Documentos seleccionados do arquivo organizado por Aurélio Guerra.

António Braz - Falecimento (1865–1937)

Mal diríamos nós, quando lhe prestámos a nossa homenagem a propósito do seu 72º aniversário, que não seriam decorridos dois meses após essa data sem que tivéssemos de voltar a pre3dstar nova homenagem, mas agora à sua querida e inolvidável memória.

António Braz morreu e morreu quando tanto ainda havia a esperar da sua energia, da sua vontade que nunca conhecia impossíveis. Morreu quase inesperadamente e no seu posto, naquele posto cheio de nobreza e tão afecto ao seu espírito: no trabalho.

Há duas semanas, quando se dirigia de Lisboa para esta vila, na sua visita semanal às fábricas do Centro Vidreiro, à saída do comboio, em Espinho, foi acometido de uma hemorragia cerebral que o reteve no leito durante uma semana, até que a morte, que ele recebeu estoicamente, lhe cortou o último fio de vida com uma crise cardíaca.

Naquele breve mas doloroso lapso de tempo, que mediou entre a sua prostração e o ultimo sopro de vida, não cessou António Braz de mostrar a sua inquietação, a sua ânsia pelo trabalho, afeito como estava a este nobilitante e dignificador Atributo.

A sua vida foi uma luta incessante, por isso mesmo luta gloriosa que só a morte foi capaz de interromper.

Filho de pais humildes, habitou-se muito cedo à labuta exaustiva, temperando o seu carácter para todas as vicissitudes. Mercê, pois, do seu temperamento e da sua exemplar conduta, conseguiu guindar-se a uma posição de destaque nos meios comercial e industrial e reunir uma apreciável fortuna.

Debaixo daquele seu aspecto, que parecia rude, António Braz albergava uma alma de eleição, um coração diamantino. Espalhou à sua volta bem-fazer quase a rodos e os pobres de Oliveira de Azeméis sentiram também a sua acção meritória.

Para qualquer boa iniciativa ou acção beneficente, empreendidas nesta terra, nunca recusou abrir a sua bolsa quando o seu auxílio era solicitado.

Quer entre o pessoal superior, quer entre a massa operária das suas fábricas de vidros, contava em cada cooperador um admirador e um amigo, pois a tanto lhe davam jus a forma lhana de tratar, atenção de quase camaradagem que a todos dispensava, além do auxílio que tantas vezes lhes prestava, da sua bolsa particular.

Os centenares de pessoas que se deslocaram a Espinho na última segunda-feira, em comboio especial, foi uma prova concludente de quanto era querido no seio oliveirense, em todos os meios e camadas sociais. Foram centenas e centenas de pessoas que quiseram patentear de forma iniludível o sentimento de gratidão e dizer o último adeus ao chefe e ao amigo querido.

Mas nem só os seus operários, o seu pessoal, foram de longada a Espinho prestar-lhe a sua derradeira homenagem; foram bastantes pessoas de categoria, individualmente e com representação das diversas colectividades e instituições beneficentes, que, em nome da nossa terra agradecida, lhe quiseram também prestar a sua homenagem ante os despojos do Homem.

Se António Braz algo fez em Oliveira de Azeméis, mais, muito mais faria se a morte o não houvesse colhido tão prontamente. Do seu plano de realizações fazia parte a construção e um bairro operário, bairro que possivelmente viria a erguer-se ali em cima, próximo da fábrica «A Boémia», melhoramento tanto de utilidade para o desenvolvimento e expansão da nossa terra, como de grandioso passo a bem do problema social.

Nesta hora cheia de dor e de lágrimas, curvemo-nos sobre a inolvidável memória do Amigo e do Homem cuja acção ficará a construir, pelas gerações fora, um padrão e um nobilíssimo exemplo a seguir.

C. d’A

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O artigo continua com a descrição das diferentes etapas do funeral, desde Espinho até Lisboa, onde ficou sepultado no cemitério dos Prazeres. Termina com a data,

Oliveira de Azeméis, 2 de Dezembro de 1937

C. d’A

In: "Correio de Oliveira de Azeméis, 04-12-1937


 

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14-01-2025