Alunos


Há sonhos que adormecem com o peso dos anos e outros que nascem da perda. Armando acreditava que já tinha vivido tudo o que lhe era permitido, Jaime acreditava que ainda podia viver tudo o que lhe faltava. Um aprendera a voar para desafiar os limites do mundo; o outro queria voar para preservar a memória de quem partira. Nenhum dos dois sabia que, ao cruzarem-se, iriam devolver asas um ao outro.

Desde a morte do avô, Jaime passava horas a folhear o diário de viagem que herdara. Nas páginas gastas falava-se de ilhas perdidas, de criaturas extraordinárias e de um destino repetido vezes sem conta, Berk. O rapaz sonhava seguir aquelas rotas, mas não tinha meios para tal. Foi então que se lembrou do vizinho do lado. Armando fora, em tempos, um grande aviador, conhecido pela sua experiência nos céus. Convencido de que essa era a única forma de alcançar o que procurava, decidiu ir à sua casa.

Bateu à porta numa tarde calma, trazendo consigo o diário. Falou com entusiasmo, mostrando os rascunhos e explicando o desejo de chegar à ilha. Armando ouviu-o em silêncio. As palavras despertaram memórias antigas, mas a resposta foi firme: já não tinha idade para aventuras. Disse a si próprio que era sensato desistir, mas, no fundo, sabia que aquela decisão lhe pesava mais do que admitia. Jaime saiu cabisbaixo, sentindo que também aquele sonho estava condenado ao esquecimento.

Nessa noite, Armando não conseguiu dormir. A casa parecia mais vazia do que nunca. Abriu uma gaveta antiga e voltou a olhar para mapas que não tocava há anos. Perguntou-se quando deixara de acreditar em si próprio e se não estaria a confundir prudência com medo. Percebeu, com desconforto, que a idade não lhe roubara a coragem - fora ele quem a abandonara.

No dia seguinte, encontrou Jaime deitado no jardim da sua casa, a observar o céu com um ar aborrecido. Aproximou-se devagar e disse apenas que talvez ainda fosse possível tentar. O rosto do rapaz iluminou-se de imediato. Não eram precisas mais palavras.

Prepararam o avião com cuidado e partiram sob um céu aparentemente tranquilo. Durante algum tempo, voaram em silêncio, atravessando nuvens claras e vastos horizontes. A meio da viagem, porém, o vento começou a intensificar-se e o céu escureceu. Uma tempestade formava-se à frente, ameaçadora. O avião foi sacudido com violência e a chuva dificultava a visão. Não havia alternativa: aquele era o único caminho até ao destino. Jaime manteve-se firme, confiando. Armando, apesar do receio, recuperou a segurança de outros tempos e seguiu em frente. A resiliência e a determinação de ambos sustentaram o voo.

Subitamente, entre o mar de nuvens negras, / 45 / surgiu um feixe de luz intenso. A tempestade dissipou-se e a ilha revelou-se diante deles, intacta e majestosa. Ao aterrarem, encontraram praias extensas e animais extraordinários, como se o tempo ali tivesse parado.

Armando aproximou-se do mar com cautela. Apesar de uma vida inteira nos céus, nunca tinha sentido a água salgada nos pés. Entrou devagar e sorriu. Era uma experiência simples, mas profundamente reconfortante, a prova de que ainda havia muito por descobrir.

Guiados pelo diário, exploraram a ilha, atravessando uma vegetação exuberante e descobrindo ruínas e monumentos antigos. A cada passo, a ligação entre ambos fortalecia-se: um homem que recuperava a coragem de sonhar e um rapaz que aprendia que os sonhos se constroem com partilha.

No final da viagem, regressaram diferentes. Armando deixara para trás a solidão e a resignação; Jaime encontrara um amigo e um guia. Ambos compreenderam que nunca é tarde para recomeçar - desde que se tenha alguém com quem voar.

Afonso Tavares e Fabrício Capucho – 11.º E

 

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