Editorial

HUMANIDADE NAS INTELIGÊNCIAS

Falar de humanidade nas inteligências é, antes de mais, falar de pessoas. Das muitas formas de pensar, aprender, criar e errar que nos definem enquanto seres humanos. A inteligência não pode ser medida apenas através de números, testes ou classificações. No fim de contas, a verdadeira inteligência talvez esteja em nunca esquecer que pensar é um ato humano. E que, sem humanidade, qualquer forma de inteligência corre o risco de se tornar apenas... muito eficiente, mas pouco significativa. Somos cada vez mais inteligentes. Sabemos mais, calculamos melhor, decidimos mais depressa. Mas a pergunta impõe-se: seremos também mais humanos?

Pensar envolve emoções, experiências, valores e até contradições. Há inteligências que se revelam no silêncio, outras na palavra, algumas no gesto solidário ou na capacidade de escutar. Nem sempre a mais rápida é a mais sábia– e a História está cheia de exemplos que o confirmam.

Hannah Arendt, filósofa alemã do século XX, alertou para o perigo de agir sem pensar, de repetir ideias sem reflexão. Pensar com humanidade é aceitar a dúvida, reconhecer limites e compreender que nem todas as perguntas têm soluções simples.

A escola é um espaço privilegiado para este exercício. Desenvolver a inteligência implica cultivar o pensamento crítico, a empatia e a responsabilidade. Implica aprender a discordar sem desrespeitar e a argumentar sem anular o outro – competências que não aparecem em manuais, mas que fazem toda a diferença fora deles.

Vivemos num tempo em que o erro é visto como fracasso e a diferença como fraqueza. Nesse contexto, há inteligências que se tornam frias, competitivas e indiferentes. De que serve um pensamento brilhante, se não reconhece o valor do outro?

Talvez o maior perigo do nosso tempo não seja a falta de inteligência, mas a ausência de humanidade nela. Porque uma sociedade verdadeiramente evoluída não é a que pensa mais depressa, mas a que pensa melhor – e com os outros em mente.

A escola não pode limitar-se a treinar mentes eficientes. Se o fizer, corre o risco de formar indivíduos capazes de tudo... menos de compreender e de sentir empatia pelo outro. Educar é também provocar, inquietar, ensinar a pensar com consciência e responsabilidade. Para Paulo Freire, educar é um ato de coragem, é um ato de amor.

Paula Antunes

 

 

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