David Paiva Martins, Fragmentos de Vida. A Minha Terra. 1ª ed., Aradas, ACAD (Associação Cultural de Aradas), 2005, 170 pp.

Fonte do Baixeiro

XXVIII

Para contar a história da fonte que existiu no Baixeiro, no Bonsucesso, antes das actuais, vou dar a palavra ao meu Amigo Sr. José Ratola, que, embora residindo há muitos anos na Quinta do Picado, é natural do Bonsucesso. Contou-me ele: "A fonte situava-se na ladeira do Baixeiro. A sua água nunca criou fama. Mas a própria fonte e o terreno onde estava localizada tinham uma lenda.

Esse bocado de terra fazia parte duma quinta, que ia do limite da Quinta do Picado, no Vale da Azenha, até uns 50 metros da Capela do Bonsucesso. A quinta era propriedade da família Sachetti, de Aveiro, e foi comprada há mais de cem anos por dois irmãos do Bonsucesso: Francisco e José Coelho. Este último era o meu avô materno. Ora, aquela terra ficou para o meu avô, que de imediato começou trabalhos de limpeza, a fim de a pôr em condições de ser cultivada. Entre as remoções a fazer, havia umas pedras enormes, que, pela sua disposição, mostravam nitidamente que se tratava duma capela, em cujo chão interior havia sepulturas, também emparedadas em pedras, embora mais pequenas. A capela velha - como lhe chamava o meu avô.

Com essas pedras, o meu avô construiu um muro de suporte das terras, junto à ladeira do Baixeiro. Talvez ainda existam as fundações desse muro e, por conseguinte, algumas dessas pedras. Foi nesse muro que o meu avô construiu a fonte de que estamos a falar, com a água a correr / 55 / para o exterior, para assim beneficiar os moradores vizinhos. Havia, porém, a lenda duma moura encantada naquela capela. Por isso, a lenda passou para a fonte, cuja água algumas pessoas se recusavam a utilizar, com medo de represálias da moura má. A lenda dizia que, quem ousasse mexer naquelas pedras, seria castigado.

O meu avô Zé, talvez porque nunca lá encontrou vestígios, nem do castelo nem do tesouro dos mouros, nunca ligou grande importância à lenda. Também é verdade que nunca sofreu o castigo de ter violado a privacidade da moura encantada!... Mas já o meu pai, que veio a herdar essa terra, não queria que nenhum dos filhos ali construísse casa. " com medo de alguma represália tardia.

Há anos, o caudal da fonte começou a diminuir. A Junta de Freguesia, da presidência do falecido João Nunes da Rocha, ainda procurou recuperá-la, mas ela acabou por se extinguir naturalmente. Hoje, está lá um pequeno bairro de moradias. Que eu saiba, ninguém encontrou lá nem tesouro nem castigo da moura encantada..."

 

 
Página anterior Página inicial Página seguinte