|

Instrumentos de música
Um eminente artista, glória de Portugal pela superioridade e
variedade dos seus talentos, compositor afamado, pintor insigne,
poeta inspirado, ainda logra dispensar parte da sua febril
actividade para uma obra verdadeiramente patriótica e meritória.
Alfredo Keil junta às suas multíplices aptidões a paixão, para
outros absorvente, do coleccionador. Assim as suas salas constituem
um valioso museu cuja visita ele amavelmente proporciona. Museu
variado, de arte e de arqueologia, onde se encontram jóias, leques,
louças, caixas de rapé, miniaturas, utensílios de toda a casta, que
passaram por aristocráticas mãos, que conservam a rescendência
estranha dos séculos idos.
Mas a parte seguramente mais completa é a que se refere a
instrumentos de música, e para a apresentar aos leitores escolheram
os SERÕES um cicerone de indiscutível competência e de
interessantíssimo discurso, o Sr. Ernesto Vieira, um dos mais
abalizados críticos e historiadores musicais da nossa terra.
Descrevendo vários instrumentos e dando a história anedótica de
alguns deles, o Sr. Vieira põe em relevo a benemérita tarefa
realizada através de mil estorvos por um grande artista português.
MUSEUS MAIS INTERESSANTES QUE BIBLIOTECAS
Assim como já passou o tempo em que a história política das nações
se aprendia decorando as datas do nascimento e morte de cada rei, os
nomes dos filhos que teve e das mulheres que desposou, também a
história da arte já não consiste em saber que Zeuxis pintava uvas
para os pardais bicarem, e que Pitágoras descobria teorias musicais
ouvindo martelar os ferreiros.
Fazer hoje a história de um país é estudar a vida do povo que o
habita; historiar uma arte é apresentar as obras que ela tem
produzido.
Compete esta última tarefa menos aos livros que aos museus. Por isso
eles se multiplicam a par das bibliotecas. Um museu é um arquivo de
história e os exemplares que ele contém são documentos autênticos
que nos atestam a vida da arte, mostrando-nos o seu desenvolvimento
progressivo, as suas épocas de florescência e de decadência,
dando-nos mesmo, em muitos casos, ideia da sua infância nos
exemplares de primitiva rudeza.
Ensino muito mais interessante que o dos livros, porque nos recreia
a vista ao mesmo tempo que nos esclarece o espírito e nos apresenta
o passado exactamente como ele existiu, fazendo-nos viver em alguns
momentos muitas centenas – e até milhares, de anos.
Não se pode dizer que o nosso país / 94 / seja absolutamente pobre
de museus, pelo menos de pequenos museus reunidos por
coleccionadores particulares, que até certo ponto suprem a
insuficiência do grande coleccionador oficial que deve ser o
governo.
Entretanto tem existido até aqui uma grande lacuna; uma arte tem
sido geralmente desprezada por todos os coleccionadores, grandes e
pequenos: a música.
Ninguém ainda se tinha dedicado a reunir número considerável de
instrumentos musicais com valor histórico ou arqueológico.
Injustiça flagrante e dos mais desastrosos efeitos. Busca-se por
todos os cantos, batem-se todas as povoações, entra-se em todas as
casas, paga-se por altos preços um quadro, um móvel, um cristal, uma
faiança, um relógio e até um insignificante bibelô, mas
ninguém procura nem mesmo aprecia quando se lhe depara um
instrumento de música.
«Não entendo disso», é o que geralmente dizem – por palavras ou por
pensamentos.
Fatal ignorância!
Quantos documentos irremediavelmente perdidos, que seriam preciosos
tanto para a etnografia como para a história da música em Portugal!
Quantas canseiras, e já agora quantas despesas, são e virão a ser
necessárias para adquirir objectos que nada custariam algumas
dezenas de anos atrás!
UM EMINENTE ARTISTA, COLECCIONADOR EMÉRITO
Alfredo Keil é o primeiro – cabe-lhe essa glória a par de tantas
outras – é incontestavelmente o primeiro que reúne uma numerosa
colecção de instrumentos musicais de todas as espécies. E essa
colecção, única entre nós, é já de tal ordem que desperta cobiças a
um grande museu especial e organizado de longa data: o do
Conservatório de Bruxelas, na sua especialidade um dos mais ricos da
Europa, o qual lhe propõe trocas e lhe pede descrições, na falta de
exemplares.
«Não se pescam porém trutas a bragas enxutas» diz o povo na sua
sabedoria.
Alfredo Keil tem trabalhado e feito tais sacrifícios pelo seu museu,
que ninguém os poderá nunca avaliar e ninguém decerto lhos
recompensará jamais.
Apesar dos triunfos que alguns desses sacrifícios lhe têm valido,
apesar das íntimas alegrias que as surpresas do acaso lhe têm
proporcionado, não poucas sensaborias vêm a cada passo amargurar-lhe
o prazer da conquista feita à custa de renhidas lutas.
UMA RESTAURAÇÃO DESTRUIDORA
Este caso por exemplo: um dia viu um objecto servindo de encosto a
uma porta, objecto que a sua vista perspicaz e sempre alerta lhe
revelou como sendo um instrumento musical qualquer; comprou-o ao
dono que o não considerava coisa de algum valor, levou-o para casa,
examinou-o, confrontou-o com livros e estampas, concluindo que
estava senhor de um fagottino, espécie de antigo pequeno
fagote, hoje só conhecido nos museus. Encontrou-o porém arruinado:
chaves partidas, guarnições oxidadas, caruncho / 95 / e podridão a
desfazerem-no; uma restauração inteligente poderia dar-lhe boa
aparência sem lhe tirar a venerável vetustez, encanto dos
arqueólogos e testemunho da autenticidade. Inculcaram-lhe músico
hábil em recomposições de instrumentos. Entregou-lhe Keil o seu
precioso achado, que ele queria ver limpinho mas tal como foi feito
e como funcionava no seu tempo, pois está claro que só assim é que
tais objectos têm todo o valor arqueológico.
Sucede porém, que ao cabo de dois anos de diligências, esgotada a
paciência a ponto de pedir o auxílio da polícia, o pobre Keil recebe
o fagottino lindo e lustroso, coberto de tinta e
verniz, aumentado no tamanho e com chaves que ele nunca tinha tido!
Um velho casquilho de chinó e bigodes pintados! Agora, disse o
restaurador de fagotes, dá melhor a escala. – Uma escala de
impropérios até ao sobreagudíssimo, lhe descarregou indignado
Alfredo Keil, que ainda hoje chora lágrimas de desespero quando vê o
venerando instrumento vestido de janota. E às lágrimas do desolado
coleccionador corresponderá o riso dos visitantes perante aquele
hilariante exemplar de restaurações desastradas.
A HISTÓRIA VIVA DO PIANO
Felizmente que a sorte lhe tem sido mais propícia com outras
restaurações. Assim os clavicórdios, os cravos, as espinetas, a
preciosíssima virginal de Hans Rucker (1620), os pianos que nos
mostram todas as fases por que este instrumento tem passado desde o
seu nascimento, vêem-se ali em estado de funcionar, com os seus
maquinismos renovados mas não alterados. É a história viva do piano,
sob uma forma bem mais instrutiva e atraente do que tudo que possa
ler-se nos livros.
Podemos ali ouvir os sons tenuíssimos do clavicórdio e da espineta,
cuja doçura encantadora nos enleva; sentiremos as volatas
saltitantes do cravo de penas, que nos fazem compreender a razão dos
quebros e requebros tão usados pelos mestres cravistas. Podemos
também avaliar as diligências empregadas pelos fabricantes para
produzirem instrumentos col piano e col forte, vindo,
de esforço em esforço, a cair no estrondoso piano-forte, tão
diverso do suave clavicórdio.
Ao agrado dos sons correspondia muitas vezes o prazer da vista, como
nos mostram não só a virginal de Rucker, com as suas deliciosas
pinturas no interior do tampo, mas ainda a espineta de 1724 e o
clavicórdio que pertenceu ao antiquíssimo convento de Semide.
Para que nada falte na história do piano, estão os antecessores do
clavicórdio representados por um cânon árabe e por vários
saltérios, um dos quais bem notável pelas pinturas e outro por
apresentar, ainda com o primitivo brilho, os finos doirados e cores
purpurinas da época de D. João V.
A FLAUTA DO PRÍNCIPE AUGUSTO E A TROMPA DO CONDE FARROBO
Tudo isto são importantes documentos para a história geral da
instrumentação; mas também Alfredo Keil tem reunido alguns espécimes
que interessam em particular a história artística do nosso país.
Falemos, por exemplo, de uma flauta de ébano com oito chaves de
prata e a marca Haupt-Lisboa. Tem uma história curiosa:
Ernesto Frederico Haupt, neto de um torneiro alemão chamado
Frederico Haupt, que se estabeleceu em Lisboa / 96 / no tempo do
marquês de Pombal, era hábil fabricante de flautas, clarinetes e
outros instrumentos congéneres. Seu pai, António José Haupt, tinha
obtido licença em 1785 para abrir uma «fábrica de torneiro de
madeira e metais em que se fizessem instrumentos musicais, castões
de ouro e prata, e outras obras delicadas que se guarnecem com os
mesmos metais, à semelhança das que neste reino
se introduziam dos estranhos...»(1)
Conservou Ernesto a fábrica herdada do pai e tendo prestado serviços
à causa da liberdade, batendo-se nas linhas de Lisboa, lembrou em
1835 a utilidade de se organizar no Arsenal do Exército uma oficina
de instrumentos musicais para fornecimento das bandas militares.
Aceite a ideia, Haupt quis dar prova de competência para dirigir
essa oficina, construindo um instrumento de fabricação esmerada que
tivesse a aprovação de alguém competente; ora como, exactamente
nesse tempo se realizava o casamento da rainha D. Maria II com o
príncipe Augusto de Leuchtenberg, que era amador de música e
flautista exímio, o director da nova oficina do Arsenal construiu,
para oferecer ao príncipe, uma flauta feita com o maior esmero,
guarnecida de prata primorosamente lavrada.
Entretanto o pouco ditoso príncipe adoeceu e em breves dias morreu.
A flauta ficou pertencendo ao Arsenal, que a apresentou em diversas
exposições públicas como objecto digno de ser apreciado; mas
ultimamente voltou-se o cata-vento, e ela deixou de merecer o menor
apreço, sendo posta em almoeda. Comprou-a, por preço ridículo, uma
sociedade de cabeças de pau.
Deste modo, o cuidadoso trabalho de um excelente artista, feito para
um príncipe, veio parar às mãos de sórdidos ferros-velhos.
Felizmente pouco tempo se conservou em tão imunda posse, e o nosso
coleccionador teve mais esta boa ventura de arrebanhá-la para o seu
tesoiro, de onde provavelmente não sairá tão depressa nem tão
desprezada como saiu do Arsenal.
A par da flauta que devia pertencer ao príncipe de Leuchtenberg,
temos a trompa que de facto pertenceu ao conde de Farrobo.
Uma construção também primorosa, embora não nacional; chapeada e
guarnecida de prata, tem gravados o brasão e o nome do conde
juntamente com o do fabricante, que é Raoux, célebre especialista em
construir trompas e membro de uma família que durante mais de cem
anos teve oficina de instrumentos de metal.
A trompa do conde de Farrobo tem a data de 1835. Desta data em
diante foi ela decerto a companheira constante do nobre amador,
primeiro trompa em todas as orquestras de amadores – e até de
artistas – que se reuniam em Lisboa. / 97 /
Estava talvez tocando com a esplêndida trompa de Raoux, quando,
tendo errado o tom, Frondoni o advertiu gritando-lhe: Signor
Conte, mettete il vostro corno in mi.
Além dos exemplares de valor histórico, temos outros de valor
puramente étnico, como são a gaita-de-foles, o adufe, o pandeiro, o
tamboril, as guitarras, violões, machetes e cavaquinhos, tudo de
fabricação nacional.
A FAMÍLIA DOS INSTRUMENTOS DE CORDA
Não é só a história do piano que se encontra viva no museu de Keil.
A família dos instrumentos de arco ali patenteia a sua árvore
genealógica, cujos troncos principais estão representados pela
crota dos bretões e pelo rebab dos árabes. A rudeza
destes avoengos torna mais frisante o contraste formado por uma
formosa trombeta marinha pintada por Claude em 1627; uma esplêndida
lira di gamba, uma curiosa viola-de-amor, uma linda
rabequinha e tantos outros exemplares interessantes desta numerosa
família.
Os instrumentos de cordas dedilhadas ostentam poéticos alaúdes,
grandes teorbas, um majestoso arquilaude e uma enorme arquicítara,
tudo com monstruosos braços para sustentarem dois cravelhames e
cordas de comprimento tal que é preciso mandá-las fazer de
encomenda.
A complicação destes instrumentos, que obrigava os tocadores a
mandá-los encordoar e afinar por especialistas, fazia dizer que era
mais caro sustentar um alaúde que um cavalo.
Pertence à grande família de cordas dedilhadas a colecção de harpas,
menos numerosa que a dos cravos, mas igualmente instrutiva por nos
apresentar todas as transformações que no século XVIII sofreu o
instrumento de David até chegar ao mecanismo duplo de Sebastião
Erard.
Aqui, como nos clavicórdios, também a ornamentação vem recrear a
vista; são os ornatos de escultura, as pinturas delicadas, os finos
doirados e até as chinoiseries.
Para nada faltar, vê-se ali
também um exemplar de harpa eólia, cujo destino é pendurar-se nos
ramos das árvores ou nos peitoris das janelas para o vento lhe
extrair aqueles acordes misteriosos de que os poetas falam, sem
nunca terem ouvido. E o mais nobre dos instrumentos: só Deus o faz
vibrar!
OS INSTRUMENTOS DE SOPRO
Nos instrumentos de sopro está a colecção menos completa mas ainda
abundante e curiosa. Não faltam as flautas, os oboés, clarinetes e
fagotes de diversas épocas, contando-se entre eles alguns exemplares
de fabricação nacional. Lá está um grande e feio contrafagote,
fazendo contraste com o atrás citado fagotino, de linda figura e
triste lembrança. Vê-se ali também o antigo serpentão, verdadeira
serpente no aspecto, mas pior que serpente na voz, semelhante à de
um burro. Não longe se encontra o seu sucessor, o oficleide, cujo
nome enfaticamente rebuscado no dicionário grego, os nossos músicos
ajeitaram chamando-lhe figle.
Dispersos por diferentes lugares, segundo permite a já deficiente
capacidade das salas, o visitante encontra os seguintes membros da
família dos metais: cornetas de chaves, dignas / 98 / e desafinadas
irmãs do figle; trombones de varas, tendo um deles as varas mais
compridas que la voluntad de Diós, como disse um espanhol;
clarins e trombetas com suas bandeirolas bordadas de insígnias
heráldicas. A vista destes instrumentos guerreiros, de sons
estridentes e agudos, faz acudir à memória o nosso grande épico: «Deu
sinal a trombeta castelhana...»

Da época das trombetas há ainda que reparar numa trombeta de
madeira, pertencente à família dos serpentões e de igual
maviosidade na voz; os nossos músicos chamavam-lhe corneta
torta e davam-lhe também outro nome pitoresco: corneta de boi.
Este nome emparelhava com o que o povo dava às charamelas: vacas.
Na família das flautas também se devem notar dois exemplares de
flauta doce, um dos quais de marfim; estes instrumentos, cuja
característica é a embocadura em bisel como no apito, foi denominado
em francês flûte-à-bec, nome que certo professor traduziu por
flauta bicuda.
A SECÇÃO EXÓTICA DO MUSEU
Enfim, porque é indispensável haver um fim, mencione-se que os
instrumentos peculiares a certos países podem ser vistos, e até
tocados, no museu Keil. Representantes da música russa, temos a
domra, cítara de costas bambeadas e forma de pêra, como o
alaúde; o gusli, verdadeiro saltério da idade-média; o
lojki, instrumento de percussão usado pelos terríveis
cossacos; a balalaica dos camponeses russos e a
kantela dos finlandeses. Contrastando com tantos espécimes,
todos geralmente grosseiros, da arte russa, apresenta-se só, mas
impondo-se pelo aspecto distinto, o takigoto das damas
japonesas; formoso instrumento construído de preciosa madeira
mosqueada como pele de cobra, sobre o qual se estendem treze longas
cordas de seda verde, que se afinam por meio de cavaletes móveis,
tudo primorosamente construído com um apuro e luxo de materiais, que
mostram bem o seu destino aristocrático.
Depois de notado o paralelo dos espécimes musicais pertencentes aos
dois países antagonistas, Rússia e Japão, resta ainda citar os de
outros mais pacíficos na actualidade, como são; o langleik
da Noruega; o tamburil e o galoubet do
Bearn; o biniou da Bretanha; a Nyckelharfe
da Suécia; o Crout de Gales; a bagpipe
dos escoceses; a Zampogna dos italianos e o
canon dos árabes; o tombôur turco; o
schofar hebreu; o guenbri dos marroquinos, a
zanza do Congo, a ingomba da Guiné, etc., etc.
CURIOSIDADES EXTRAVAGANTES
Última curiosidade: um enorme berimbau, instrumento próprio para
distraídos e preguiçosos; os italianos chamam-lhe
scaccia-pensier, como quem diz: deixemo-nos de cuidados.
Deveria ainda referir-me aos instrumentos de simples galanteria,
como são os relógios, caixas de rapé e outras bijutarias com música;
e aos acessórios, como estantes, batutas, etc.; mas para / 99 /
tanto não chega o espaço e a tanto não chegará a paciência de quem
lê. Melhor será guardar essa paciência para ver minuciosamente o
próprio museu, que o entusiasta coleccionador patenteia
generosamente a toda a gente.
Preciosa prova de amor pátrio dá o eminente artista, substituindo-se
pela sua fecunda e laboriosa iniciativa à acção absolutamente nula
dos governos neste ponto especial. Graças lhe sejam dadas por nos
proporcionar este delicado prazer do espírito.
Penetrar naquele tesoiro de arte é entrar numa escola; passar ali
algumas horas acompanhado pelo mestre é viver espiritualmente
algumas centenas de anos.
ERNESTO VIEIRA
__________________________________________
(1)
– Alvará existente na Torre do Tombo.
|