Entrevista

Vivia-se em Portugal a ressaca das eleições de 58 e a guerra colonial ainda não se tinha declarado. Esta esteve presente sempre desde a mais tenra infância porque, para a África, e em força, vários familiares foram mobilizados desde os alvores dos anos 60. Da pátria fui vendo fugir alguns colegas cujos pais, preventivamente, tornavam emigrantes crianças mal saídas da escola primária. Assim se escapava aos horrores da guerra...

Como qualquer filho das classes populares, frequentei a Escola Primária da Palhaça num edifício que garbosamente ostentava (penso que ainda lá está) uma placa em que se podia ler "Obra da Ditadura Nacional': Terminada aquela, quando a Primavera Marcelista ainda permitia sonhar, frequentei a Ciclo Preparatório na Telescola da Palhaça, entre 1969 e 1971. Acabava assim a escolaridade obrigatória e os meus pais, já na casa dos 50, decidiram que esse filho tardio continuasse os seus estudos, coisa que não tinha acontecido com ou outros cinco, que tinham ficado pela escolaridade obrigatória.

Desconfiados dos maus caminhos que o ensino público podia abrir ao filho, decidiram na família que continuaria os seus estudos num colégio privado. Falou-se em casa dos Carvalhos, até de Tomar, mas lá se decidiram pelo Colégio de Albergaria, que sempre ficava mais perto. Claro que em regime de internato. Foi aí que concluí o 3.º ano do Curso Geral dos Liceus, ou o 5.º ano como vulgarmente se chamava. Foram três anos duros, mas inesquecíveis, que terminaram pouco depois do 25 de Abril. Tal como a Sophia, essa era a madrugada que esperava, que me apanhou de castigo, pois tinha-me posto a jeito num almoço de Páscoa, em que resolvi falar do Portugal e o Futuro e do Golpe das Caldas, alvitrando que a ditadura tinha os seus dias contados. Por esse tempo ouvia às escondidas a emissão em português da BBC, onde alguns oposicionistas tinham voz. Desses tempo do Colégio de Albergaria ficam dois episódios que me hão de marcar para a vida: uma professora de inglês, que numa aula sobre Londres, e a propósito do Hyde Park e do Speakers' Comer, disse esta frase lapidar: «pelo menos lá há um sítio onde se pode dizer tudo, aqui não há nenhum.»

O outro episódio, ignorando se houve consequências para os seus autores, aconteceu na festa de anos da Diretora. Num silêncio absoluto, descendo as escadas do ginásio, apareceram uns quantos alunos vestidos com capote e calçados com botas alentejanas, cantando, à capela, o IIGrândola, Vila Morena': Coisa capaz de marcar uma pessoa para a vida.

A Revolução, a consciência de classe ou o que quer que tenha sido trouxeram o então adolescente com 15 anos ao ensino público. Comecei a frequentar 1.º ano do Curso Complementar (ou o 6.° ano, como então se dizia) na segunda semana de outubro de 1974, logo a seguir a esse domingo esquisito que foi "UM DIA DE TRABALHO PARA A NAÇÃO': No então Liceu Nacional de Aveiro, numa turma de Ciências, começou uma ligação de 35 anos com a Escola Secundária José Estêvão. Entre 74 e 76, como aluno. De 1 de setembro de 1992 a 31 de outubro de 2025, como professor.

Em 1976, com o 2.° ano do Curso Complementar de Ciências incompleto (reprovei no Exame Nacional de Matemática) emigrei para a Venezuela, onde vivi entre novembro de 1976 e março de 1978. Não assisti, por isso, a dois dos mais badalados programas da televisão portuguesa como terão sido a Cornélia e a Gabriela. Lá longe, num dos barrios de Grande Caracas, entrei em contacto com / 11 / uma sociedade violenta, mas pujante, capaz de albergar emigrantes portugueses clandestinos, deslocados colombianos em busca de vida melhor ou refugiados chilenos fugidos da borrasca da Santiago de Pinochet.

Regressei a Portugal em março de 1978, ainda a tempo de me inscrever no Ano Propedêutico e trocar a Matemática por fazer pela nova paixão: a História. Concluí, como autodidata, o 2.º ano do Curso Complementar, um misto de Ciências e Letras e, da mesma forma, fiz os exames do Propedêutico, que me habilitaram a concorrer à Universidade de Coimbra.

Frequentei, entre 1978 e 1982, a Licenciatura em História, onde cheguei a fazer parte do Conselho Diretivo da Faculdade de Letras, em representação dos alunos. Fiz provas públicas para o acesso ao Mestrado de História Moderna, que comecei a frequentar ainda no ano de 1982, mas a necessidade fez-me candidatar aos Miniconcursos para lecionar História. No dia 11 de novembro de 1982, entrei pela primeira vez no ensino público, como professor de uma escola do 3.º ciclo de Águeda (que viria a ser mais tarde a Adolfo Portela) novinha em folha, ainda em regime de instalação. Durante meses, ainda conciliei a docência com a investigação, mas, lá para março de 1983, abandonei o mestrado na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra.

Nos anos seguintes, fiz um périplo pelo país real. Depois de Águeda, seguem-se Castro Daire, Abrantes, 3 anos em Benavente e a efetivação em Salvaterra de Magos. Efetivo, mas provisório, dado que ainda não fizera estágio. Este é feito pela Universidade Aberta, já em Oliveira do Bairro, que conclui em 1991. Ainda lecionarei um ano na Escola Secundária Homem Cristo até que, em 1 de setembro de 1992, cheguei à minha escola definitiva: a Escola Secundária José Estêvão.

Nestes anos do início da década de noventa, voltarei à Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, onde frequentarei o Mestrado em História Contemporânea. Concluí a parte curricular, mas não cheguei a entregar a dissertação. Pela mesma época, e durante dois anos, acumulei funções no Ensino Superior Privado e lecionei uma cadeira no ISCIA.

Em 1999, fui eleito presidente da Assembleia de Escola da Escola Secundária José Estêvão, quando era presidente do Conselho Executivo Arsélio Martins. Nestes anos de transição de milénio, colaborei com a Revista Labor e na edição dos Liceus de Portugal, obra coordenada por António Nóvoa, sendo responsável pela entrada sobre o Liceu Nacional de Aveiro. Em 2002, quando Arsélio Martins decide interromper a sua carreira de gestor público e fazer um ano sabático, fui quase empurrado para a Direção da José Estêvão. Serei o seu último Presidente do Conselho Executivo e também o seu primeiro e único Diretor. Enquanto tal, fui o responsável pela requalificação da Escola Secundária José Estêvão. Em 2013, a Escola Secundária José Estêvão e o Agrupamento de Escolas de S. Bernardo agregam-se e dão origem ao Agrupamento de Escolas José Estêvão. Durante um ano, ainda farei parte da gestão do agrupamento, como vice-presidente da CAP, até que, a partir de 2014, voltarei a ser o que sempre quis ser: um simples professor. Estou aposentado desde o dia 1 de novembro de 2025.

Alcino Carvalho
 

 

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