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DIGAM-LHES (ao Luís Jordão) |
Nuno Rebocho |
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Não sei onde estão as árvores: os
montados não os vejo
– os chaparros dormem esquecidos. Pergunto
pela paisagem
e só nódoas e abandonos falam e enriquecem o país fiscal.
Não sei onde estão os homens que fugiram da paisagem
nem como se esqueceram de si mesmos: nem sombras há
nem cantes nem papoilas nem protestos - a pátria foi-se
esmagada pela rapina bancária. E nem há lágrimas.
Onde estão os homens que perderam a paisagem? E onde
a paisagem que perdeu os homens? Que os silêncios gritem
desesperados e animem os gados para dentro das cidades
e as moscas varram os cemitérios e os ministérios
exumando portarias: descubram os homens!
Digam-lhes que as paisagens esperam e as árvores
choram abandonos. Digam-lhes que as modorras têm donos,
que têm donos a miséria e a cobardia. Digam-lhes
que lá fora há ventos e há chuva e há vida. Digam-lhes
que a morte mata mas os rios teimam em navegar. Digam-lhes. |
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Nuno Rebocho, exilado em Cabo Verde, triste pela pátria
apodrecida Cidade da Praia, 24 de Setembro de 2008. |
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