oi numa tarde pelo estio.

António, o sapiente e beato António, que trocara de bom amor o seu lindo nome de Fernando e o luzido traje de sua casa ilustre, um, por quatro sílabas anónimas e humildes, outro, pela samarra deselegante e austera da ordem, escolhera naquele dia a hora vespertina e o campo, para no silêncio desse instante deserto cismar e compreender melhor os mistérios da vida.

Não era aquele moço que a fantasia dos namorados idealizou, de linda boca sensual e anelados de ouro sobre a fronte; era um homenzinho vulgar, obêso, ligeiramente curvado, humilde como um mendigo, cujo rosto adiposo e inexpressivo mal deixava adivinhar as torrentes de bondade e sapiência em que jazia mergulhada a sua alma grave e formosíssima.

Nada mais simples que o seu vulto entre as coisas simples da campina... Não era mais pacífico um ramo de oliveira sobre um muro, nem mais amorável e tranquilo o aroma dos valados.

Cismava no mistério da morte e na justiça divina, e escurecia-lhe a vasta fronte aquela nuvem singular que acusa o pensamento que trabalha, perscrutador e atento.

Eis que ali perto, à beira do atalho florido de espinhosas, uma pequenina carriça, implume quase, caída numa teia, a piar, num aflitivo bater de asas, veio perturbar o transcendente curso em que nesse momento gravitava a ideia ousada do franciscano António.

A pequenina ave, cada vez mais presa na teia espessa de uma enorme carangueja, debatia-se angustiada clamando por socorro, chamando os pais talvez, que andavam longe. E António, curvando-se mais, de braços estendidos, precipitou-se, como se um vento de piedade o impelisse, para a inocente vida ameaçada, completamente esquecido do seu tema transcendente e todo entregue ao gozo de libertar um cativo.

A aranha, como uma pitonisa fascinadora, esperava imóvel que as malhas da sua rede acabassem de paralisar a ave: – o seu jantar.

António, ao vê-la de perto, não pôde conter um movimento de repulsão.

Era na realidade horrendo o fantástico animal, com o seu enorme papo listrado de negro e ouro, lembrando uma armadura, com os seus olhos ovais de uma fixidez insuportável e as suas longas pernas, como estiletes curvados, em forma de garra.

«Se o seu tamanho fosse proporcional à sua fealdade – pensou António –, seria esta vivente criatura a Besta do Apocalipse. Seria o monstro dos monstros, que, ao vê-la, iriam ocultar-se tremendo no mais profundo das cavernas».

Ergueu por fim a vista para a ave, agora quieta, presa de todo pela teia, e comparou aquelas duas formas de ser: uma, pareceu-lhe adorável, meiga, harmoniosa; a outra, apenas repelente... e, num gesto lento, grave, que parecia derramar justiça, ergueu o braço e libertou a asa.

Descia já a pequena escarpa esboroante, quando de entre as moitas ouviu uma voz irónica dizer-lhe:

– Que fizeste, frade?

António, surpreendido, voltou-se lentamente, sempre com a ave aconchegada ao peito, e ergueu os olhos. Ao alto, por entre uma / 456 / aberta de carquejas, emergia uma cabeça desgrenhada, cujo rosto parecia vir de séculos, torcido num sorriso de escárnio. António estremeceu, como se houvesse visto uma outra espécie de aranha.

– Que fizeste, frade? – repetiu a aparição.

– Libertei um cativo. tornou António.

– Frade, o orgulho dos homens cega-te, pois não vês que, libertando o cativo, condenaste um inocente. Baixa os olhos, abre-os bem, perscruta bem… que vês a teus pés?

António, calado e humilde, fitou a terra com interrogações no olhar.

– Considera, continuou o desgrenhado, que formidável destroço em tão exíguo espaço; e apontava a sombra do tojal, onde, suspensa dum só fio que resistira à catástrofe, a aranha, acocorada e encolhida, parecia medir toda a extensão da sua desgraça.

– Compreendes agora o que fizeste, supondo estar na prática de um acto justo? Essa admirável renda que há pouco viste, tão habilmente lançada entre caniços e agora desmantelada, valia tanto, tanto, como a cabana do pobre que o vento destruísse, inspirando-te uma lágrima de piedade e um gesto de socorro... E, torcendo mais a boca no seu sorriso eterno de pungente ironia, continuou: Vês esta aranha? É uma vítima da vida e da fome, e és tu, doutor da Igreja, que a sacrificas, tu, que não te lembraste que nunca te esqueces de jantar. Compreendes? Foste injusto, leviano... Persistes em que praticaste um acto de justiça?

– Como todos os que Deus inspira à piedade humana. disse António imperturbável, fitando a pequenina ave assustada.

– Enganas-te frade; não foi a justiça que te inspirou, porque a justiça... não existe sobre a terra. Se existisse e tu a compreendesses, nada tinhas que fazer entre essas duas criaturas; e apontava a aranha e a ave.

O único direito, se assim lhe queres chamar, que se impõe aos teus olhos, é o da força, e foi arrimado a ele que libertaste a ave, assim como a ave se tivesse força poderia fugir e, finalmente, como a aranha poderia devorar a presa se tu não aparecesses.

– A protecção de Deus não abandona os fracos. – disse António de olhos baixos.

– Assim, supões ter sido para a ave a protecção de Deus, porque, como viste, sem ti, ela teria sido fatalmente devorada.

Mas quem protege a aranha? Não será o mesmo Deus? Não será ela também uma vivente criatura na qual reside o mesmo mistério, o mesmo princípio divino que a faz viver?

– A aranha é venenosa; a ave é inofensiva. disse António comovido e com voz apagada.

– Mais uma vez te enganas, frade. Na vida não há venenos nem elixires, há defesas. O veneno é a defesa da aranha tal como a asa é a defesa da ave. A aranha, atacada, fere; a ave levanta o voo e foge. Qual é mais digna de piedade? – A aranha. Essa que aí vês está moribunda de fome... e de desgosto. Veio uma ave cair-lhe na teia, rompendo-a; aniquilando o delicadíssimo trabalho que mãos humanas não praticam e que com tanto cuidado foi construído. E essa ave voltava do pasto fácil para o ninho com o estômago cheio. / 457 /

Imprevidente, deixou-se cair na rede. Que havia de fazer a aranha, que esperava atenta que a piedade do acaso lhe enviasse o pão?

– Quem és tu? Balbuciou António, cujos olhos exprimiam confusão e espanto.

– Um homem! Respondeu o desgrenhado.

– E que fazes?  Em que te ocupas?

– No sofrimento.

– Que crime cometeste ?

– Amar e crer.

– E porque ris continuamente?

– Porque sofro.

– Vai-te! E que Deus te ilumine. Exclamou António, escondendo o rosto, como a ocultar uma luz que se fazia no seu espírito.

– Um momento ainda, disse o homem; não quero deixar o teu espírito confuso, é necessário que se faça nele a plena luz. Falta-me dizer-te a razão por que libertaste a ave… Diz-me, se visses uma aranha no bico dum pássaro. esforçavas-te por salvá-la? Tu nunca mentiste! Responde…

– Não. – Respondeu António simplesmente.

– Pois bem; a ave é linda, a aranha é horrenda; tu bem o notaste, e eis o que se passou: sacrificaste ao teu egoísmo a forma horrenda da aranha pela forma harmoniosa da ave! Sacrificaste o fraco que rasteja para libertar o fraco que voa, porque também gostavas de voar.

Não foste piedoso nem justo, foste egoísta! E, dizendo isto, como se a indignação de todas as vítimas, de todos os tristes deserdados lhe subisse aos olhos, rompeu num pranto vesânico de soluços trágicos, e, mordendo a própria carne, dela arrancou um pedaço, que arremessou, num gesto espargidor de sangue, à pobre aranha moribunda.

António, espavorido, recuou tapando os olhos. Quando os abriu, rodeava-o a mais silenciosa solidão; apenas pelo solo e nas folhas dos arbustos uns salpicos de sangue atestavam a verdade do sacrifício do Homem.

O franciscano, que, atónito, deixara escapar a carriça implume quase, que, sacudindo as penas, piava alegremente num ramo próximo, sentiu vergarem-se-lhe as pernas e quase de chofre caiu de joelhos exclamando:

– Senhor, se me querias iluminar, porque atribulaste e tanto confundiste a alma do teu servo? Porque me enviaste como mensageiro o espírito dum rebelado com clarões divinos? O que é Justiça, Senhor meu?

Sobre estas palavras, como por encanto, caiu a noite pesadamente, confundindo os maus com os bons, os fortes com os fracos, as aranhas com as aves!

Então, até alta noite, no silêncio, ali se ouviu António soluçar baixinho, misturando e confundindo com o murmúrio e águas das fontes os seus soluços e lágrimas.

Mal a madrugada rompeu, António viu um resplendor finíssimo de prata sobre a cabeça; parecia a estrela da manhã! – Era a teia da aranha, – que só contava inimigos na terra por ser feia, por não agradar aos olhos, – que resplandecia beijada por um raio de sol.

JOÃO GOUVEIA

 

 

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