David Paiva Martins, Fragmentos de Vida. A Minha Terra. 1ª ed., Aradas, ACAD (Associação Cultural de Aradas), 2005, 170 pp.

Fonte dos Cruzinhos

Era uma fonte particular, da Quinta da Medela, situada nos Cruzinhos, à beira do caminho que parte das traseiras da Capela de S. João e se dirige para sudoeste, até à estrada nacional. A fonte já não existe. O caminho foi invadido pelas silvas e tem estado intransitável nestes últimos anos. A Junta de Freguesia vai agora recuperá-lo e transformá-lo em rua asfaltada, para criar mais uma saída alternativa da parte norte de Verdemilho para a estrada nacional.

XXXI

Contemos agora a história que está associada à antiga Fonte dos Cruzinhos. Tempos houve, séculos atrás, que o mar chegava até aos vales que circundam Verdemilho. Nos Cruzinhos havia dunas de areia, uma das quais, devido ao seu formato e grande tamanho, o povo designava de lomba. Foi no cimo dessa lomba que, segundo a lenda, apareceu numa bela manhã uma imagem de Nossa Senhora. Não conhecendo a imagem, não sabendo de onde veio, nem como veio, o povo atribuiu o seu aparecimento a um milagre. Construiu-se no local uma ermida para a albergar. Atendendo ao lugar onde foi encontrada, deu-se à imagem o nome de Nossa Senhora da Lomba.

Nossa Senhora da Lomba passou a ser o oráculo de Verdemilho. A rua que levava à sua ermida (actual Rua de S. João) passou a chamar-se Rua da Senhora. Escreveu o Major Lebre: "A primeira visita pastoral a esta ermida, teve lugar a 24 de Setembro de 1758, realizada pelo Desembargador Francisco da Cunha Sampaio, anotando a necessidade de serem adquiridos novos paramentos" e "a 22 de Junho de 1790, / 59 / por provisão do 1º Bispo de Aveiro, D. António Freire Gameiro de Sousa, foi visitador o Desembargador da Mesa Eclesiástica, Doutor José Pedro Santiago. Depois de visita à Igreja Paroquial, vem à Capela da Senhora da Lomba e refere a necessidade de a consertar e pôr telhado novo. O bom e crente povo de Verdemilho, sempre zeloso, em vez de fazer remendos, resolve alargá-la, dando-lhe melhor perspectiva arquitectónica, cinzelando no arco-cruzeiro da capela-mor, a data já registada"(2). A data a que se refere o Major Lebre(3) é o ano de 1636, que, efectivamente, se encontra inscrito no arco da capela-mor da actual Capela de S. João. Não sei se essa data corresponde à construção da ermida original ou à sua transformação em capela, de cujo alargamento, no final do Século XVIII, como atrás se referiu, resultou a Capela de S. João que hoje conhecemos. Não vou aqui aprofundar o assunto, que não é o objectivo deste trabalho. Deixo-o à consideração de quem quiser fazer a historia dessa capela. Outra coisa interessante a averiguar nessa oportunidade seria definir quando e porque é que a invocação da capela passou de Nossa Senhora da Lomba para S. João. Segundo António Lebre (4), nas anotações da visita feita pelo Desembargador José Joaquim de Azevedo Neves, por delegação do 10 Bispo de Aveiro, em 15 de Dezembro de 1796, a referência já é feita ao S. João de Verdemilho. Porém, numa relação sem data dos bens afectos ao culto existentes na freguesia, arquivada num conjunto de documentos relativos à aplicação da Lei de Separação da Igreja e do Estado, datados de 1912, que encontrei no Arquivo Histórico Municipal de Aveiro (5), a capela é ainda denominada de Nossa Senhora da Lomba. A relação diz textualmente: "Capela de Nossa Senhora da Lomba, confrontando: N com a rua da Senhora S com quintal dos herdeiros de José Gonçalves Sarrico e E com a rua da Senhora e O com terreno público". Isto quer dizer que era ainda conhecida pelo seu nome original no início deste século. A contradição entre esta informação e a contida no livro do Major Lebre é evidente. Assunto, portanto, a esclarecer. / 60 /

Segundo a opinião do historiador de arte A. Nogueira Gonçalves, citada por Amónio Lebre(6), a imagem de Nossa Senhora da Lomba, que ainda existe, é uma escultura de castanho e outras madeiras, do Século XV.

 

 
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