A OBRA CARITATIVA DA RAINHA SANTA – HOSPÍCIO E PAÇO – UM POUCO DE HISTÓRIA – o NOVO CONVENTO E D. JOÃO IV – A TRASLADAÇÃO SOLENE – O SAQUE DA GENTE FRANCESA – VISITAS REAIS AOS RESTOS INCORRUPTOS DA RAINHA SANTA

Junto ao mosteiro mandara a Rainha Santa construir, além de seu Paço, um hospício para pobres e mais outros edifícios. Beneficiar os infelizes foi desde então, mais que nunca, seu fim exclusivo, e os cronistas de Isabel de Aragão lembram com singeleza o que sucedeu no calamitoso ano de 1333, em que a Rainha, esmolando sem conto, albergando os sem pousada, e até mandando sepultar e rezar responsos aos mortos, quase se arruinava e esteve a ponto de não ter com que passar. Isto lhe observavam os familiares; porém a soberana a nada atendia senão a aliviar a desgraça, espalhando o bem e o amparo, numa prodigalidade fecunda e celestial de virtude e radioso contentamento.

Mas todos aqueles lugares de suave recordação histórica foram ruindo, sorvidos pelas águas do rio. Testemunhas da bondosa existência da Rainha Santa, aquele templo e paredes, que têm vinculadas datas memoráveis da história portuguesa, vivem hoje de recordações abstractas, reminiscências trazidas / 450 / a lume pela pena dos eruditos. Ali se sepultaram os restos de Inês de Castro, «a mísera e mesquinha», antes da sua trasladação solene para Alcobaça; o Mestre de Avis, defensor do reino, foi aclamado de suas janelas e campanário; na capela sepulcral da Rainha Santa contraiu D. Duarte matrimónio com a infeliz D. Leonor de Aragão; naquele templo orou o infante D. Pedro, o «Regente», nos últimos momentos de vida que lhe precederam a cilada ignominiosa de Alfarrobeira, como sob suas abóbadas pronunciou seus votos e fez profissão religiosa D. Joana de Castela, segunda mulher de Afonso V, excelente senhora; e foi também do púlpito da veneranda igreja do antigo convento de Santa Clara, que a austera e virtuosa figura de D. Frei Bartolomeu dos Mártires pronunciou, perante a leviana corte de D. Sebastião, uma das suas mais clamorosas e sãs prédicas de evangélica e desassombrada eloquência.

Em fins do século XVII o templo ameaçava franca ruína. Então D. João IV ordenou a mudança do convento para o vizinho monte da Esperança, sitio deveras pitoresco e de largas e belas vistas, o Marquez de Marialva D. António Luís de Menezes foi encarregado da superintendência das obras, e a frei João Turdano, arquitecto notável e lente de matemática da Universidade, foi incumbida a planta do edifício (1).

Finalmente, em Julho de 1696 realizou-se com grande e faustosa solenidade a trasladação, que era a terceira, do corpo da Rainha Santa para a ampla igreja do novo mosteiro de Santa Clara.

O caixão com o corpo de Santa Isabel foi introduzido no túmulo de prata, que tinha sido colocado anteriormente na tribuna especial para isso fabricada, acima do altar-mor e por debaixo do trono. Não seria, porém, ainda o definitivo lugar. O saque dos exércitos de Bonaparte, escorraçados do Buçaco, apavorou as / 451 / freiras; encerraram o corpo da Rainha Santa numa cela, de onde foi tirado anos depois e conduzido para o coro do mosteiro, para estar mais comodamente disposto para ser venerado pelas pessoas reais que o têm visitado. Estiveram ali D. Miguel, D. Maria II, D. Pedro v e seus irmãos; e já também se patenteou o corpo incorrupto de Santa Isabel ante a presença do falecido rei Humberto, do rei D. Luís e da Rainha D. Maria Pia, do infante D. Augusto, do imperador do Brasil D. Pedro II e dos actuais monarcas portugueses.

Duma das vezes que se realizou o acto da abertura do túmulo da Rainha Santa e foram / 452 / patenteados seus restos, existem curiosos documentos transcritos na obra do Sr. Dr. Garcia de Vasconcelos.

O acto solene, a que nos referimos, foi em princípios do século XVII, em 1612. Numa carta particular, o licenciado Manuel Martins, secretário do Bispo-Conde D. Afonso de Castelo Branco, dá testemunho simples do que viu e observou. Contemplou o rosto senhoril (mui alvo e formoso, acrescenta num escrito outra testemunha presencial, o Dr. Baltazar de Azeredo, ao tempo lente de prima jubilado de medicina na Universidade, físico-mor de Sua Majestade e um dos peritos que assistiram à abertura do túmulo), os cabelos louros e toda a incorrupta figura muito semelhante à que repousa na lápide tumular. O corpo estava envolto num tecido encerado, numa ampla colcha de seda branca e em panos como lençóis. O tecido encerado de duas dobras era tão forte, escreve ainda numa carta também transcrita o mestre Sebastião Coutinho de Sousa, que se não pôde abrir senão com um escopro de carpinteiro. Em cima deste tecido estava um bentinho, porventura a bolsa de esmolar da Rainha, e um bordão como muleta, com as pontas engastadas em ouro ou prata dourada e cravejado de muitas conchinhas. A Rainha Santa, dissera o físico-mor, parecia ter morrido na véspera!

O túmulo onde se encerram os restos da Rainha Santa é obra notável. Em forma de arca monumental, tem quatro faces amplas de belo e alto-relevo, numa variedade bem estilizada de motivos e decorações, bem cavados nichos, bem talhadas figuras, elevando-se magnificente até ao alto, a larga pedra e cobertura sepulcral, sobre a qual descansa a estátua da Rainha, cuja fronte se abriga na sombra dum baldaquino de boa altura. A atitude e expressão são humildes e significativas: a soberana sobraça o bordão de peregrina, o livro de orações e a bolsa bem recheada de moedas, cujas formas redondas se salientam na pedra. A tradição, trazida singelamente pela crença ingénua do povo, refere que, quando nos momentos de crise da pátria portuguesa, se espalha sempre pelo templo suave aroma exalado do túmulo; e é lenda que do rosto da estátua da Rainha Santa, jacente em seu túmulo, deslizaram copiosas gotas de suor naquele dia nefasto da infeliz jornada de Alcácer-Quibir! / 453 /
 

A OBRA DA CRENÇA POPULAR – CURAS E MANIFESTAÇÕES SOBRENATURAIS – A RAINHA SANTA E A ARTE

O culto da Rainha Santa Isabel, ainda hoje profundamente enraizado na alma e crença do povo português, tem amplas e veneráveis tradições históricas. As crónicas, biografias e devocionários que se referem à Rainha Santa inserem longas resenhas, férteis divagações, relações de milagres, o produto sincero da prática religiosa popular coada através do misticismo monástico dos séculos passados. Curas de surdos, e cegos; úlceras sanadas; paralíticos recuperando perdidos movimentos, e a tradição que nenhum cronista esquece do líquido aromático que escorre sobrenaturalmente do ataúde da Santa… A representação material da imagem venerada tem surgido sob diversa e múltipla forma na imaginação dos artistas; a arte acompanhando racionalmente a inspiração do vulgo, que sempre e necessariamente concretizou os objectos de adoração, numa síntese material, visível e palpável que vai desde filosófica concepção panteísta até aos rudes e reduzidos delineamentos da estatueta, da imagem, ou da iluminura.

A primeira imagem da Rainha Santa, segundo dá nota Papiniano, apresentou-a trajando vestes reais, coroada, tendo no regaço rosas brancas e vermelhas, simbolismo todo que ressurge na concepção última de Teixeira Lopes. A imagem é do século XVI, como ao mesmo século se atribui o tipo icónico da Rainha Santa, a que já nos referimos, de estamenha, véu de freira e coroa de espinhos.

Tem-se representado ainda sob outra forma, imitação da estátua sepulcral: vestida de freira clarista, coroa real cingindo o véu, que lhe cobre a cabeça e na mão o bordão de peregrina. Em Braga, diz ainda o Sr. Dr. Garcia de Vasconcelos, aparece outro tipo: D. Isabel vestida de Rainha, com toda a opulência e majestade da realeza; a fímbria do vestido, um pouco levantada, deixa ver a estamenha do habito franciscano, que está por baixo.

Das representações referidas, a mais vulgar é a primeira, tendo-se-lhe adicionado um pobre que, de joelhos junto da Rainha, recebe a esmola duma rosa, cujas pétalas mal encobrem uma moeda de ouro.

A última concepção artística da imagem da Rainha Santa é a do grande artista Teixeira Lopes. A luz da sua bela e alevantada imaginação, natural e simples, escutando a inspiração do povo e acalentando bem no âmago da sua profunda alma toda aquela singela intuição que dá vida ao bloco frio e significação ao mármore mudo, o escultor firmou e consagrou elevadamente uma das suas mais tocantes, perfeitas e imortais produções. Por certo Teixeira Lopes não criou, arrancando, num esforço espontâneo e repentino, num clarão / 454 / cintilante de imaginação, uma figura incógnita (não querendo nós dizer que a imaginação e mente do grande artista não sejam capazes de motivar numa poderosa originalidade conceptiva), do que era nada, tosco uniforme e inexpressivo, e agora é belo, sublime, olímpico e divinal…

Soube, porém, com extraordinária e inexcedível correcção de escopro, ressuscitar Isabel de Aragão, dar-lhe luminosa e soberana vida na plana dum pedestal, com suas vestes cheias de humana e natural compostura, suas mãos delicadas e em suave intenção, e principalmente na bondosa e humilde expressão do rosto, que tem vida e sentimento humano e não apavora nem intimida estranhamente como as faces de alguns santos, mas que tem por igual mística e ciliciada transcendência, porque é de Isabel de Aragão, da Rainha Santa Isabel.

É por isso que o povo, na sua eterna e acreditada sugestão, ao passar o andor da Rainha Santa, olhando as faces subtis da soberana, parece ter uma indecisão, aquele olhar e atitude atraem-no; e ele como que caminha, reverente e humilde, a solicitar auxilio, abrigo para a sua desdita, e esmola para a sua acrisolada indigência. E das mãos delicadas da Santa, capelas frescas, rosas brancas e vermelhas, rolam sempre, transmutadas e lendárias, perfumadas e viçosas para os pobres e humildes da terra de Portugal!

JOSÉ LOBO D'ÁVILA LIMA


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(1) – Sr. Dr. Garcia de Vasconcelos – Isabel de Aragão – pág. 498 e seguintes. Desta obra temos extraído grande soma de apontamentos históricos.
 

 

 

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