Nas vésperas de operação helitransportada

Na manhã do dia seguinte recebi da Companhia uma mensagem cifrada que dizia:

 

«CHEFE SIMÃO MAIS UMA SECÇÃO DEVEM ESTAR PREPARADOS SEGUNDA DE MANHÃ PARA SAÍREM COM CAPITÃO SIMÃO MAIS DEZ HOMENS.»

 

Esta mensagem, recebida a meio da manhã de segunda feira e que me levou mais de meia hora a decifrar, não tinha nexo nenhum. Como era possível uma ordem para avisar os GEs para segunda feira se já estávamos a mais de meio da manhã?

Peguei numa folha de papel quadriculado, redigi a mensagem e cifrei-a para pedido de esclarecimento:

 

«IMPOSSÍVEL SATISFAZER PEDIDO DA VOSSA MENSAGEM NÃO SERÁ TERÇA EM VEZ DE SEGUNDA?»

 

A meio da manhã, recebi nova mensagem: 

 

«CORRECTO TERÇA FEIRA DE MANHÃ SIMÃO MAIS DEZ HOMENS CAPITÃO SEGUIU JÁ PARA AÍ»

 

Com toda esta sequência de mensagens, passei a primeira metade da manhã de lápis em punho e papel quadriculado a decifrar e a cifrar mensagens.

Pouco passava das dez e meia da manhã, vem-me o ajudante de cozinha dizer que estavam sem água para cozinhar. Sem viaturas, tive que mandar uma secção a pé à linha de água onde nos reabastecemos. Ao que chegámos! Ter de ir buscar água para a cozinha a pé e com latas improvisadas!

Pouco depois do meio dia, chegou uma coluna de Quimbele. Era o capitão que chegava com 37 homens. Fiquei francamente aborrecido. Não tanto pela chegada do capitão, mas por todo o trabalho desnecessário com as mensagens e, sobretudo, porque poderiam ter vindo mais cedo e facilitado o trabalho de abastecimento de água ao quartel.

Assim que a coluna entrou no quartel e o capitão desceu da viatura, fui-o receber e cumprimentar:

— Ainda há bocado recebi uma série de mensagens, uma das quais a dizer-me que o capitão tinha saído para aqui e já cá estão?! Como é que conseguiram fazer a viagem tão depressa?

— Saímos cedo. As mensagens foram enviadas pelo Vieira, que ficou a substituir-me no comando da Companhia.

— Deveriam ter mandado ontem as mensagens. Deveriam ter-me prevenido atempadamente para avisar os cozinheiros. Estamos com problemas de abastecimento de água, por falta de viaturas. A comida não vai chegar para tanta gente. Quantos são?

— Não te preocupes. O pessoal traz rações de combate para almoçar. Foi tudo muito repentino. A única coisa que precisas é de mandar avisar os cozinheiros para fazerem o jantar para mais 37 bocas.

— Preciso também que me empreste uma viatura para mandar um furriel à Cabaca. É preciso avisar o chefe Simão para estar amanhã com dez homens, de acordo com a mensagem há pouco recebida.

— Mais logo tratamos disso tudo. Agora é preciso ir descansar e almoçar.

— O capitão, o alferes Valério e os furriéis almoçam connosco no edifício do comando. Para quatro ou cinco bocas mais é possível fazer esticar o almoço.

Durante a curta distância que nos separava do edifício do comando, disparei nova pergunta:

— Afinal, o que é que vai acontecer? Ontem recebemos imprevistamente uma coluna de reabastecimento de combustível proveniente de Sanza. Hoje as mensagens e a vossa chegada. Alguma coisa deve estar para acontecer...

— Está! Amanhã inicia-se uma acção pré-natalícia de cinco dias junto à fronteira. Vai-te preparando, que também vais com parte dos teus homens...

— Como? Estou sem viaturas e de pulso enfaixado devido a uma queda. Nem o peso da arma consigo aguentar por pouco tempo.

— Não sei, tens de te desenrascar. O problema é teu! Mas agora é melhor irmos almoçar. Depois conversamos.

Escusado será dizer que nada lucrei com os meus protestos. O capitão pouco se importou se eu estava aleijado ou não. As viaturas podiam também continuar avariadas, que não faziam falta. A operação ia ser feita por meio de helicópteros.

Mal acabámos o almoço:

— Rapaz, limpa aqui a mesa, que temos trabalho para fazer. — disse o capitão ao soldado encarregado da manutenção do edifício do comando. E, voltando-se para mim: «Tens de mandar formar os teus homens para escolheres duas secções. Vais tu e um furriel. A operação vai ser junto à fronteira, próximo do rio Cuango, na área que estudaremos daqui a pouco. Agora, manda formar os homens.»

— Furriel, — disse para o Teodoro, que estava de serviço — mande reunir todo o pessoal na parada.

— Onde, alferes? Atrás ou à frente do comando?

— Na parada. Que eu saiba, só temos uma. Dentro de cinco minutos, quero todo o pessoal devidamente fardado na formatura. O capitão vai falar-lhes.

Poucos minutos depois, no largo central, atrás do comando e entre os três edifícios, após as formalidades militares.

— Prestem atenção às palavras do nosso capitão. Vai explicar-vos o que se passa.

Fiz a devida continência ao capitão e, uma vez toda a gente em posição de descanso, passei-lhe a palavra:

— Inicia-se amanhã uma operação de grande envergadura, durante cinco dias. É a primeira em que seremos colocados na zona da operação, transportados em helicópteros especiais. De certeza que é novidade para todos nós. Poucos aqui andaram já de helicóptero. Tirando o nosso alferes Ulisses, que andou várias vezes de helicóptero em Santa Margarida, creio que mais ninguém da Companhia passou por semelhante experiência. Tenho quase a certeza que todos estão interessados em participar numa acção deste género, quanto mais não seja para poderem aproveitar a oportunidade de andar, pela primeira vez, de helicóptero. Não pode ir toda a gente. Só duas secções do Alto Zaza serão escolhidas. O resto do pessoal tem de ficar a guardar o aquartelamento. Todo o pessoal, mesmo que não seja escolhido, vai ter de verificar, na próxima hora, com o máximo cuidado, as armas e as munições. Quero todas as armas desmontadas, bem limpas e oleadas e que no final não sobrem peças. Depois de montadas as armas, vejam se está em condições. E não se esqueçam de um elemento importante. As armas não funcionam sem cartuchos. Retirem todas as munições dos carregadores, limpem-nas muito bem e vejam se estão em boas condições. Quero todos os carregadores devidamente limpos e atestados. Estas ordens são para toda a gente, sem quaisquer excepções. Todo o pessoal que estiver interessado em participar na operação, exceptuando os que têm trabalhos fixos no quartel, deve dar um passo em frente.

Praticamente toda a gente mostrou interesse em participar. Além do baptismo de ar em helicóptero para a quase totalidade do pessoal, era uma maneira de fugir às rotinas sempre iguais de todos os dias, mesmo sabendo do risco inerente a qualquer operação.

— Alferes Ulisses, uma vez que não podem ir todos, escolha as duas secções que o vão acompanhar.

Fiquei momentaneamente sem saber quem escolher. Não tinha preferências e todo o pessoal me inspira confiança.

— Quem é que está de serviço amanhã?

— Hoje estou eu de serviço. — disse o Teodoro. Amanhã é a vez do Ramalho.

— Então vão comigo o Rodrigues e o Donato. O Teodoro, que está de serviço, vai controlar o trabalho de limpeza e verificação de armas e munições. Os restantes furriéis envolvidos na operação vão reunir-se comigo, com o Capitão Alberto e alferes Valério no edifício do comando. Mande dispersar o pessoal e iniciar as actividades. Pelas quatro horas, no máximo, tem de estar tudo pronto para irmos à água.

Com todo o pessoal ocupado na limpeza e verificação das armas, fomos para o edifício do comando, para tomarmos conhecimento pormenorizado das instruções do capitão.

Desdobrada a carta topográfica da região, o Capitão iniciou o trabalho:

— Amanhã, bem cedo, tem início uma operação conjunta de grande envergadura nesta zona da fronteira. É uma zona junto ao rio Cuango, por onde costumam infiltrar-se grupos terroristas em território nacional. O nosso grupo é um de vários que vai actuar na zona. O nosso grupo é largado neste ponto, com 900 metros de altitude, e será recolhido aqui, dentro de cinco dias. Temos que fazer, em cada dia, um destes quatro itinerários e estar, obrigatoriamente, no ponto de recolha, à hora marcada. Se falharmos algum dos percursos e não chegarmos a tempo e horas a este ponto, arriscamo-nos a ficar por conta própria no meio da selva.

De manhã, bem cedo, tem de estar toda a gente preparada para o embarque nos Puma, no campo de futebol em frente ao comando. Cada um deve levar, além do armamento que lhe compete e respectivas munições, cinco caixas de rações de combate, o material das tendas, cantil com água, pastilhas desinfectantes para esterilização da água, e um cobertor enrolado, para suportar o frio da noite.

Agora, o furriel Donato vai à sanzala dos GEs avisar o chefe Simão. Devem estar aqui bem cedo, a seguir ao amanhecer. Além disso, deve pedir para o chefe Simão arranjar-me um carregador de confiança, para levar o meu material.

— Os oficiais e furriéis não têm também direito a um carregador? — perguntei eu.

— Não! Só tenho dinheiro para pagar a um carregador, destinado ao comandante da operação, que sou eu.

— Como é que eu vou poder aguentar-me com armas e bagagens, quando ando com um pulso inoperacional há uns dias?

— É problema teu. Tens de te desenrascares.

— Não está correcto. Mesmo que não estivesse em inferioridade física, os comandantes dos grupos e das secções têm de estar mais aliviados, para se poderem manter física e psicologicamente capazes de actuar em toda e qualquer situação. Qualquer responsável acaba sempre por ter um maior desgaste, pois tem de mudar frequentemente de posição, procurando verificar se todo o pessoal que comanda se encontra em boas condições físicas e psicológicas.

— Poderás ter muito razão, mas estás a fazer perder-nos tempo. Não adiantas nada em estar para aí a protestar. És como os outros. Não faças perder mais tempo. Trata de ir verificar o teu armamento e ver se o pessoal das transmissões e enfermeiros têm tudo nas devidas condições.

Ainda que inconformado com a resposta do capitão, tive de acatar as ordens. Na companhia dos furriéis e do alferes Valério, desmontámos e verificámos cuidadosamente o armamento e restante material para o dia seguinte.

A meio da tarde, aproveitámos as viaturas da sede da Companhia para encher os depósitos da água dos chuveiros e da cozinha, constituídos por baterias de bidões de duzentos litros interligados, situados a dois metros do solo sobre estrados de madeira suportados por estacas.

Fui também com o capitão, soldados e furriéis à linha de bastecimento de água, onde aproveitámos para tomar um banho colectivo. A tarde estava quente e há dois dias que não tomávamos um banho decente.

Vou agora terminar esta série de aerogramas, antes que o jogo ao lado acabe e tenha o meu gabinete ocupado com os dois oficiais que aqui vão dormir comigo.

É agora quase o dia 19. Faltam alguns minutos para a meia noite. Esperemos que não fiquem até muito tarde e, sobretudo, que os próximos dias passem sem grandes problemas. Espero chegar inteiro ao próximo dia 22, para poder festejar o meu primeiro aniversário no meio da selva.

Até à próxima oportunidade. Um beijo para os pais. À cautela, desejo-vos já um feliz Natal, mesmo comigo a oito mil quilómetros de distância. Vai ser o primeiro Natal com a família incompleta.

Um beijo para todos.

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