Série II - N.º 8 - Julho 2010

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Volkswagen Variant 1500 S - 1963 (Typo III)

A paixão desenfreada pelo Volkswagen refrigerado a ar (Type I,) conhecido no nosso país por "carocha", que há pouco mais de uma década nasceu em Portugal, originou uma série de "assassinatos" no que concerne aos modelos menos "queridos" dos obcecados pelos "carochas". É o caso dos Brasília, de criação e fabrico brasileiro (a partir de 1976) – apenas comercializados no nosso país e ex-colónias – que foram desaparecendo canibalizados pelos "transformistas" dos "carochas", que aproveitavam os motores (1600 com dupla carburação) e travões de disco à frente para "artilhar", (hoje chama-se tuning a essas modificações) os tão maltratados "carochas".

Foi desta maneira que muitos Variant (Type III) foram também sendo "canibalizados", os primeiros com motores 1500 e com um ou dois carburadores (os N ou S) e mais tarde (a partir de 1964) equipados com motores 1600, também com dois carburadores e travões de disco à frente. É destes "patinhos feios" da Volkswagen que pretendo falar.

Os Type III da Volkswagen, ou Variant, foram lançados no mercado a partir de 1961 com motores 1500; e a partir de 1964 com motores 1600 e travões de disco à frente, numa tentativa de criação de um carro "mais" familiar, inicialmente com apenas duas portas, mas sendo intenção da VW construí-los mais tarde com quatro portas, o que nunca veio a acontecer na Europa. Apenas no Brasil foi construído um modelo com quatro portas, baseado no Variant Notchback, que ficou conhecido pela alcunha de "Zé do Caixão", tal era o desagrado estético que causava. Apenas foi utilizado como táxi.

Foram três as versões do Variant lançadas no mercado europeu, o Notchback, um três volumes; o Fastback com uma traseira coupée e o Squareback, um utilitário vulgarmente conhecido por "carrinha".

O exemplar que ilustra este texto é um Notchback de 1963, que tentei restaurar dentro da originalidade e por isso mesmo algumas peças menos "boas" foram utilizadas por não encontrar as originais à venda, apenas reproduções actuais das antigas. E tudo par causa de um Brasília!

Circulava eu com um Brasília, que "emigrou" para Inglaterra, quando um amigo me perguntou se queria outro para peças, pois conhecia uma pessoa que tinha um "todo podre", que estava a ocupar espaço na garagem e dava-o a quem o lá fosse buscar. Nem era tarde nem cedo. Telefonei a um amigo que dispunha de reboque e lá fomos buscar o tal Brasília podre... a Canidelo (Gaia). Foi o cabo dos trabalhos retirar os restos daquilo que afinal não era um Brasília, mas sim um Variant Notchback, realmente "todo podre", do local onde se encontrava: um telheiro também ele todo podre e que já tinha desabado em cima do carro, além de se encontrar rodeado de sucata, que ia desde tábuas velhas a betoneiras abandonadas.

Situado numa ruela estreita de Canidelo (Gaia) foi necessário retirar o atrelado – onde iria ser transportada a "relíquia" – do veículo que o puxava para se poderem fazer as curvas, de tão apertadas que eram, até chegar ao local previsto.

Foi, de facto, o cabo dos trabalhos para retirar o desgraçado do Notchback do local onde se encontrava, pois, além de todo o lixo que tinha à volta, estava assente em quatro pedregulhos de granito, em vez das rodas, tendo sido necessário quatro pessoas para deslocar cada um. Trabalho que começou pelas 10horas da manhã e acabou cerca das 16, sempre a chover.

Terminada a tarefa acabei, por dar 50 euros ao proprietário, que ficou todo contente e eu também pois, por pouco dinheiro tinha conseguido peças, não de um Brasília, mas sim de um veículo muito mais raro e interessante, pelo menos para mim, sendo intenção desmantelá-lo e utilizar as peças em troca de outras que me fizessem falta.

Estacionado o carro na oficina desse meu amigo (o do reboque, Carlos Martins) lá fui, com a preciosa ajuda do Senhor Cancela, um amigo já com mais de oitenta anos, que se foi entretendo, juntamente comigo, na árdua tarefa de desmantelar um carro completamente ferrugento.

O mais engraçado é que quem via a viatura, mesmo com o seu lindo vermelho rubi original completamente queimado pelos anos e anos ao sol e chuva e com toda a decoração acastanhada que a ferrugem confere ao material (in rust we trust), lá ia exclamando: que pena era tão lindo!

Enquanto decorria o referido desmantelamento, lá ia eu pensado que gostaria muito de ter um Karmman Ghia, mas o preço era, pensava eu, exorbitante relativamente ao que queria gastar. Ao fim de algumas semanas a ouvir dizer que o Notchback era "muito lindo", telefona-me o Carlos a dizer que estava num certame de carros antigos, em Famalicão, onde se encontrava um Notchback à venda em muito bom estado, "apenas precisava de uns retoques na pintura e de tapar o tradicional buraco que surge por baixo da bateria". A minha resposta foi pronta: – «vê o carro com olhos de ver, como se fosse para ti e caso esteja como dizes compra-o». Meu dito, meu feito, uma semana depois estava o carro em minha casa, ou mais correctamente, na oficina do Carlos, ali na Malaposta (Anadia).

Daí seguiu para Vale-de-Cambra para a oficina de outro amigo, o Vítor Bastos, que se dedica à árdua tarefa de tratar a chapa destas velhas relíquias. E por lá ficou um ano. De Março de 2006 a Março de 2007.

Veio impecável. A chaparia restaurada com todo o esmero e a pintura também bastante razoável, embora tivesse que ser pintado duas vezes. É que à primeira o pintor só fez asneira e as ondas nas laterais davam ao carro um aspecto de mar encrespado. A falta de verniz em alguns lados tornava-o rugoso e áspero, para não falar na falta de brilho…

A parte eléctrica foi um dos principais problemas a resolver. Também aí foi necessário encontrar um electricista que refizesse o trabalho feito pela primeira pessoa que lhe pegou, mas tudo se resolveu. A mecânica teve um problema, mas apenas com a caixa de velocidades, que tinha alguns rolamentos gripados e, depois de trocada juntamente com a embraiagem que se revelou não ser a adequada, foram mais dois meses de trabalho até ficar a 90 por cento, pois nestas coisas nada fica a 100 por cento. Ele aí está.

Macedo Pita