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N.º 20

Publicação Semestral da Junta Distrital de Aveiro

Dezembro de 1975 

Presença de

Mário Sacramento

Por Idalécio Cação

«O futuro por que luto é tão longínquo! Viverei para ele sempre, com a mesma efusão e a mesma tenacidade, pois sem isso seria cadáver em vida»

in Diário (pág. 137-138)

 

Nunca será demais falar de Mário Sacramento e pouco entre nós dele se tem falado. E mesmo esse pouco – e é-o por isso mesmo – tem-no sido por uma forma saudosista, mitificante quase, que ofende gravemente a imagem que dele se pretende perpetuar. Ele, que sempre combateu o provincianismo em todas as suas formas, recebe hoje, por ironia do destino – no evocar-se-lhe a memória, no trazê-lo até nós – a vingança dessa instituição menor do nosso espírito. Pelo menos por aqui, nos reinos de Aveiro e adjacências, relembra-se Mário Sacramento com a lágrima quase ao canto do olho, emocionalmente, provincianamente, como se, cumprido o seu decesso físico, nada mais restasse desta figura exemplar. Homem de multímodos interesses, ele constitui, em qualquer dos casos, fonte de ensinamento, símbolo de resistência que urge apontar a uma geração que desponta agora para as grandes lutas do futuro do homem em Portugal. Futuro que não estava assim tão longínquo como, em causa de momentâneo desespero talvez, Mário Sacramento confessava no seu «Diário», em 3-11-1967. Isto, se entendermos que o futuro por que ele se batia era a queda do fascismo entre nós, que aconteceria passados apenas seis anos e meio depois deste desabafo.

Fala-se de Mário Sacramento como do homem que escrevia aos domingos e nas pausas da sua profissão de médico, do cidadão que sofreu na carne e no espírito os amargores das prisões fascistas. Necessário se torna, no entanto, dizer-se que a sua luta pelo futuro era isso mesmo: todos os seus factos de escrever, todas as suas acções como pedagogo ideológico visceralmente oposto ao estatuto político que nos amordaçava. Daí, a vigilância estrénua que os seus escritos impunham aos censores e as medidas preventivas ou de repressão que os «condottieri» do tempo não hesitavam impor-lhe à mínima suspeita. Mesmo depois de morto, Mário Sacramento continuou a representar um perigo real para o decrépito Estado Novo. Relembre-se, a este propósito, todos os argumentos que as autoridades municipais de então invocaram para negarem ao ensaísta de «Fernando Pessoa, poeta da hora absurda» o direito a ter relembrado o seu nome numa placa toponímica da urbe aveirense. Recusa que, ao cabo e ao resto, serviu melhor a sua memória.

Hoje derrubado o regime fascista, nem por isso a luta de Mário Sacramento teria ficado por aí. Ela teria continuado «com a mesma efusão e a mesma tenacidade de sempre, pois sem isso seria cadáver em vida». Agora, que ele está presente apenas na nossa lembrança, estas palavras despertam-nos para novas formas de luta, que seriam as dele, ou seja, a consolidação daquele evento histórico. Estas palavras despertam-nos e advertem-nos de que não devemos parar um só momento na erradicação completa do fascismo, sob pena de trairmos as nossas próprias convicções. Nós, os que estamos vivos, não podemos cadaverizar-nos nesta condição e teremos de lançar-nos, pelo contrário, o repto que a si mesmo dirigira o autor dos «Ensaios de Domingo». Aquelas palavras serão as nossas e funcionarão como látego à nossa comodidade, se não nos impusermos a mesma luta, sempre, na consecução do futuro que, hoje, apesar de tudo, não estará assim tão distante como parecia estar para Mário Sacramento em fins de 1967.

Tomemos as suas palavras como nossas, assimilemo-las na prática diária, para melhor lembrarmos o seu autor e prosseguirmos, de braço dado com ele, na sua luta, dignificando, assim, a memória do cidadão e do intelectual comprometido com o futuro. Será esta a melhor forma de falarmos de Mário Sacramento, de mantê-lo bem vivo e presente entre nós.

 

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