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A FLOR MÁGICA
NUM rico jardim, embelezado das mais
raras e das mais belas flores, havia uma que diziam ser mágica. À
hora em que o sol se apresentasse mais radioso é que essa linda flor
tomava aspectos fantásticos e deslumbrantes. Ninguém sabia a quem
pertencia tão maravilhoso jardim, todos ignoravam quem cultivava tão
delgadas plantas.
Perto dali havia um homem que tinha
dois filhos. Um, adorava-o como se ele fosse um anjo; o outro, que
era o mais velho, aborrecia-o tanto, que afirmava que nem que a
morte o levasse se apoquentaria.
Ninguém podia compreender a sua
lastimável maneira de pensar, pois o filho que ele detestava, o
Manuel, era o rapaz mais bondoso que se podia encontrar, embora
fosse o rapaz mais feio que se podia descobrir.
Talvez fosse por isso que o pai o não
podia ver com bons olhos. Mandava-lhe fazer os trabalhos mais
grosseiros e não o deixava descansar nem uma hora por dia.
Uma ocasião, que Manuel andava a roçar
mato, principiou a chorar por não poder suportar mais semelhante
trabalho, pois o pai tinha-lhe imposto a tarefa de roçar um enorme
monte todo coberto de mato, tojos e carquejas. E o sangue já lhe
vertia das pernas, como a água duma fonte.
Com a voz entrecortada de soluços
monologou:
– Agora que já não sou criança, já
conheço que meu pai me aborrece e adora o meu irmão. Mas nem por
isso quero mal a nenhum dos dois. Nem todos podemos cair em graça,
neste mundo. A sorte é para uns e para outros a dor. Paciência.
Mal acabara de pronunciar estas
palavras quando, em frente, se lhe deparou uma flor igual à do
jardim misterioso. Tão maravilhosa aparição deixou o rapaz atónito.
– No meio do mato uma flor tão bela!
E a rosa, tomando o aspecto duma linda
cara de mulher:
– Pois é assim mesmo que é o teu
coração. Tens vivido e crescido só no mato; mudaste de cor e de
feições, mas o teu coração não mudou de beleza – disse a flor. / 520
/
Em seguida, na boca da mulher apareceu
um frasco.
– Aqui tens um bálsamo. Toma-o. Com
ele curarás todas as arranhaduras dos braços e pernas. Depois vai
para casa sempre risonho, porque será assim que hás-de torturar o
teu pai, amargamente.
Manuel, cheio de assombro, perguntou:
– Mas quem vos dá tamanho poder e quem sois vós?
– Não o podes saber agora. Mais tarde
o saberás. Cala-te, porque se perguntas duas vezes quem sou, ficarás
mudo.
Manuel não prestou atenção a isto e
não queria mais saber quem era, limitando-se a agradecer-lhe o
bálsamo ofertado e que tantas dores lhe tirava.
E lá foi Manuel para casa depois de
carregar um grande carro de mato que parecia uma pirâmide do Egipto.
E a bela flor partiu para o seu
jardim.
Ao chegar a casa, notou o pai que
Manuel vinha muito alegre e jovial.
Ficou azabumbado com o caso e não se
pôde calar:
– Ah! Se tu trabalhasses bem, não
vinhas tão tagarela e tão risonho! Deixa estar que já vou ver ao
monte se todo o mato está roçado.
– Não vá tão longe, meu pai! Vá ao
quintelho e veja a carrada que lá está. O pai assim fez. Viu o carro
e ficou estupefacto diante da colossal altura do mato. Veio para
casa e, em vez de se mostrar contente, observou ao filho:
– Se vias que tanto era, para que
tanto roçaste? Deixasses ficar algum no monte. Como se vê, nunca
dava galardão ao filho, nem mesmo quando a consciência lhe
protestava contra tanta maldade. Manuel com tudo se mostrava
satisfeito.
– Pois bem, meu pai, para a outra vez
lhe farei a vontade. Agora tenha paciência.
O pai começou agora a notar que o
filho tinha as mãos alvas como a neve ao luar e não lhe viu a menor
arranhadura nas mãos, o que o atormentou deveras.
– Ó rapaz, tu parece que mandaste os
servos roçar o mato e que te entretiveste a caçar grilos. Não tens
mãos de quem pegou na roçadeira.
– Pois, meu pai, não sei como isso
possa ser. Bem vê que nenhum dos servos foi comigo e quem roçou todo
o mato fui eu e só eu.
Palavras não eram ditas, quando entrou
pela porta dentro Luís com uma porção de gaiolas com grilos,
enfiadas num pau. Mas vinha tristonho, aborrecido, queixando-se de
dores nas mãos.
O pai abeirou-se logo dele,
contristado:
– Que tens, meu filho, que tens? Vens
com as mãos todas ensanguentadas. Que te aconteceu?
– Foram umas silvas que assim me
arranharam.
– Valha-me Deus! / 521 /
E voltando-se para Manuel, em tom
desabrido:
– Vá já buscar água e vinagre para seu
irmão. Lave-lhe já as mãos. Não vê o estado dele, seu palerma?
E Manuel, sempre filho submisso, lá
foi buscar o que o pai lhe ordenou. Mas, condoído intimamente do seu
irmão, em vez de botar na tigela água e vinagre, deitou-lhe do
bálsamo que a flor lhe tinha dado.
Luís gostava muito do irmão e quando
acabou de lhe lavar as mãos, abraçou-o:
– Ah, meu querido irmão! As tuas mãos
parecem dum santo! Que alivio tu me deste! Parece que as silvas eram
venenosas e eu já não podia suportar tamanhas dores!
O pai ouviu o que Luís dissera ao
irmão e redarguiu:
– Ora ele não é santo, nem santa. O
que te fez bem foi a água e vinagre, meu filho! O que tu tiveste
devia ele tê-lo para saber as dores que tu sofreste. Mas ele é um
figurão que até parece que tem pele de sapo. Foi ao monte roçar mato
e nem sequer uma beliscadela traz nas mãos; pelo contrário, olhando
para elas, parece que calçou sempre luvas.
*
Ao outro dia o pai pensou na tarefa
que havia de impor ao filho.
– Hoje, Manuel, hás-de quebrar toda a
pedra daquela pedreira. Quero vendê-la para com esse dinheiro mandar
o teu irmão tentar fortuna em terra estranha. É a única parte que
posso vender da nossa herdade e por isso posso já em vida doar-lha.
Manuel, sem uma palavra de
contrariedade, sem a menor contracção do rosto, mas antes muito
prazenteiro, muito jubiloso, lá se dirigiu à pedreira.
O pai ficou subjugado pela sua
obediência, mas logo o assaltou a irritação de ele o não contrariar
nas suas ordens, para ter o pretexto de lhe dar uma forte sova.
Quando Manuel chegou perto da
montanha, lá divisou a flor iluminando toda a pedreira com o seu
brilho estranho.
– Viva a mais bela das flores – saudou
Manuel.
– Viva o mais formoso dos corações –
respondeu a flor. A tua obediência encanta-me. Espero que terás o
mais belo prémio que pode haver.
Manuel ficou admirado infinitamente
com o que a flor lhe disse.
– Bem! Começa o teu trabalho e não te
apoquentes, que hoje, ao fim da tarde, toda a pedreira estará
derrubada e toda a pedra quebrada.
Assim foi. Ao cair da tarde, Manuel
chegava a casa com uma carrada espantosa de pedra, atingindo uma
altura extraordinária.
Apenas o pai viu o carro, assustou-se
e disse-lhe:
– Ó rapaz! Isto parece a Torre de
Babel! Agora aonde hei de eu meter tanta pedra?
– Não se aflija, meu pai; maior é o
património de meu irmão. E a pedra vende-se aí mesmo do carro.
O pai teve a repentina impressão de
que o filho era mágico, mas logo ponderou: – Não, não; não me
cheiras a mágico! E ficou-se...
Vendeu o homem a pedra, e o filho
querido, o seu Luís, lá foi para terras / SERÕES N.º 12 - FOL. 6 / /
522 / estranhas, onde conquistou uma fortuna colossal. Mas tão má
estrela guiava o pai que o rico filho o votou ao maior esquecimento.
Notava Manuel que o pai chorava todos
os dias e isso afligia-o; mas impossível era conseguir arrancar-lhe
uma palavra que explicasse as suas tristezas.
Manuel, sempre carinhoso, sempre bom
filho, trabalhava sempre, velando pelo pai, a quem amparava com
profundo amor.
Decorreu muito tempo e Manuel
amargurava-se por não poder valer a seu pai, restituindo lhe a
antiga alegria. Passava dias e noites com o coração triste como a
própria noite. Chorava e quando as suas lágrimas lhe banhavam o
rosto, num desses dias mais lúgubres, apareceu-lhe a flor.
– É com esta a terceira vez que te
apareço e é sempre nas tuas maiores aflições. Que desejas de mim? –
disse a flor.
– Ah! bendita flor! Se tu pudesses dar
consolação a meu pobre pai!…
– Pois sim, darei alegria ao teu pai.
– Bem hajas, flor amada. Se pudesses
dar arrependimento ao meu irmão, para que se lembrasse de quem nunca
o esqueceu...
– Serás atendido. O teu irmão não tem
tido descanso, um momento sequer, mas agora terá um grande remorso,
seguido dum arrependimento sincero.
– Abençoada sejas, flor bem amada.
– Para ti soou a hora do teu prémio.
Teu pai chora mais de arrependido do
que te fez, do que do esquecimento a que o lançou teu irmão. A tua
generosa alma, cheia de candura, vai ser recompensada e o teu
formoso coração vai ter o seu prémio. Aparece junto à porta do
jardim onde eu vivo. E uma vez ali, não receies coisa alguma do que
vires. Mostra-te sempre corajoso e obediente.
A flor transformou-se imediatamente
numa serpente:
– Segue-me – disse-lhe ela.
E Manuel seguiu-a.
Quando chegaram ao jardim, a porta
abriu-se, de par em par. A serpente entrou.
Manuel, cheio de pavor, hesitava em
segui-la. Por fim resolveu cumprir o que ela lhe havia dito.
O jardim fechou-se novamente. A
serpente chegou ao pé duma roseira e enroscou-se, dizendo a Manuel:
– Agora deves matar-me e irás derramar
o meu sangue junto daquela grande palmeira. / 523 /
Manuel não sentia forças para matar a
serpente, à qual o prendia um afecto inexplicável, mas, obedecendo
às suas determinações, matou-a.
Aproveitou o sangue que pôde e foi
lançá-lo ao pé da palmeira indicada.
E de repente a palmeira transformou-se
num majestoso palácio.
Manuel, como louco de alegria, correu
para junto da roseira, para ver se lhe aparecia a mesma flor, que o
animasse a olhar para tanta surpresa que o deslumbrava. Lá estava
ela com todo o seu esplendor.
– Desenrosca-me essa serpente morta do
meu tronco – disse-lhe ela. Manuel assim fez. E logo caiu desmaiado
ao ver junto de si a mulher mais formosa do mundo, que era uma
princesa a quem ele corajosamente quebrara o encanto.
A princesa, inclinando-se, beijou o
rosto pálido do seu salvador. E Manuel, ao calor daquele beijo,
despertou do seu êxtasis, num deslumbramento, e seguiram, mãos nas
mãos, para o palácio.
Noivaram. No dia esponsalício houve
festas maravilhosas, e toda a gente dos povos vizinhos acorreu a
assistir às brilhantes iluminações do jardim edénico, estrelado de
flores variegadas, e as musicas, os hinos e os cantares formavam um
conjunto delicioso.
Para o seu palácio chamou o pai, que
viveu uma feliz velhice, enquanto o irmão morria, ao longe, na
miséria e torturado pelo remorso da sua ingratidão.
Maio – 1906.
MARIA PINTO FIGUEIRINHAS
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