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Volkswagen Variant
1500 S - 1963 (Typo III)
A paixão desenfreada pelo Volkswagen refrigerado a ar (Type I,)
conhecido no nosso país por "carocha", que há pouco mais de uma década
nasceu em Portugal, originou uma série de "assassinatos" no que concerne
aos modelos menos "queridos" dos obcecados pelos "carochas". É o caso
dos Brasília, de criação e fabrico brasileiro (a partir de 1976) –
apenas comercializados no nosso país e ex-colónias – que foram
desaparecendo canibalizados pelos "transformistas" dos "carochas", que
aproveitavam os motores (1600 com dupla carburação) e travões de disco à
frente para "artilhar", (hoje chama-se tuning a essas modificações) os
tão maltratados "carochas".
Foi desta maneira que muitos Variant (Type III) foram também sendo
"canibalizados", os primeiros com motores 1500 e com um ou dois
carburadores (os N ou S) e mais tarde (a partir de 1964) equipados com
motores 1600, também com dois carburadores e travões de disco à frente.
É destes "patinhos feios" da Volkswagen que pretendo falar.
Os Type III da Volkswagen, ou Variant, foram lançados no mercado a
partir de 1961 com motores 1500; e a partir de 1964 com motores 1600 e
travões de disco à frente, numa tentativa de criação de um carro "mais"
familiar, inicialmente com apenas duas portas, mas sendo intenção da VW
construí-los mais tarde com quatro portas, o que nunca veio a acontecer
na Europa. Apenas no Brasil foi construído um modelo com quatro portas,
baseado no Variant Notchback, que ficou conhecido pela alcunha de "Zé do
Caixão", tal era o desagrado estético que causava. Apenas foi utilizado
como táxi.
Foram três as versões do Variant lançadas no mercado europeu, o
Notchback, um três volumes; o Fastback com uma traseira coupée e o
Squareback, um utilitário vulgarmente conhecido por "carrinha".
O exemplar que ilustra este texto é um Notchback de 1963, que tentei
restaurar dentro da originalidade e por isso mesmo algumas peças menos
"boas" foram utilizadas por não encontrar as originais à venda, apenas
reproduções actuais das antigas. E tudo par causa de um Brasília!
Circulava eu com um Brasília, que "emigrou" para Inglaterra, quando
um amigo me perguntou se queria outro para peças, pois conhecia uma
pessoa que tinha um "todo podre", que estava a ocupar espaço na garagem
e dava-o a quem o lá fosse buscar. Nem era tarde nem cedo. Telefonei a
um amigo que dispunha de reboque e lá fomos buscar o tal Brasília
podre... a Canidelo (Gaia). Foi o cabo dos trabalhos retirar os restos
daquilo que afinal não era um Brasília, mas sim um Variant Notchback,
realmente "todo podre", do local onde se encontrava: um telheiro também
ele todo podre e que já tinha desabado em cima do carro, além de se
encontrar rodeado de sucata, que ia desde tábuas velhas a betoneiras
abandonadas.
Situado numa ruela estreita de Canidelo (Gaia) foi necessário
retirar o atrelado – onde iria ser transportada a "relíquia" – do
veículo que o puxava para se poderem fazer as curvas, de tão apertadas
que eram, até chegar ao local previsto.
Foi, de facto, o cabo dos trabalhos para retirar o desgraçado do
Notchback do local onde se encontrava, pois, além de todo o lixo que
tinha à volta, estava assente em quatro pedregulhos de granito, em vez
das rodas, tendo sido necessário quatro pessoas para deslocar cada um.
Trabalho que começou pelas 10horas da manhã e acabou cerca das 16,
sempre a chover.
Terminada a tarefa acabei, por dar 50 euros ao proprietário, que
ficou todo contente e eu também pois, por pouco dinheiro tinha
conseguido peças, não de um Brasília, mas sim de um veículo muito mais
raro e interessante, pelo menos para mim, sendo intenção desmantelá-lo e
utilizar as peças em troca de outras que me fizessem falta.
Estacionado o carro na oficina desse meu amigo (o do reboque, Carlos
Martins) lá fui, com a preciosa ajuda do Senhor Cancela, um amigo já com
mais de oitenta anos, que se foi entretendo, juntamente comigo, na árdua
tarefa de desmantelar um carro completamente ferrugento.
O mais engraçado é que quem via a viatura, mesmo com o seu lindo
vermelho rubi original completamente queimado pelos anos e anos ao sol e
chuva e com toda a decoração acastanhada que a ferrugem confere ao
material (in rust we trust), lá ia exclamando: que pena era tão
lindo!
Enquanto decorria o referido desmantelamento, lá ia eu pensado que
gostaria muito de ter um Karmman Ghia, mas o preço era, pensava eu,
exorbitante relativamente ao que queria gastar. Ao fim de algumas
semanas a ouvir dizer que o Notchback era "muito lindo", telefona-me o
Carlos a dizer que estava num certame de carros antigos, em Famalicão,
onde se encontrava um Notchback à venda em muito bom estado, "apenas
precisava de uns retoques na pintura e de tapar o tradicional buraco que
surge por baixo da bateria". A minha resposta foi pronta: – «vê o carro
com olhos de ver, como se fosse para ti e caso esteja como dizes
compra-o». Meu dito, meu feito, uma semana depois estava o carro em
minha casa, ou mais correctamente, na oficina do Carlos, ali na
Malaposta (Anadia).
Daí seguiu para Vale-de-Cambra para a oficina de outro amigo, o
Vítor Bastos, que se dedica à árdua tarefa de tratar a chapa destas
velhas relíquias. E por lá ficou um ano. De Março de 2006 a Março de
2007.
Veio impecável. A chaparia restaurada com todo o esmero e a pintura
também bastante razoável, embora tivesse que ser pintado duas vezes. É
que à primeira o pintor só fez asneira e as ondas nas laterais davam ao
carro um aspecto de mar encrespado. A falta de verniz em alguns lados
tornava-o rugoso e áspero, para não falar na falta de brilho…
A parte eléctrica foi um dos principais problemas a resolver. Também
aí foi necessário encontrar um electricista que refizesse o trabalho
feito pela primeira pessoa que lhe pegou, mas tudo se resolveu. A
mecânica teve um problema, mas apenas com a caixa de velocidades, que
tinha alguns rolamentos gripados e, depois de trocada juntamente com a
embraiagem que se revelou não ser a adequada, foram mais dois meses de
trabalho até ficar a 90 por cento, pois nestas coisas nada fica a 100
por cento. Ele aí está.
Macedo Pita
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