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A
Escultura em Portugal
O ILUSTRE professor e meu amigo Albrecht Haupt, autor
alemão do precioso livro A arquitectura da Renascença em Portugal,
foi talvez limitado demais nas palavras que em sua tão meritória obra
consagrou à importância da plástica, segundo ele superficial e
passageira, na história da nossa arte. A mim, com o respeito devido a
tão benemérito e insigne mestre, pelo contrário me parece que a
escultura é a expressão de arte que em Portugal descreve a mais completa
e característica linha de evolução ininterrupta, desde os primeiros
monumentos arquitectónicos coevos da fundação da nacionalidade até
nossos dias.
A pintura somente nos aparece constituída no século XV
sob a influência dos grandes mestres flamengos, atinge o apogeu da
perfeição no século XVI, decai profundamente com os italianizados do
século XVII e do século XVIII, e entra com tão inferiores condições de
concorrência na produção artística do século XIX que Raczinski, num
rasgo de sinceridade, perante os métodos de ensino da Academia de Belas
Artes de Lisboa e em presença dos documentos pictóricos da decoração do
Paço da Ajuda, se vê obrigado a dizer-nos em consternador resumo:
Deixem-se de pintar, que, por mil circunstâncias, não é este o momento
oportuno para tratarem disso; conservem, se lhes apraz, os professores
que existem, mas não os substituam nem nomeiem outros durante muito
tempo; fechem as aulas de pintura e utilizem a Academia convertendo-a
numa simples escola de desenho.
A obra dos escultores, não sei bem por que razão muito
mais desatendida / 2 / da crítica e da historiografia do que a obra dos
pintores, nunca passou por análogos desfalecimentos e desandas.
Estudar as razões deste fenómeno seria de grande proveito
para a pedagogia artística.
Esse estudo viria talvez demonstrar que a educação dos
escultores é intrinsecamente mais perfeita que a de todos os demais
artistas. Pela imperativa e inevitável subordinação da sua obra aos
conjuntos arquitecturais dos edifícios, das ruas ou das praças a que ela
se destina, bem como às condições e aos aspectos da natureza que
envolvem esses determinados conjuntos, o escultor contrai
espontaneamente, pelo simples exercício da sua arte, um superior
sentimento de ponderação, de unidade e de equilíbrio, indispensável à
estabilidade estética de todo o produto artístico. Além disso o ensino
técnico dos escultores, impondo-lhes a necessidade do esforço muscular,
é iminentemente educativo. Os escultores têm de ser submissamente,
obrigatoriamente, operários. Para verdadeiramente serem, de sua arte,
escultores, eles serão indispensavelmente, de seu oficio, canteiros,
fundidores, cinzeladores, barristas ou entalhadores, – perfeição
adaptativa, alicerce de toda a educação raciocinada. Em aulas estudantes
teoricamente estudam. Só em oficinas e em laboratórios aprendizes
praticamente aprendem. O chamado professor é um aparelho
didáctico, muitas vezes luxuoso, sempre insuficiente; só o mestre,
de que o trabalho comum faz o companheiro e o amigo, é o completo e
perfeito agente de ensino artístico.
A escultura portuguesa manifesta-se nos séculos XI, XII e
XIII, ocupando diligentemente os espaços que a arquitectura lhe concede:
os tímpanos dos arcos como em S. Cristóvão de Rio Mau, em S. Cristóvão
de Coimbra e em Cedofeita do Porto, as sumptuosas arquivoltas das
portadas como em Vilar de Frades e em Bravães, as pias baptismais, os
túmulos ainda que tão rudimentarmente concebidos como o de Egas Moniz em
Paço de Sousa, e finalmente as gárgulas, os modilhões das cornijas e os
variadíssimos capiteis historiados de todas as nossas igrejas românicas.
No século XIV, com o advento do estilo gótico, sob a alta
influência mental do grande semeador de civilização que foi o rei D.
Diniz, além de lavrador letrado, poeta e artista, a escultura assume os
mais inesperados e consideráveis desenvolvimentos.
Alimentado no estudo da natureza, que, substituindo a
ornamentação geométrica, pela ornamentação floral por todos os pilares e
por todos os frisos faz vivamente trepidar a alegria das flores e das
folhagens, o baixo e alto-relevo vegetaliza-se, desabrocha, expande-se,
conquista sobre a arquitectura novos e vitoriosos domínios. São deste
período, um dos mais gloriosos para a arte portuguesa, os encantadores
capitéis do claustro de Celas, em torno dos quais com tão cândido e
comovido sorriso desliza toda uma história da Virgem, da Paixão de Jesus
e da vida de alguns santos. Com esta linda obra se relaciona, na mesma
época e em idêntico estilo, a dos túmulos de D. Rodrigo Sanches no
claustro do convento de Grijó, talvez o mais / 4 / antigo da série, da
Rainha Santa Isabel, em Santa Clara a velha de Coimbra, de Fernão Gomes
de Góis em Oliveira do Conde, bem como várias placas, quadrilongas, em
alabastro, com resto de antiga douradura, uniformes de dimensão, de
estilo, de técnica, representando assuntos idênticos aos dos capitéis de
Celas, placas hoje dispersas no Museu do Carmo, no das Janelas Verdes,
no do Instituto de Coimbra, e na Ilha da Madeira em posse da família
Ornelas. São provavelmente pequenas peças desconjuntas de um retábulo de
altar ou de um púlpito octógono no tipo dos italianos de Pila e de
Siena. Pertencem ainda a este ciclo, – últimos anos do século XIII,
primeira metade do século XIV – as estátuas jacentes de alguns mausoléus
como na Sé Velha de Coimbra, na Sé de Lisboa, nas igrejas de Alcobaça,
de Odivelas, e no Museu do Carmo.
O século XVI é para a escultura como para todas as formas
de arte, o ciclo áureo da nossa cultura artística, Toda uma plêiade de
incomparáveis artistas levantam os nossos monumentais edifícios nesse
estilo pomposo e simbolístico da nossa primeira renascença, que
Sansovino considerava uma especialidade regional do talento português, e
a que mais tarde se chamou o estilo manuelino.
Boytaca, João e Diogo de Castilho, João de Ruão, Nicolau
Chatranez, Jacques Longuin, Tomé Velho, Mateus Fernandes, os Frias, os
Arrudas, trabalham sucessivamente em Belém, na Batalha, em Coimbra, em
Sintra, em Évora, em Santarém, fazendo desabrochar da pedra portuguesa
tão preciosas flores de escultura corno as duas portas dos Jerónimos, a
portada setentrional da Sé Velha de Coimbra, o portal da igreja e a
janela da sala do capítulo no Convento de Cristo em Tomar, o admirável
frontal do altar-mor da Sé de Braga, os baixos-relevos do claustro do
Silêncio em Santa Cruz, os retábulos de S. Marcos e de S. Tomás, em
Coimbra, da Guarda e da Varziela, e os túmulos incomparáveis de Santa
Cruz, de S. João de Alporão, da vila de Góis, da Trofa, perto de Águeda,
e em S. Marcos de Coimbra, onde o Panteão dos Silvas, pelo seu
incomparável conjunto, constitui o mais delicado espécimen da plástica
da renascença em Portugal.
Chamar, como alguns querem, estrangeira a obra de
Boytoca, de João de Ruão, dos Castilhos, de mestre Nicolau Francês é, a
meu ver, um singular erro de classificação. Nunca a nacionalidade
artística se deduziu geograficamente no lugar do globo em que os
artistas nasceram, mas sim daquele em que o seu génio se inspirou e em
que a sua obra se produziu. Ninguém já hoje ignora que na arte Flamenga,
na arte de Veneza e na arte de Roma raros foram os artistas indígenas
que lhe deram o imortal esplendor que regionalmente as caracteriza.
A ourivesaria, que tecnicamente não é mais nem é menos do
que a escultura aplicada aos metais preciosos, / 6 / acompanhou sempre a
evolução portuguesa da arquitectura, da escultura e da pintura. São tão
belas como as dos nossos arquitectos do século XVI as obras dos nossos
ourives do mesmo tempo.
Assim como os iluministas, com relação aos pintores, os
ourives, paralelamente com os escultores, documentam gloriosamente a
história da sensibilidade estética, do poder imaginativo e da aptidão
artística da nossa raça. Rivalizar com os mais belos trabalhos de
cinzeladores do tempo, em Espanha na Itália, em França, na Bélgica e na
Alemanha, muitos dos cálices góticos que ainda hoje se conservam em
algumas das nossas igrejas, a custódia chamada de Gil Vicente no tesouro
da coroa, e os incomparáveis gomes, pratos e bacias de água às mãos da
preciosa colecção de S. M. El-Rei.
No século XVII, de tão rutilante brilho na história das
letras e da música nacional, a desnudez arquitectónica posta em moda
pela influência austera e simplista de Terzi e de Torralva, agradava
ainda pela estreiteza estética dos jesuítas, afasta por um tempo a
escultura monumental do seu domínio lapidar, mas em compensação a
escultura em madeira e em barro assume no decorrer desta centúria a mais
considerável importância. Entalham-se os mais elegantes retábulos ao
gosto clássico de Vitrúvio e de Vinhola, no estilo da Renascença
italiana e flamenga. Enchem-se os coros conventuais, as capelas-mores e
as sacristias de numerosas igrejas com as mais sumptuosas decorações de
talha dourada, e – como dizem os espanhóis – estofada, em colorido
policrómico, intenso, alegremente claro. As colunas dos pórticos
neo-greco-romanos, torcem-se em espiral e circundam-se de folhagens
ascendentes, de hera e de vinha em fruto, envolvendo os entablamentos,
as arquivoltas e as cornijas, enlaçando risonhos grupos de aves, de
anjos e de querubins. Estas pomposas molduras não somente engrinaldam o
nicho do altar, mas desenvolvem-se ainda acessoriamente, encaixilhando
sucessivos encasamentos povoados por outros baixos-relevos, igualmente
policrómicos, representando trechos bíblicos, cenas do presépio do
menino Deus ou da vida dos seus santos. E esta feição de plástica é das
mais caracteristicamente expressivas da sensibilidade, da fantasia e do
talento português.
Com as obras de madeira seiscentistas propagam-se com
igual intensidade nesta época as obras de barro. Seria talvez Filipe
Edouard, o escultor francês mandado vir por D. Manuel para fazer o
grande apostolado do refeitório / 7 / de Santa Cruz quem implantou o
gosto pela escultura em barro, tão preponderante em Portugal, durante
todo o decurso dos séculos XVII e XVIl. Aos barristas seiscentistas do
mosteiro de Alcobaça se devem numerosas obras sumamente expressivas e da
mais enérgica individualidade, retábulos e bustos relicários, de que
ainda lá existem bastantes restos em lastimável abandono. Não esqueçamos
ainda que foi durante o século XVII que um imaginador português, Manuel
Pereira, o qual Palomino designa por nobre português e insigne
escultor, quem fez a linda estátua policrómica de Santo António dos
Portugueses, em Madrid, assim como a de S. Bruno da Cartuja deI Paular,
talvez as duas de S. Domingos de Benfica, que o Bispo Conde D. Francisco
de S. Luís lhe atribui na sua Lista de alguns artistas portugueses,
e muitas outras disseminadas em Espanha, onde Manuel Pereira trabalhou
no tempo de Filipe III e de Filipe IV, com notoriedade singular, a par
dos grandes escultores espanhóis contemporâneos, Montañez, Alonso Cano,
José de Mora e Pedro de Mena.
Considera-se ainda trabalho português, de escultor cujo
nome infelizmente ignoro, o do cadeirado do coro da catedral de Tui,
representando episódios da vida de S. Telmo.
Da escultura portuguesa do século XVIl é Mafra o mais
copioso e considerável depósito. Sabe-se que foi um italiano, Alexandre
Giusti, o mestre estatuário do edifício, quem principalmente trabalhou
com artistas romanos nas estátuas do vestíbulo, de valor desigual, e nos
belos retábulos da basílica.
Mas da magnífica escola Giusti saíram e colaboraram com
ele notáveis escultores portugueses, como Machado de Castro, Manuel
Dias, António Ferreira, José Joaquim Leitão e outros mencionados por
Cyrilo, que trabalharam nos baixos-relevos da estátua equestre de
Machado, e com ele cooperaram nos lindos presépios do tempo, pela maior
parte desfeitos mas de que restam figurinhas deliciosas, a que bem
podemos chamar as Tanagras de Portugal. Exemplos no Museu das
Janelas Verdes, na igreja da Estrela, na da Madre de Deus, e na Sé.
Exemplar precioso e menos conhecido, o presépio de
Machado de Castro na casa dos condes de Sobral, em Almeirim.
Não é justo que, tratando-se da plástica portuguesa do
século XVIII, se deixe de mencionar a escultura em granito desse
admirável santuário de ar livre que se chama o Bom Jesus do Monte, e
cuja bela e monumental escadaria, entre jardins, como na mais sumptuosa
das vilas em Tivoli ou em Frascati, só tem o defeito de lhe haverem
posto o monstruoso nome de escadório. Os grupos policrómicos, em barro,
representando / 8 / sucessivos passos da Paixão no interior das capelas,
são indubitavelmente abomináveis, e ainda mais afrontosos e flagelantes
para a arte que para Jesus no caminho do Calvário. Mas a obra em pedra,
fontes e estátuas ao ar livre, docemente amaciadas agora pela patina do
tempo, são de agradável harmonia com a paisagem e os arvoredos que as
rodeiam.
Os numerosos cruzeiros e pelourinhos dispersos por toda a
terra portuguesa são ainda outros tantos documentos da colectiva
intenção plástica do nosso povo.
Finalmente a euritmia, a graça, a esbelteza de todo o
vasilhame nacional – a bilha de Coimbra, o pote de Loulé, a pucarinha de
Prado, o moringue de Estremoz – as tão variadas improvisações da olaria
popular atestam bem que a gente portuguesa possui em subido grau, se não
uma tradição de cânones académicos aplicados à arte de esculpir, um
considerável poder de visão plástica e uma característica aptidão
espontânea para fazer palpitar em expressivas formas materiais a sua
especial maneira de sentir e de interpretar a vida.
Não podemos portanto dizer, ao deparar-se-nos no século
XIX tão admiráveis escultores como foi Soares dos Reis, como é Teixeira
Lopes, que na sua raça não existisse a poderosa seiva artística de que
eles desabrocharam,
RAMALHO ORTIGÃO
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