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Foi graças a um aveirense, nascido em 12
de Janeiro de 1910 e falecido em 5 de Agosto de 1990, que tivemos a
sorte de poder receber os 10 exemplares, que, em 25 de Novembro de 2025,
começámos a reconverter para um formato digital e hoje, passados três
meses de trabalho, podemos consultar no espaço «Aveiro e Cultura». Foi
também graças ao mesmo aveirense que pudemos, em Julho de 2003,
disponibilizar neste mesmo espaço uma colecção de 18 fotografias acerca
das cheias de Aveiro de 1938.
Em 2003, as fotografias das cheias de
Aveiro, não só os negativos como as provas em formato 6x9, chegaram até
nós porque as filhas deste aveirense descobriram que, no espaço «Aveiro
e Cultura», já existiam duas provas das cheias da cidade, que havíamos
atribuído a um aveirense como tendo sido o autor das imagens. E elas,
apercebendo-se do sucedido, tiveram o cuidado de me contactar para
corrigir o erro, porque o verdadeiro autor era o pai delas. E
elucidaram-me, então, que nem todas as fotografias que alguns aveirenses
possuíam da sua cidade eram da sua autoria, porque havia fotógrafos
profissionais em Aveiro que, aproveitando-se dos negativos dos clientes,
os duplicavam, quando viam interesse neles, para tirarem cópias e desta
forma obterem dinheiro, vendendo-as a outras pessoas que também
gostavam de coleccionar imagens da cidade. E como prova do que me
diziam, traziam os respectivos negativos e as provas com eles obtidas.
Perante tamanha evidência, tive de me
render aos factos e aproveitei para disponibilizar na Internet todos os
exemplares das cheias de Aveiro de 1938, com a indicação do respectivo
fotógrafo. Curiosamente, dias depois, tendo as filhas deste aveirense
verificado que havia corrigido o erro e o nome do pai figurava nas
páginas, fizeram-me uma surpresa agradável: ofereceram-me a máquina
fotográfica com a qual o pai delas tinha efectuado a reportagem
fotográfica. E esta é uma máquina que conservo como uma verdadeira
relíquia. Na altura em que a recebi, depois de ter observado cuidadosamente
a máquina fotográfica de formato 6x9, marca Zeiss Ikon, verifiquei que
os finos carretos sobre os quais deslizam as películas apresentavam vestígios de
ferrugem, que seguramente iriam danificar as fotografias durante o
avanço do filme para obtenção das imagens. Tive o cuidado de remover
cuidadosamente todos os vestígios de ferrugem. Adquiri um rolo da marca Kodak para
fazer um teste à máquina e, depois de ter gasto toda a película e
ter revelado e ampliado os negativos no meu laboratório, verifiquei que
a Zeiss Ikon continuava a tirar excelentes fotografias, apesar da passagem
dos muitos anos em que esteve parada. E parada continuou daqui para a frente,
tal como a minha Asahi Pentax de 35 milímetros. Tudo parado e arrumado
dentro da saca do equipamento fotográfico: objectivas, teleobjectiva de
distância focal variável, filtros, flash electrónico, em suma, todos os
acessórios com que documentei os locais por onde fui passando, antes do
advento das novas tecnologias. Porquê? Porque com o aparecimento da
fotografia digital, acabámos – eu e todos os amantes da fotografia – por
trocar os aparelhos analógicos por câmaras digitais. Para melhor? Talvez
sim! Ou talvez não!
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Três aspectos da máquina fotográfica com a qual foi feita a
reportagem das cheias de Aveiro de 1938 |
Mas voltemos ao que para aqui interessa,
isto é, cinjamo-nos à colecção dos dez exemplares da publicação
intitulada «PORTUGAL» e à História que ela nos permite rever.
(1)
Em nenhum dos dez exemplares, os únicos
que foram publicados na década de 1930, existe uma ficha técnica onde se
indique a data de edição de cada exemplar.
Como é que descobrimos ter sido a década
de 1930 e por que razão apenas foram publicados os dez exemplares que
chegaram até nós?
Folheados todos os fascículos, depois de
lhes termos tirado a fita de seda que lhes segurava as folhas, nas dimensões de
280x212 mm, verificámos que o primeiro exemplar publicado diz respeito à
cidade de Lisboa. Cada fascículo vem protegido por uma capa sempre
igual, na qual se apresenta, no subtítulo, os objectivos desta colecção
– «A Arte; os Monumentos; A paisagem; os Costumes;
as Curiosidades». Apenas muda a legenda final, na qual se indica
o tema tratado, tendo na contra-capa o mapa de Portugal, com a
localização da localidade. De acordo com o plano traçado, esta colecção
deveria ser constituída por um total de 50 fascículos, abrangendo todo o
País, agrupado em cinco séries:
1ª – Lisboa e arredores;
2ª – Entre
Minho e Douro;
3ª – Entre Douro e Mondego;
4ª – Entre Mondego e Tejo;
5ª – Além-Tejo.
Deste modo, seriam praticamente abordadas todas as cidades de
Portugal, do Norte ao Sul do País. Mas, de acordo com a nota em
letra negrita, a enumeração listada seria «a ordem de arrumação
dos 50 fascículos do PORTVGAL em volume ou pasta; porém, a publicação
dos mesmo far-se-á pela ordem que as circunstâncias aconselharem».
O primeiro exemplar publicado foi
dedicado à cidade de Lisboa e o segundo aos Jerónimos e Torre de Belém.
Embora nas fichas técnicas nenhum exemplar indique a data de publicação,
sabemos que estes exemplares deverão muito provavelmente ser posteriores
a 1931 ou 1932. Esta conjectura é-nos permitida porque, no terceiro
fascículo, Jorge Cid, o autor do texto acerca de «Lisboa – S. Roque e o
seu Museu», teve a feliz ideia de indicar a data: «Lx.ª 20 de Setembro
de 1933».
O quinto fascículo diz respeito à cidade
do Porto e o autor do artigo, o senhor Eleutério Cerdeira, teve também a
boa ideia de registar a data de Maio de 1934.
No sexto fascículo, dedicado ao Porto e
seus monumentos, o mesmo autor, Eleutério Cerdeira, registou a data de
Junho de 1934.
No sétimo fascículo, dedicado ao Estoril,
o autor, João Correia de Oliveira, indicou a data de Junho de 1935.
O oitavo fascículo foi dedicado a
Cascais e à sua baía, tendo o autor, Nuno Catarino Cardoso, indicado a
data: «Lisboa, Novembro de 1935».
Nos restantes fascículos, dedicados a
Lisboa, Museu de Arte Contemporânea e a Tomar, nenhum dos autores
se lembrou de indicar as datas.
E depois disto, depreendemos que nada
mais foi publicado, porque seguramente o coleccionador destes
fascículos, então com a idade de 20 anos e interessado pelas coisas da
sua terra, não deixaria de ter comprado os exemplares seguintes, tal
como fez para outras publicações do seu tempo, que coleccionou e teve o
cuidado de mandar encadernar em volumes, tal como tivemos, em tempos que
já lá vão, oportunidade de verificar.
O que terá levado à imprevista
interrupção desta colecção de fascículos acerca de Portugal? Muito
provavelmente o evento que ocorreu pouco tempo depois e deixou o planeta
Terra envolvido numa guerra a nível mundial, que se prolongou de 1939 a
1945, e à qual o nosso país conseguiu escapar, graças à sábia e prudente
actuação de quem na altura estava à frente de Portugal.
Relativamente à reconversão para formato
digital, poderemos dizer que todos os fascículos foram rigorosamente
reproduzidos, mantendo as características dos exemplares impressos,
apenas com a grande diferença de termos melhorado substancialmente a
qualidade das imagens e de as termos tornado interactivas, o que
equivale a dizer que, clicando o leitor sobre elas, terá acesso a uma
versão em grande formato. Claro que o texto foi também reproduzido
mantendo-se as imagens e o tipo de letra originalmente utilizado.
Poderá o leitor ficar surpreendido pela
apresentação de páginas em que as imagens se encontram deitadas. Não
fizemos mais do que reproduzi-las tal como foram impressas. Mas o leitor
poderá facilmente visualizá-las na forma vertical, devendo para isso
clicar sobre elas. O regresso à página far-se-á depois utilizando o botão de retrocesso.
Algumas páginas são rigorosamente uma versão fac-similada, mas com as
imagens melhoradas e ampliáveis, clicando-se sobre elas.
Pensámos inicialmente acrescentar um
índice de gravuras, tal como fizemos relativamente a outras publicações,
mas achámos melhor suprimi-lo, porque mais importante será a consulta
dos fascículos, folheando-os tal como se os possuíssemos na versão
impressa.
Embora pudéssemos ainda tecer algumas
considerações acerca do universo português na década de 1930,
especialmente quando nos são mostrados aspectos do ambiente das cidades
na época, pensamos que nada devemos referir acerca dessa matéria, porque
mais importante do que tudo quando possamos dizer será deixar que o leitor tenha o
prazer de apreciar este projecto incompleto que os nossos antepassados
nos legaram acerca de Portugal e comparar as imagens então registadas com a realidade
actual, tirando cada um as suas próprias conclusões, se é que já tiveram o prazer de visitar os lugares a que os
fascículos dizem respeito.
Aveiro, 22 de Janeiro de 2026
Henrique J. C. de Oliveira
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(1) -
Embora não tenhamos indicado o nome do aveirense
que teve o cuidado de adquirir e coleccionar os 10 fascículos aqui
reproduzidos, pensamos que nos primeiros parágrafos se encontram pistas
suficientes para que o leitor possa descobrir-lhe o nome.
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