ia fazer:


— Vou ter de me ausentar durante um longo período da manhã, para acompanhar o futuro administrador do Alto Zaza. Se houver algum problema urgente, que só possa ser resolvido por mim, deverei estar na periferia do destacamento, possivelmente para o lado onde vamos à água.


— O alferes já está a ver o sítio para onde vamos? — perguntou-me o administrador.


— Já! Conheço bem toda a zona envolvente. Já vi mentalmente qual a melhor localização para um edifício administrativo. Tenho quase a certeza que me vai dar razão, quando lhe mostrar o local. Vamos andando, enquanto lhe exponho o meu ponto de vista. Vai gostar do local que lhe vou mostrar.


Saímos do destacamento e percorremos a picada de acesso a Quimbele, até alcançarmos a zona onde nos desviamos, para descer para a linha de água que nos abastece. Pelo caminho, fui expondo o meu ponto de vista:


— Certamente que o Senhor Administrador já traz consigo o projecto para a construção do edifício.


— Efectivamente. É um projecto que já tem sido utilizado noutros locais.


— Vai pretender que o edifício fique num local agradável, de fácil acesso, não muito afastado do destacamento.


— Sem dúvida! O mais próximo possível da tropa.


— É edifício de pedra e cal ou um pré-fabricado como os que temos no destacamento?


— É uma casa de tijolo e cimento, semelhante aos edifícios de Quimbele.


— Quer dizer que vai querer todas as comodidades da civilização: casa de banho, água corrente, fossas sépticas para não haver contaminação do ambiente. Não vai ser como nós, no destacamento, que temos de ir a campo...


— Não, não! Tem casa de banho, com água corrente e fossas, como as casas de Quimbele.


— É o que estou a imaginar! Ainda não vi a planta com o projecto, mas já estou a visualizar mentalmente o edifício.


Em breve, estávamos no local pretendido, a cem ou cento e cinquenta metros do destacamento, na zona onde a picada bifurca.


— O sítio ideal para o edifício é este, aqui na bifurcação entre a picada para Quimbele e o trilho para a água. É uma zona boa, à vista do destacamento, a curta distância da pista e com arvoredo do outro lado da picada. É uma zona ainda plana, no começo da descida para a linha de água. Mais tarde, é fácil meter canalização para um poço, a abrir ao lado do riacho. Com um motor e um depósito no forro, por baixo do telhado, poderá ter sempre água com pressão para um chuveiro e até para um esquentador a gás.


— O alferes é arquitecto? — perguntou-me a certa altura o novo administrador.


— Não. Sou professor do liceu na vida civil. Mas convivi muitos anos, em Espinho, com um amigo do meu pai, que é arquitecto. Fui muitas vezes com ele ver casas em construção que ele projectou, não só em Espinho, mas até no Porto e em Aveiro. Estou agora a lembrar-me de um projecto que me proporcionou, a mim e ao meu pai, algumas passeatas a Aveiro. Foi na altura em que andava em construção um célebre restaurante junto ao mercado, onde se come uma sopa do mar que é uma delícia. Quem me dera lá estar agora!


— Está-lhe a crescer a água na boca, alferes? Olhe que ainda é muito cedo para o almoço.


— Tem razão. Ainda há pouco tomámos o pequeno almoço. Mas, se aqui apanhasse uma sopa daquelas, tenho a leve impressão que não lhe dizia que não.


— O alferes está é com saudades de casa!


— Talvez! Já aqui estou há bastante tempo. Mas retomemos o assunto. Que lhe parece o local?


— Parece-me que não precisamos de andar mais. O local agrada-me. E ali, daquele lado, entre a picada e a mata, posso construir uma casa provisória de pau a pique, para mim e para os trabalhadores. A construção do novo edifício vai levar muitas semanas. Até lá, vem a época do cacimbo. Acabam-se as chuvadas. Até posso instalar uma sala de estar e jantar ao ar livre.

Instalações provisórias do Administrador do Alto Zaza (Angola), em Janeiro de 1973.


— Para comer tem o destacamento. Não é mais uma boca que vai abalar o orçamento do exército.


— Não sou só eu. É preciso também dar de comer aos nativos que vão trabalhar na construção e aos meus ajudantes. Podemos regressar ao destacamento. Vou buscar a viatura para aquele local. Ainda hoje vamos dar início à construção provisória, para mim e para os trabalhadores.


Regressámos ao destacamento. Os ajudantes subiram para a viatura, de caixa aberta, para o transporte dos materiais, e o administrador saiu para o local da instalação provisória.


— Vêm almoçar aqui ao destacamento?


— Não, alferes. Trazemos comida para toda a gente. É só fazer uma fogueira e preparar o que trazemos.


— Já sabe, conte connosco para tudo o que for preciso. Se quiser cá ficar durante a noite, arranja-se lugar.


— Não é necessário, alferes. Obrigado. Enquanto não tiver telhado de chapa de zinco, vou dormir a Quimbele. Vou e venho todos os dias. Amanhã ou depois já devo poder começar a dormir no edifício improvisado.


— Bom trabalho e até logo. Nos momentos livres, pode contar com a minha companhia e alguma ajuda, se for preciso.


— Obrigado, alferes. Quando a 3ª Companhia se mudar para o Alto Zaza, já deverá aqui existir o novo posto administrativo.


Fiquei surpreendido com a revelação imprevista, mas não tive tempo para tirar nabos da púcara. A viatura já se tinha afastado em direcção à orla da mata.


Ao fim do dia, na hora do jantar, tive um pedido inesperado dos furriéis:


— O alferes podia deixar-nos ir amanhã a Quimbele... — disse o Rodrigues, a quem os colegas tinham incumbido o discurso.


— Deixar-nos, quem?


— A nós os quatro. Levávamos duas secções connosco.


— Os quatro ao mesmo tempo?!


— Sim, alferes, há aqui furriéis e soldados que não vão a Quimbele há muitas semanas. Passámos o Natal e o Ano Novo enfiados na mata.


— E fico sem furriéis? Se levam duas secções, fico no destacamento sem homens.


— O alferes ainda fica com vinte homens. E não fica sozinho. Tem aqui a Rosa, para lhe fazer companhia.


— A Rosa não é militar. Se acontece alguma coisa, não tenho soldados nem os comandantes de secção. Se todos os furriéis vão para o passeio, quem comanda as secções?


— Ó alferes, — diz outro furriel, para coadjuvar o pedido — saímos amanhã bem cedo. E, à noite, já cá nos tem outra vez. Durante o dia, com milícias e GEs a pouca distância de nós, ninguém ataca o destacamento. E há soldados que estão aqui há semanas sem nunca terem ido a Quimbele. Têm compras p’ra fazer. O alferes não pagou há pouco o pré a todo o pessoal? Onde quer que eles gastem o dinheiro? No meio do mato não há lojas.


— Temos tudo o que precisamos na cantina!


— Não é a mesma coisa, alferes.


— Temos todas as viaturas a funcionar. — acrescentou outro furriel. Podemos levar dois unimogues. Os condutores já sabem e estão de acordo em ir a Quimbele...


— E que pretexto vou dar ao capitão, para a vossa ida imprevista a Quimbele?


— Isso é fácil. — acrescentou o furriel responsável pelo abastecimento. Vamos buscar bebidas e levar e trazer o correio. Arrancamos daqui bem cedo, ao alvorecer.


— E o pequeno almoço?


— Isso é o menos. Há cafés em Quimbele. Partimos bem cedo, para estarmos lá o mais tempo possível. Regressamos ao fim do dia.


— Não me batam mais! Já me convenceram. Seja como vocês querem. Só peço que tenham o máximo de cuidado. Não quero ter de responder pela vossa vida aos vossos familiares.


— Obrigado, alferes. Não nos há-de acontecer nada!


A excitação, à noite, foi elevada. Os furriéis andaram atarefados, a escolher os soldados que queriam ir a Quimbele e a seleccionar aqueles que há mais tempo lá não iam. Tenho a ligeira impressão que lá chegaram ainda antes de terem partido. O desejo de ir à civilização era tanto, que, certamente, muitos deles deverão ter iniciado a viagem do dia seguinte ainda em sonhos.

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