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ENTRE as três escolas de medicina do país, a do Porto é a mais
frequentada. Desde 1892 até hoje formou 502 médicos, o que
representa a média anual de 38. Actualmente estão matriculados 209
alunos, dos quais destacaremos duas senhoras. E como não é larga a
lista de senhoras formadas em medicina pelas escolas do reino, aqui
deixamos em homenagem o nome daquelas que se formaram no Porto: D.
Amélia de Morais Sarmento, D. Guilhermina de Morais Sarmento, D.
Laurinda de Morais Sarmento, D. Maria Pais Moreira, D. Maria
Genoveva de Jesus e Silva, D. Maria Prata e D. Guilhermina Prata.
A quem pretendesse estudar ou conhecer em minudências de erudição e
estatística a história do ensino médico no Porto, nós indicaríamos o
Relatório apresentado ao Conselho Superior de Instrução Pública,
na sessão de 1 de Outubro de 1895, pelo Sr. Dr. Ricardo Jorge. É
trabalho subidamente notável, em que o próprio homem de letras
haverá de deleitar-se, nas graças e nos fulgores do estilista.
RESENHA HISTÓRICA
«A história do ensino médico no Porto é bastante obscura – conta um
jornal portuense. – É de crer que os hospitais, que em tão larga
escala existiam pela cidade, fossem outras tantas escolas, onde se
habilitassem práticas de escassa demonstração e suficiência, a quem
documentos oficiais dão constantemente a designação de idiotas. No
hospital de D. Lopo, situado na rua das Flores, antecessor do
grandioso hospital da Misericórdia, as mais remotas notícias
relativamente ao aprendizado da cirurgia referem-se ao meado do
século XVl. Um assento da mesa da Misericórdia, datado de 1641,
denuncia que fora mandado repreender o cirurgião António SucarelIo,
por encarregar os praticantes da execução dos curativos dos feridos.
Para se obter a carta de cirurgião, reclamava-se que o candidato
possuísse a língua latina e houvesse frequentado por quatro anos os
hospitais da terra em que vivesse, ou na falta deste seguisse pelo
mesmo tempo a clínica de um cirurgião. Em seguida procedia-se a um
exame perante o cirurgião-mor do mesmo, ou / 57 / um delegado
acompanhado por dois cirurgiões. Estas disposições vigoraram até ao
fim do século XVIII, em que as atribuições do cirurgião-mor passaram
para a junta do proto medicato, de efémera duração.
Pelos anos de 1749, criava-se a academia médica e cirúrgica do
Porto, pelas diligências de Manuel Gomes de Lima, a quem se haviam
associado os doutores Manuel Freire da Paz e Pedro Brow, médicos da
Relação e do hospital, P. Brow, médico honorário da Relação e da
Feitoria lnglesa, Pantaleão da Costa Lima e António Pereira Cortez.
Aí se realizou em 1760 uma sessão solene de congratulação pelo
aniversário de D. José, em que vários académicos fizeram doutas
conferências, e em que, para reunir o útil ao agradável, se
executaram trechos de música.
A esta reunião assistiram as pessoas de maior distinção que residiam
na cidade. Sessões análogas se realizaram nos anos seguintes. No de
1762, depois de uma sessão inaugural, executou-se uma serenata de
música divina em coros, composta por ordem da academia. O côro a
cada momento soltava este estribilho:
Viva, viva la suprema
Sempre augusta majestá
As matrículas regulares foram permitidas e autorizadas pela mesa da
Misericórdia desde 1793. A frequência foi, nesse ano, de 32 alunos.
O professor era um notável operador, José Caetano da Cunha, que
ensinou no hospital de D. Lopo, e foi seguido pelo Dr. Isidoro
Ferreira Machado, que inaugurou as suas lições no Hospital Novo ou
Hospital Real de Santo António.
O curso de cirurgia durava quatro anos, sendo o primeiro consagrado
ao estudo da anatomia, o segundo ao da fisiologia, e os dois
restantes ao da clínica cirúrgica e operações. A instrução, porém,
era deficientíssima, o material de ensino nulo, e nos exames finais
haviam-se introduzido abusos intoleráveis. Tudo isto reclamava
providências, e, por instâncias de alguns homens dedicados aos
progressos dos estudos cirúrgicos, e nomeadamente pelas diligências
de Teodoro Ferreira de Aguiar, cirurgião-mor do reino, e amigo
particular de D. João VI, apresentava e referendava o ministro José
Joaquim de Almeida Araújo / 58 / Correia de Lacerda o alvará de 25 de
Junho de 1825, que criou as Reais Escolas de cirurgia de Lisboa e
Porto.
Os primeiros professores na nova escola foram os seguintes: Bernardo
Pereira da Fonseca Campeão, delegado do cirurgião-mor do reino,
director e lente do 5.º ano, durante o qual se ensinava a patologia
interna e a clínica médica; Vicente José de Carvalho,
ex-demonstrador de anatomia no hospital de S. José de Lisboa, lente
do 1.º, durante o qual se ensinava a anatomia e a fisiologia;
Francisco Pedro de Viterbo, lente do 2.º, em que se ensinava matéria
médica, farmácia e higiene; António José de Sousa, que era cirurgião
e mestre de anatomia e fora cirurgião militar de S. Bento, lente do
3.º, em que se ensinava patologia externa, terapêutica e química
orgânica; Joaquim Inácio Valente, antigo cirurgião do exército,
lente do 4.º, consagrado ao estudo de medicina operatória e
obstétrica.
Como substitutos foram nomeados: Bernardo Joaquim Pinto, do 1.º e
4.º anos; Francisco de Assis Sousa Vaz, do 3.º; e Alexandre de Sousa
Pinto, do 2.º e 5.º A abertura solene da escola realizou-se a 25 de
Novembro de 1826, e as aulas começaram em 2 de Dezembro.
O decreto de 29 de Dezembro de 1836 ampliou e igualou o quadro das
Escolas de Lisboa e Porto, ficando as cadeiras distribuídas pela
forma seguinte, em virtude da resolução do Conselho Escolar: 1.º
ano, anatomia: Bernardo Joaquim Pinto; 2.º ano, fisiologia e
higiene, Dr. José Pereira Reis; 3.º ano, matéria médica e farmácia,
Francisco Pedro de Viterbo; patologia e clínica externas, António
Ferreira Braga; clínica cirúrgica, António José de Sousa; 4.º ano,
aparelhos e operações cirúrgicas e cirurgia forense, Vicente José de
Carvalho; partos, moléstias das mulheres de parto e de recém-nascidos, pelo mesmo, interinamente, e clínica cirúrgica; 5.º ano,
História médica, patologia e terapêutica internas, Francisco de
Assis Sousa Vaz; clínica médica, higiene pública e medicina legal,
pelo mesmo, interinamente, e clínica cirúrgica.
Por carta de lei de 26 de Maio de 1836 foram criadas na escola
médico-cirúrgica do Porto mais duas cadeiras: anatomia patológica,
medicina legal e higiene pública.
Os primeiros professores destas cadeiras foram: da 1.ª o Dr. José
Alves Correia de Barros, e da 2.ª o Dr. José Frutuoso Aires de
Gouveia Osório. / 59 /

/ 60 / Por carta de lei de 10 de Abril de 1875 foi instituída a
cadeira de patologia geral, tendo por primeiro professor o Dr.
Ilídio Aires Pereira do Vale. Em 1900 foi desdobrada a cadeira de
higiene e medicina legal; o primeiro professor de higiene foi o Sr.
Dr. João Lopes da Silva Martins Júnior, e o de medicina legal o Sr.
Dr. Maximiano Augusto de Oliveira Lemos. Finalmente em 1903 foram
criadas novas cadeiras: anatomia topográfica e histologia, sendo
nomeado professor da primeira o Sr. Dr. Carlos Alberto de Lima e da
segunda o Sr. Dr. José Alfredo Mendes de Magalhães».

COMO A INICIATIVA PARTICULAR AUXILIA O ENSINO MÉDICO
A Escola médico-cirúrgica tem sido contemplada ultimamente com
importantes legados, que, se mostram por um lado a consideração que
merece ao público pelos serviços que presta, por outro, concorrem
poderosamente para o desenvolvimento da instrução médica. São eles:
os legados Barão de Castelo de Paiva e Macedo Pinto, destinados a
prémios escolares: o legado Assis, destinado à sustentação de um
pensionista em cada curso, à criação de bolsas para o
aperfeiçoamento em Paris e Montpellier de médicos recém-formados, e
ainda ao custeio de viagens científicas pelos professores; e o
legado Nobre, para a sustentação de doze alunos, médicos ou não, em
toda a duração do seu curso, revertendo o remanescente do rendimento
em favor da escola, para ser empregado em benefício do seu ensino.
Além destes legados, os amigos do malogrado professor Manuel
Rodrigues da Silva Pinto fizeram dotação àquele estabelecimento duma
inscrição de um conto de reis para um prémio na cadeira de higiene e
medicina legal.
RIQUEZAS DA ESCOLA
Modernamente a Escola Médica do Porto tem prosperado muito num
impulso de aperfeiçoamento digno de louvor incondicional. Entre o
material de estudo que enriquece os laboratórios, merece especial
registo o das secções de química médica, bacteriologia e histologia
normal, que representa um alto desenvolvimento de processos de
investigação experimental. A escola possui vinte excelentes
microscópios dos melhores autores e um magnífico aparelho de
projeção da casa Zeiss.
A sua biblioteca comporta 20.000 volumes, que foram ultimamente
catalogados pelo secretário interino da Escola, o distintíssimo
professor Alfredo de Magalhães. E é notável e por certo única a
secção de obras de medicina portuguesa dos séculos XV, XVI, XVII e
XVIII, organizada muito sabiamente para essa biblioteca pelo
falecido professor José Carlos Lopes.
Compreende-se o valor dessa secção, onde estão incluídas algumas
centenas de livros de grande interesse bibliográfico e histórico.
LENTES E ALUNOS
Seria interessante contar, a propósito desta Escola, onde, como é
natural em meios académicos, tantos temperamentos diversos passaram,
um ou outro caso anedótico, que ainda é um modo de / 61 / traçar
muitas vezes a silhueta moral de um homem, a síntese de um carácter
ou a aresta mais curiosa de um espírito.
E aí haveria de tudo, à
escolha, desde aqueles feitios bonacheironamente bondosos até à
rigidez, um pouco dogmática e imperturbavelmente dura, daqueles
lentes clássicos, que se diria descerem sempre do Olimpo, de
palestrar com Júpiter. Aqui far-se-ia um volume de histórias
hilariantes, de lusa-chalaça entre licenciosa e faceta, de lentes e
alunos. O Dr. José Pereira dos Reis seria um grande colaborador
desse livro de riso se coligissem os ditos e as partidas desse morto
ilustre.
Em toda a parte é assim, quando há espírito e mocidade. É certo que
as mais das figuras perdem-se sem relevo, mas fica de muitos ainda
um destaque fulgido, pela ironia, pelo saber, pela bondade ou pelo
génio.
Vem a talho de foice duas historietas de professores falecidos,
grandes ambos pelo talento e pela bondade. E não são estas duas
coisas conciliadas que marcam a verdadeira superioridade do homem?
A BONDADE DE JÚLIO DINIS
Uma é de Gomes Coelho, o admirável Júlio Dinis da nossa literatura.
Imaginem que um homem já velho o procurava para lhe pedir a «valiosa
proteção» no exame de farmácia. Contara-lhe ele infortúnios da sua
vida, a real desgraça que lhe podia trazer uma reprovação, o quadro
da família numerosa, uma miséria dramática.
– «Vá descansado!» – disse-lhe, comovido, o lente poeta. «Hei-de
fazer quanto puder, creia!»
Mas o bom velho, que dispunha apenas de uns conhecimentos práticos,
começou a estender-se dum modo incalculável. Júlio Dinis, que ainda
não tinha interrogado, estava aflito, inquieto.
Aquela fronte larga e melancólica do grande novelista engelhava-se
de aflição. Pobre velho! Como salvá-lo? E cada vez o pobre homem se
comprometia mais.
Júlio Dinis empalidecia...
Coube-lhe a vez de o interrogar. Mas o que havia Gomes Coelho de
perguntar-lhe? Cada vez seria mais grave e mais dolorosa a situação.
Pobre velho! Perguntar-lhe o quê?
De repente, Júlio Dinis tem uma ideia, que lhe traz um sorriso... A
fronte desenruga-se-lhe:
– Olhe: conte-nos a sua vida!
Esgazeado, o velho fitou-o. Não percebia bem. / 62 /
– Conte, conte a sua vida!
Animado, o homem fez com singeleza e verdade a narrativa dolorosa da
sua existência. Isso sabia ele contar, e tinha a eloquência da dor!
O júri escutava-o, visivelmente interessado. Júlio Dinis sorria como
se visse dissipar-se na sua grande alma, tocada por um vento
abençoado, uma nuvem pesada...
Fitou carinhosamente os colegas com o olhar meigo e triste.
Sim, estavam satisfeitos. Já tinha dado a hora. O pobre homem
passara, nemine discrepante…

UM LENTE COZINHEIRO
Numa madrugada clara de Agosto atravessava o professor Pimenta o
campo de Santo Ovídio a passo miúdo e rápido. À altura do quartel de
infantaria 18, encontrou-se com um estudante de medicina a quem
votava uma estima especial. Cumprimentaram-se os dois. Conversando e
rindo muito intimamente, seguiram até ao monte da Lapa. Separaram-se
aí. Combinaram, porém, encontrar-se novamente naquele mesmo ponto.
No regresso, como o aluno se cansasse de o esperar, e soubesse do
seu paradeiro, resolveu ir procurá-lo. Subiu a rua tortuosa e
estreita até um alto, onde poisava, isolado, um pobre casinholo.
Empurrou a porta, e entrou.
Como as casas das ilhas, esta nada tinha de especial. Um
corredor; ao lado, um quarto escuro; ao fundo uma casinha estreita.
No quarto, deitada num catre, jazia uma velha, em cujo rosto se lia
a angústia do sofrimento; na cozinha, o professor Pimenta, em mangas
de camisa, o farto bigode matizado de carumas brancas, fazia ferver
uma panela abanando ao lume. Como o estudante quedasse surpreso, o
cirurgião explicou que se demorara a operar a enferma, procedendo à
paracentese abdominal; depois como a sentisse enfraquecidíssima,
saíra a comprar carne; e como ela não tinha ninguém, a pobre de
Cristo, estava-lhe arranjando uma sustanciazinha...
Quando saíram, como o estudante, comovido, elogiasse aquele
procedimento altruísta, e na sua admiração consagrasse a lendária
bondade do Mestre, o professor Pimenta, atalhando-o, retorquiu
singelamente, com um gesto rápido para lhe impor silêncio:
– Eis, meu amigo, uma coisa, que todos os médicos devem fazer, mas
que nunca devem contar.»
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