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De há longa data que os meios audiovisuais constituem não apenas uma técnica
aplicada ao ensino, mas também uma forma de documentação,
ampliação e divulgação de conhecimentos. Embora nem sempre
devidamente considerados e aproveitados pelos professores, que
frequentemente os vêem erradamente como uma dificuldade ou
como um potencial substituto no desempenho da sua profissão,
esquecendo que a componente humana jamais poderá ser substituída
nas relações de ensino-aprendizagem, a verdade é que a sua
utilização tem sido feita por diversos professores, a
diversos níveis, desde tempos remotos.
Recordamo-nos, por exemplo, dos nossos tempos nos
bancos da escola primária. Já por essa altura, nos começos
dos anos cinquenta, afastado o espectro da guerra e
adquirida uma certa estabilidade social e económica, o
professor primário, homem novo e aberto às inovações
tecnológicas da época, despertava a curiosidade e atenção
dos alunos, miúdos então no começo da vida, mostrando-lhes
aspectos da realidade que, de outra maneira, se tornaria difícil
de apresentar. E a atenção e o entusiasmo deles, pequenos
seres em botão, a abrir para a vida, era profundamente
marcada pelas imagens mostradas e pelos sons das próprias
vozes, quando o professor lhes corrigia a leitura,
quebrando-lhes a teimosia e mostrando-lhes a leitura feita, e
que agora ouviam através da gravação, em desacordo com o que efectivamente
se encontrava no livro. Quanto entusiasmo e interesse em todos
nós, que nos fazia aderir a tudo quanto o professor
apresentava!
Os meios audiovisuais apresentavam-se, inicialmente, um
tanto rudimentares e de utilização bastante restrita: só
alguns os utilizavam. Outros,
manifestavam-lhe uma certa repulsa e viam-nos com desconfiança
e receio. Viam-nos apenas como máquinas de imagens ou
de sons e como uma forma pouco proveitosa de passar
o tempo.
A partir dos anos quarenta, verificou-se um enorme
progresso tecnológico. A Segunda Grande Guerra, apesar dos
aspectos negativos, levou o Homem a progredir
consideravelmente do ponto de vista da Ciência e da Técnica.
Ainda que postas inicialmente ao serviço da morte, as novas
invenções sempre acabaram por revelar o seu aspecto positivo
ao serviço da vida.
Durante a guerra, os meios de comunicação, a rádio e
o cinema, tomaram um elevado incremento. Além de funcionarem
como um meio de propaganda e de manipulação de
massas, impressionavam vincadamente as diferentes gerações
de então. Permitiam-lhes com grande facilidade e rapidez
assimilar os acontecimentos, permitiam-lhes estar ao
corrente de tudo, impondo-se gradual e sucessivamente à
sociedade e facultando-lhe uma nova dimensão do mundo.
Mas a origem dos meios audiovisuais, no sentido pleno
do termo, encontra-se em épocas remotas da História do
Homem. Podemos dizer, sem perigo de errar, que eles terão
nascido quase em simultâneo com o próprio Homem, a partir do
momento em que ele procurou estabelecer entre si a comunicação.
Para não termos de recuar até à idade das cavernas -
lembremo-nos apenas da pintura rupestre -, bastará pensarmos
no que se passava na Europa, na Idade Média, onde a maioria
das populações era iletrada. Por esta altura, um pouco à
semelhança do que actualmente começa cada vez mais a
suceder, a imagem substituía a palavra escrita. Só assim se
compreenderá a importância que a imagem
adquiriu nesta época, surgindo em grande profusão nas
fachadas das igrejas, nos painéis religiosos, em maravilhosas
iluminuras nos livros de horas e nos códices medievais.
Nestes últimos, surgem os primeiros modelos da moderna banda
desenhada. Recordem-se as maravilhosas iluminuras das Cantigas
de Santa Maria, de Afonso X, extraordinárias páginas de
narrativas em banda desenhada, no sentido moderno da expressão,
acompanhando os textos escritos e permitindo também uma
leitura pela imagem a quem não sabia ler.
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Figura
1: Aspecto de uma iluminura da Idade Média, ilustração da cantiga
CIII, estampa 114, das Cantigas de Santa Maria de
Afonso X.
Clique na imagem para ver a página completa.
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E qual a função desempenhada pelos imponentes painéis
de azulejos das igrejas medievais e de épocas posteriores?
Qual a função dos diferentes retábulos, dos portais
majestosos das grandes igrejas, com sequências em baixo e
alto-relevo de cenas da Bíblia? Como explicar toda a vasta série
de esboços e esquemas, incluindo quadros anatómicos, de
Leonardo da Vinci e de outros pintores célebres, bem como de
diversas pinturas representando cenas, algumas carregadas de
violento realismo, das guerras civis travadas nos modernos estados?
Mas é a partir do século XX que as técnicas
audiovisuais começam a pouco e pouco a impor-se ao Homem, a
par de uma melhor comunicação,
transmissão e
divulgação de conhecimentos, tornando-se
elementos indispensáveis à vida. Permitem-lhe alargar os
horizontes, permitem-lhe captar uma realidade mais ampla e
completa do mundo, com todos os seus aspectos positivos e
negativos, muitas vezes em contraste com os poucos elementos
que poderia observar no seu restrito meio social.
A nível das crianças e dos adolescentes, os meios
audiovisuais exercem sempre um certo fascínio, fascínio
este variável em função do meio sócio-cultural em que estão
inseridos, mas que não deixa nunca de existir, mesmo com a
proliferação actual dos vídeos e dos jogos informáticos e
com a elevada carga horária dos programas televisivos dos
nossos dias. Mesmo com estes aspectos, quiçá negativos, os
meios audiovisuais continuam a exercer um certo fascínio.
Impressionam-lhes a inteligência e a sensibilidade,
podendo, em alguns casos, libertá-los do mundo restrito em
que vivem e fornecendo-lhes uma imagem mais verídica, mais
concreta e inteligível do mundo que os rodeia.
É certo que, hoje em dia, poder-se-á negar a validade
dos meios audiovisuais. Poderá facilmente argumentar-se que
os jovens dos finais do século XX vivem rodeados e
encharcados de imagens e de sons, a ponto de estes não
apresentarem já o impacto que teriam há dez ou vinte anos
atrás, antes da proliferação das cassetes de áudio e de vídeo,
antes da divulgação dos jogos informáticos e da explosão
dos actuais meios mediáticos: rádio e televisão. Talvez por
estas mesmas razões, hoje mais do que nunca, os meios
audiovisuais poderão ser facilmente utilizados e com proveito
pelos professores dos vários níveis no processo de
ensino-aprendizagem, utilizando o meio adequado no momento
certo, para quebrar a apatia resultante do excesso.
Poder-se-á também argumentar que os meios
audiovisuais e tecnológicos poderão ser uma fonte de
desmotivação e de passividade, levando os alunos ao
desinteresse total e à perturbação do desenrolar da aula.
De uma maneira geral, apesar de todos os aspectos negativos
que se lhes possa apontar, temos verificado que os alunos se
interessam de modo muito especial por aquelas aulas em que o
professor recorre aos meios audiovisuais, quer se trate da
simples introdução na aula de um meio audiovisual
relativamente simples - como é o caso do gravador de cassetes
ou da projecção de acetatos -, quer de meios tecnológicos
mais avançados e sofisticados - caso, por exemplo, da utilização
do computador em situação de aula - para motivação,
exploração ou documentação de conteúdos programáticos.
É claro que poderá vir a surgir o perigo da
passividade, desinteresse e reacção negativa por parte dos
alunos. Esta situação é até mesmo muito provável de vir a
acontecer, se o professor cair na rotina e na monotonia,
usando e abusando sistematicamente da mesma técnica e dos
mesmos meios audiovisuais. Vejamos uma situação concreta.
Suponhamos que um professor de Português, a nível de um
curso mais avançado, antes da abordagem de textos líricos,
utiliza sempre a mesma estratégia. Antes da análise ideológica
e estilística de cada texto, faz sempre ouvir a sua gravação.
Ainda que a declamação seja perfeita, ao fim de certo tempo,
o procedimento acabará por se tornar rotineiro e monótono,
criando o desinteresse nos alunos. O texto terá muito mais
impacto se for ouvido declamar correctamente, ao vivo, pelo próprio
professor ou por um aluno que o tenha previamente preparado e
que possua sensibilidade e jeito para declamar. E o que se
passa com a audição de um poema, poderá ocorrer noutras
situações e a níveis diferentes de ensino. Toda a repetição,
seja ela recorrendo aos meios mais sofisticados, quer não,
acabará sempre por redundar em saturação e fracasso. Por
isso, competirá sempre ao professor a escolha criteriosa da
altura em que os meios audiovisuais deverão ser
introduzidos na aula, bem como a selecção dos mais adequados,
tendo em conta os objectivos, os níveis e os interesses da
turma. Por muito simples ou muito sofisticados que sejam os
meios utilizados, a sua maior ou menor adequação estará
sempre dependente dos critérios, das estratégias adoptadas
pelos professores, e dos objectivos que se pretendem alcançar.
Do ponto de vista psicológico, os meios audiovisuais e
tecnológicos baseiam-se sempre em dois factores de primordial
importância para a aquisição de conhecimentos: o sentido
visual e o sentido auditivo. Ninguém terá qualquer dúvida
de que estes dois sentidos se sobrepõem de maneira relevante
aos restantes, constituindo as duas principais vias de acesso
à observação e apreensão da realidade.
Consequentemente, os meios audiovisuais fornecem ao
aluno uma representação mais vivida e concreta da
realidade, com um maior cunho de veracidade, propiciando o estímulo
sensorial tendente à criação de centros de interesse para
uma ou mais lições. Podem funcionar como uma forte motivação
para o estudo, permitindo aulas com muito mais interesse e
prendendo a atenção de todos os alunos, mesmo os mais distraídos
e com maiores dificuldades de compreensão. Em certas áreas
disciplinares, poderão mesmo constituir a melhor maneira de
mostrar os factos e os fenómenos, já que uma imagem adequada
poderá dizer muito mais que mil palavras. E alguns meios
actualmente existentes poderão mesmo funcionar como
complemento e reforço das aquisições das aulas. Neste
aspecto, os mais avançados, como é o caso dos meios informáticos,
poderão funcionar como reforço e complemento do trabalho da
aula, permitindo ao aluno, por si só e de acordo com o seu próprio
ritmo de aprendizagem, o reemprego e treino de determinados
conhecimentos e competências. O único entrave a este aspecto
está no reduzido software didáctico actualmente existente e
na pouca eficácia de muitos dos poucos programas criados para
o ensino assistido por computador, agravado pelas
deficientes estruturas do actual ensino neste domínio .
In:
Henrique J. C. de Oliveira, Meios audiovisuais e
tecnológicos aplicados ao ensino, Aveiro, 1992, pp. 7-12.
(edição limitada do autor).
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