Dreyfus reabilitado

Após 12 anos de uma luta feroz, que chegou a interessar e mesmo a comover todo o mundo, fez-se finalmente justiça! Alfred Deyfrus, a pobre vítima do Estado Maior de 1804, encontra-se, enfim, reabilitado e de novo incluído nas fileiras do exército francês.

Como se previra, o Supremo Tribunal anulou a sentença que condenara Dreyfus, reconhecendo o que todo o mundo reconhecera já que ela fôra baseada em documentos falsos, e que o homem contra quem a haviam pronunciado era um inocente.

Ficou assim de vez e oficialmente destruída a cabala arquitectada e mantida há doze anos, recebendo ao mesmo tempo uma retumbante consagração a gloriosa campanha em que tantos altos espíritos se empenharam e à frente dos quais a História inscreverá em letras de oiro o nome de Zola! – o grande apóstolo que a morte, metendo-se estupidamente de permeio, não permitiu que visse o fruto da sua obra colossal de justiça, que corre parelhas com o brilho da sua obra literária.

 

Na Rússia

DEU-SE o que todo o mundo previra: a Duma foi dissolvida e imediatamente se revolucionou todo o império moscovita. Diz o ditado latino que Deus dementa os que quer perder. Com efeito, é preciso que os dirigentes da Rússia tenham complemente perdido a noção das coisas para que o seu sobretudo imprudente procedimento encontre uma certa justificação. / 167 / Todo o mundo o previra, dissemos nós e é a verdade, que uma vez dissolvida a Duma, o povo se revoltaria. Para a minoria intelectual e política, aquela caricatura de parlamento representava pouco, mas representava alguma coisa: era urna concessão, ou antes, uma capitulação da autocracia; para o grosso do público, ignaro e miserável, absolutamente dominado pela religião, era uma dádiva de Deus que lhe fôra feita por intermédio do czar, mas que, por isso mesmo, este não podia depois tirar-lhe e sob pena de incorrer nas próprias iras divinas... e humanas.

LEALDADE MECÂNICA
 

Apesar de todas as precauções policiais, ainda há gente em Berlim que se deixa ficar sentado nos bancos de Unter den Linden quando passa o automóvel imperial. Pôs-se por fim termo a esta altitude pouco respeitosa. De futuro, sempre que a imperial máquina apareça no horizonte, o polícia de serviço prime um botão, e logo surge a desejada expressão de lealdade ao monarca, em consequência do movimento automático dos bancos. Vê-se que isto tem a vantagem excepcional de levantar os gestos festivos dos assistentes ao mais elevado acume de patriotismo.

A questão estava, portanto, posta com a maior clareza e simplicidade para toda a gente, e toda a gente supôs que também o estaria para o czar e os seus aulicos. Parece, porém, que não era assim, visto o que acaba de se passar.

Entre a evolução, mais ou menos agitada pela legitima impaciência dos espoliados durante séculos, e a revolução a ferro e fogo, o czar preferiu esta última em que arrisca o seu trono e a própria vida. Pois lá a tem. Não está, por ora, organizada de forma a poder levar de vencida, de um momento para outro, o regime, porquanto os próprios revolucionários não contavam com este verdadeiro coup de théâtre. Mas lá chegará. Entretanto, é o vandalismo, a devastação cega e brutal, o morticínio, o saque, o incêndio, o caos. Dele certamente farão os russos uma pátria nova, como do outro fez Deus o mundo. 

Os direitos da mulher

ACABA de constituir-se em França um grupo parlamentar para a defesa dos direitos da mulher, de que fazem parte algumas individualidades mais notáveis da política francesa, corno Chaumié, Viviani, Siegfried, Chéron, Cruppi, etc. O programa traçado consiste no de todas as questões relativas às reivindicações femininas, sob o ponto de vista da educação, dos direitos políticos, da capacidade civil da mulher e da sua condição social.

O grupo tomará brevemente a iniciativa de dois projectos de lei, tendentes, o primeiro a impedir o rompimento dos contratos de trabalho durante os dois meses que procedem o termo presumível da gravidez e o que segue ao parto; e o segundo a abrogar o artigo 340 do Código Civil e a instituir a investigação da paternidade. Este movimento é de prever que se reproduza pelo mundo civilizado, abalado pelas reivindicações do feminismo.  / 168 /

As reformas inglesas

HÁ muito tempo que a Inglaterra reconhece a necessidade de reorganisar o seu exército, não tendo, todavia, ainda tomado a resolução de o fazer, em virtude de várias circunstâncias de bastante monta, entre as quais avulta a do carácter e dos costumes ingleses serem inconciliáveis com a organização dos exércitos modernos. Parece, porém, que alguma coisa se vai fazer agora nesse sentido, porquanto o actual ministro da guerra, Sr. Haldane, anunciou há dias que se propõe apresentar brevemente ao parlamento um largo projecto de reformas militares.

Segundo ele, o exército sofre uma redução de 20.000 homens, o que, todavia, segundo o Conselho superior de guerra inglês, permitirá ao governo britânico mobilizar, em caso de guerra, forças mais numerosas do que antigamente. Ficará assim constituído um corpo expedicionário de 150.000 homens, compreendendo 50.000 nas fileiras. 70.000 reservistas e 30.000 das milícias.

O resultado desta reforma será elevar de 50 por cento a força de combate da artilharia de campanha, realizando-se ao mesmo tempo uma economia de 15 milhões de francos. Quanto aos voluntários passarão a servir nas fortalezas navais, formando uma segunda reserva. A cavalaria é que fica tal qual está. 

Comunismo em acção

NA livre Inglaterra acabam de realizar-se duas interessantes experiências de comunismo prático. A primeira foi em Manchester, onde um pequeno grupo de operários sem trabalho se apoderou de uma parcela de terreno pertencente à abadia, passando a cultivá-lo por conta própria.

Encorajados com este exemplo, os sem-trabalho de Londres resolveram segui-lo. Um belo dia, catorze desses infelizes, empunhando instrumentos do trabalho agrícola, apareceram junto de um terreno que a municipalidade de West Ham possui cerca de Plaistow e, destruindo a respectiva vedação, penetraram nele e lançaram-se a cultivá-lo, depois de construírem algumas tendas para se abrigarem durante a noite.

O mais curioso do caso é que o grupo é dirigido por um próprio conselheiro municipal, Mac Cunning, que fez a um jornalista as seguintes declarações:

«Fui eu quem organizou esta expedição e tomo disso toda a responsabilidade. Pediu-se ao Conselho Municipal que desse o terreno aos sem trabalho. Como recusasse, resolvemos apoderar-nos dele. E cá estamos.

Esperamos que muitos outros camaradas venham juntar-se a nós, de maneira que, dentro em pouco veremos uns 200. Além disso, tencionamos apoderar-nos de um outro terreno, que custou ao Conselho Municipal 2.500 libras, visto que na Sociedade de socorros de West Ham estão inscritos 4.000 operários sem trabalho e é preciso socorrê-los. Entretanto, até que possamos colher o fruto do nosso trabalho, iremos vivendo da caridade pública.»

 

 

 

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