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N.º 13

Publicação Semestral da Junta Distrital de Aveiro

Junho de 1972 

Pinho Leal no Solar do Côvo

 

O prestigioso nome do discutido historiador Pinho Leal ficará para sempre ligado a Oliveira de Azeméis.

Para aqui veio, em momento difícil da sua atribulada existência, e aqui viveu, durante alguns anos, exercendo a função de administrador da Casa do Côvo.

Mas acerca da autêntica odisseia de Pinho Leal, deixemo-nos guiar por um estudo do saudoso padre Pereira da Costa, que foi abade de Vila Chã de S. Roque, freguesia a que pertence o Solar do Côvo; aqui fica, também, a nossa modesta homenagem à memória do estudioso sacerdote, cuja vida a sinistra morte ceifou prematuramente.

Estava-se em 1860. O cargo de administrador da Casa do Côvo – antigo, rico e nobre morgadio do concelho de Oliveira de Azeméis – estava vago. Ali, sim, nada faltaria; o dinheiro abundava e eram vastas as possibilidades de percorrer grande parte do país: o conde do Côvo possuía prazos de norte a sul e necessário se tornaria receber foros, fiscalizar caseiros, elaborar novos contratos, sanar pleitos, etc., etc.

Cargo invejável para Augusto Soares de Azevedo Barbosa de Pinho Leal, que não desistira da ideia arreigada: escrever um dicionário histórico e geográfico de Portugal.

Um seu grande amigo, que parece ter sido José António Gomes Leite Rebelo, 1.º visconde de Santa Maria de Arrifana, gozava da particular amizade do conde do Côvo, D. Sebastião Maria de Castro e Lemos Magalhães e Meneses. Pinho Leal expõe a pretensão e o visconde de Arrifana logo a apadrinha. Contudo, era preciso descobrir um pretexto para ir ao Côvo e apresentar o candidato a administrador.

Também aqui não houve qualquer dificuldade. Um grande calígrafo como Pinho Leal, homem para imitar qualquer escrita, seria bem capaz de resolver o problema, E, se bem o pensou, melhor o fez... Com incrível perfeição redige uma carta endereçada ao visconde de Arrifana convidando-o para assistir à festa do aniversário natalício do conde do Côvo.

No dia aprazado chega o «pseudo-convidado» ao Côvo e pede licença para apresentar Pinho Leal a D. Sebastião de Castro e Lemos. Depois de trocados os cumprimentos da praxe o visconde começa a agradecer o honroso convite e a felicitar o aniversariante. O senhor do Côvo mostra a maior estranheza, pois nem fazia anos nem tinha dirigido qualquer convite. O amigo de Arrifana exibe o convite e o visitado fica boquiaberto. Na verdade, aquela letra era a sua. Mas não fazendo anos, só num momento de alienação mental poderia ter escrito tal carta!

No entanto, o amigo e o companheiro não poderiam ir embora sem jantar. E foi durante o repasto que o visconde desvendou toda aquela confusão e explicou a necessidade do estratagema. A princípio, D. Sebastião mostrou-se deveras irritado e recusou-se a aceitar Pinho Leal como seu administrador. Que perigoso – argumentava, aliás com muita lógica – não seria confiar os negócios a um homem capaz de imitar tão bem a sua caligrafia, e até a assinatura?

O Visconde, todavia, consegue convencer o amigo, e Pinho Leal fica desde logo administrador da casa do Côvo, cargo que viria a ocupar durante seis anos, até 1866.

A princípio tudo corria bem, e Pinho Leal cedo passou a merecer a confiança do seu senhor. Mas, passados tempos, o conde do Côvo verificou que o administrador se dedicava com bem maior entusiasmo à recolha de elementos para o seu trabalho do que à gerência dos bens e prazos que se estendiam por dois terços do país. E teve que o despedir.

Mas Pinho Leal levava consigo o material que lhe permitiria dar realidade ao sonho há tanto tempo acalentado. E quando morreu, em 1884, publicara já dez volumes do notável trabalho a que deu o nome de «Portugal antigo e moderno».

Poucas obras haverá que tenham sido mais violentamente criticadas do que esta de Pinho Leal. Mas se atendermos às condições de trabalho do seu autor, às dificuldades da época, e ao que, efectivamente, ela tem de útil, não poderemos deixar de concordar com Marques Gomes, que a classificou como «um valioso auxílio, guia inseparável e livro de subido valor».

 

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