O culto de Isabel de Aragão – A biografia virtuosa duma Santa – O antigo mosteiro de Santa Clara – Suas recordações históricas – Uma bela peça de arquitectura que se submerge. – O novo mosteiro – Trasladação dos restos da esposa de D. Diniz – O seu túmulo – A crença popular: milagres e superstições – Como se tem representado a figura sacra de Santa Isabel – A obra de Teixeira Lopes.

JÁ bem perto, nos primeiros dias de Julho, quando as várzeas e os campos parecem dolentemente adormecidos na plácida ardência, que lhes trazem os primeiros calores do estio, e toda a vegetação risonha das mil cambiantes da faustosa e terna paisagem das margens do Mondego patenteia, em múltipla reverberação metálica, a pródiga exuberância de sua seiva, a esposa do rei lavrador, a gloriosa Rainha Santa, como já se dizia em tempos recuados de Afonso V, tem a sua festa, cheia de unção popular e tocante aparato de crença.

É por certo um dos cultos mais sinceramente abraçados pela alma singela do povo e, em terras de Portugal, uma das tradições mais fervorosamente votadas, mais intimamente radicadas e mais suavemente tecidas de terna e mística essência, o de Isabel de Aragão. Assim devia ser. O espontâneo, brusco e vivo sentimentalismo da alma dos simples é como barro virgem em mãos de artista caprichoso; submisso, numa receptividade quase irresistente, obedece aos contornos e feições primeiras, às novas circunvoluções e delineamentos variados e múltiplos que lhe transmitem as mãos nervosas do artífice. A forte impressão do sobrenatural, o facto que alarma a consciência e faz crepitar viva a chama da imaginação cava semelhantemente sua mais profunda senda, toma vulto, logo predomina na inspiração e prática, numa mais intensa remodelação, recolhe tradições, / 444 / lendas e milagres na sua mais transcendente significação, e é desde já um culto, uma poderosa influência de mais alto que faz ajoelhar, curvar as mentes e bater nos peitos. Às vezes uma túnica esfarrapada, uma vida solitária e precariamente vegetariana, um repto de eloquência iluminada ou um gesto mais persuasivo e caloroso, fizeram um apóstolo, um mártir, um santo, tanto bastando para conquistar adeptos, invadir reverentemente o espírito sugestionado das turbas. E como quer que todos estes efeitos, como radicalmente filhos que são da natureza humana, têm muito de externamente patenteado e convincente, atraindo o olhar e por igual aliciando o sentimento o idealismo, as fórmulas ardentes da crença revestem tanto maior e mais vitalizado simbolismo, se apraz além no passado ir chumbar seus primeiros elos na ampla lápide dum acontecimento histórico, no túmulo e memória duma grande e poderosa figura, acaso o perfil modesto dum romeiro ou a irradiante e excelsa magnanimidade duma nobre, duma virtuosa testa ungida… A Rainha Santa pertence legitimamente a esta última categoria.

A ESPOSA DO REI LAVRADOR – SUA EXISTÊNCIA UMA IMAGEM DO SÉCULO XVI – UMA BIOGRAFIA AUTÊNTICA: «A LENDA DA RAINHA SANTA»

Há algumas bem contadas centenas de anos, por entre a clamorosa rudeza medieval, numa idade de espontâneo e fecundo sentimentalismo e de grandes e profundas excitações, quando a imaginação abrasada dos povos mergulhava bem intensamente na plena necessidade do sobrenatural, uma mulher de alma cândida e generosas intenções criou a sua obra de sugestivo e elevado misticismo. Viveu uma vida inteira de Bondade, Luz e Amor, esmolando, enxugando lágrimas, curando males e dores, numa prática incansável de sãos exemplos e superiores ensinamentos, despertando afectos puros por elos de concórdia, semeando o Bem, a Harmonia e a Fraternidade.

Realizou em si e no mundo aquele ideal de existência, pura e fértil, de sobrelevada essência e excelsas normas, distribuindo o perdão e o óbolo, – numa tarefa imensa de dedicação, trilhando com humildade aquela senda tortuosa e anormal / 445 / da vida, que os homens interpretam olhando o firmamento e chamam santidade. Ê singularmente verdadeira e justa, de entre as varias versões de que sobre a pessoa da Rainha Santa dá testemunho, a iconografia litúrgica, uma iluminura do século XIV, em que a esposa de D. Diniz nos aparece, revestida dum pobre habito de estamenha, em vez das vestes reais, cingido pelo cordão de esparto franciscano, na cabeça um véu de freira e coroa de espinhos, e na mão um crucifixo, com a divisa ao fundo: «Crux et spinea Domini mei sceptrum et corona mea».

Existe um livro simples, sinceramente recolhido da boca do povo, que é a mais patética, curiosa e primeira resenha e biografia da esposa do Rei D. Diniz: a «Lenda da Rainha Santa» que frei Brandão não esqueceu de inserir na «Monarchia Lusitana». Ali, bem pormenorizada e íntima, familiarmente narrada, a existência evangélica de Isabel de Aragão decorre ante o leitor, do nascimento / 446 / à morte, reproduzindo alegrias e tristezas, trabalhos e desgostos, dando testemunho franco de suas devoções, práticas de caridade e até virtudes domésticas, em linguagem chã e despretensiosa, com o sabor reverente de páginas amarelecidas e arcaicas. As virtudes excelsas da soberana, a sua dedicação, dotando donas e donzelas, provocando com lágrimas uma reconciliação, vestindo e alimentando a indigência, e até simulando ignorar culpas, criando e dando abrigo aos filhos naturais de D. Diniz, numa esplendorosa e recolhida magnanimidade de coração, ressaltam e comovem a cada pagina da «Lenda» e das narrações lavradas pela ingenuidade monástica em suas crónicas, biografias, hagiológios e devocionários.

Morto el-rei, a rainha renuncia mais terminantemente ao mundo, sem esquecer ressalvar algumas de suas justas prerrogativas.

Veste o hábito de lã e cinge-se com a corda nodosa das freiras de Santa Clara, vela sua cabeça com o pano de linho das noviças e, um ano passado sobre o passamento de D. Diniz, foi fixar sua residência nos Paços de Santa Clara. Tempos após, abalada já sua saúde pelos trabalhos, cilícios e declinar dos anos, a virtuosa esposa de D. Diniz, vítima do carbúnculo conforme a opinião erudita do Sr. Dr. Garcia de Vasconcelos no seu notável estudo «Isabel de Aragão», esmorecendo pouco a pouco e cerrando suavemente os olhos, balbuciando uma última prece, findou tranquilamente a sua existência terrena. Naquele momento a Rainha Santa iniciava uma segunda vida, gloriosa, perene, ternamente sobre-humana! / 447 /

O quadro original está em Colónia, sendo esta reprodução de outro que pertenceu a el-rei D. Luís e já foi publicado na obra «Rainhas de Portugal», de Benevides. É desenho de Columbano e gravura de Alberto. Inserto na obra do Dr. Garcia de Vasconcelos.


O VELHO MOSTEIRO DE SANTA CLARA – UMA PRECIOSIDADE E UM PROBLEMA DE ARQUITECTURA GÓTICA – O CLAUSTRO AMENO DAS FREIRAS CLARISTAS – ÁGUA DA FONTE DOS AMORES – RUÍNAS VENERANDAS

Galgada a ponte que então ligava as duas margens do Mondego, à esquerda, poucos passos entrados no chamado burgo de Santa Clara, deparava-se com o antigo e belo monumento da mesma invocação, a instituição de D. Mór Dias, que a Rainha Santa escolhera para manso recolhimento de sua viúvez.

Na planície fértil e bem regada, dentro dos limites duma ampla cerca rasgada ao poente pela portaria encimada por uma grande e florida rosácea, e por isso denominada porta da rosa, erguia-se o velho mosteiro, sumptuoso, severo mas elegante e bem destacado, rasgando os ares com a sua bem delineada contextura gótica, num perfeito acabamento de estria e gerais delineamentos. / 448 /

As naves da igreja ofereciam uma estranha particularidade, como observa um erudito; a central era mais larga ao fundo do coro do que junto da entrada da capela-mor, e as naves laterais ao contrário são mais estreitas no topo ocidental do que no de oriente: o caso constitui um verdadeiro problema arquitectónico.

As naves vinham terminar em abside, sendo as duas laterais bem mais pequenas que a central, e em cada uma delas, segundo a erudita referencia de Filipe Simões, «os capiteis das colunas são mais perfeitos que os outros da igreja. A abobada é muito elegante, à maneira de cúpula e artesoada.» Do lado norte um pórtico majestoso, tendo fronteira um alpendre hoje quase completamente destruído, dava entrada aos fiéis. Cruzes rematam a construção, a do oriente tendo gravado um escudo com as quinas em uma e outra face, e a do lado ocidental com quatro escudos, dois com as quinas de Portugal e dois com as barras de Aragão.

O templo, a que acabamos de fazer rápidas referências, oferece ainda a curiosidade arquitectónica de haver dentro dele outra igreja, pequena e inteiramente distinta da principal. Ao fundo, sobre a abobada e no coreto ficava, o túmulo da Rainha. O claustro principal do antigo mosteiro era de vasta e sumptuosa arquitectura, segundo o descreve a crónica de / 449 / Esperança, transcrita no notável estudo do Sr. Dr. Garcia de Vasconcelos. As arcadas que o cingiam, de primoroso lavor e rede de pedra, sustentavam abobadas, sobre as quais havia amplos terraços em toda a volta.

Ao centro espelhava o céu e a luz um grande e aprazível tanque, alimentado pelas águas de muitas fontes, e entre elas a dos Amores, da quinta do Pombal, hoje quinta das Lágrimas, e jorrando pela boca de variadas figuras, sendo a maior uma serpe mansamente enroscada no braço duma ninfa. Ainda para além ficava o refeitório e junto a ele uma casa formosíssima sobre colunas e arcos, onde as freiras vinham lavar suas mãos num curioso chafariz.

De toda esta sumptuosidade hoje apenas restam as paredes e abobadas do coro e igreja, tendo já desaparecido a própria abside central. O abandono a que se tem votado esta gloriosa peça arquitectónica constitui por certo uma das páginas menos honrosas da história da arte portuguesa.

Na sua constante obra de demolição, o Mondego soterrará um dia a ultima pedra do venerando edifício, e ter-se-á assim inteira e ingloriamente sepultado um dos mais curiosos e belos espécimes da arquitectura gótica em Portugal!    >>>
 

 

 

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