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Mal diríamos nós, quando lhe prestámos a nossa homenagem
a propósito do seu 72º aniversário, que não seriam decorridos dois meses
após essa data sem que tivéssemos de voltar a pre3dstar nova homenagem,
mas agora à sua querida e inolvidável memória.
António Braz morreu e morreu quando tanto ainda havia a
esperar da sua energia, da sua vontade que nunca conhecia impossíveis.
Morreu quase inesperadamente e no seu posto, naquele posto cheio de
nobreza e tão afecto ao seu espírito: no trabalho.
Há duas semanas, quando se dirigia de Lisboa para esta
vila, na sua visita semanal às fábricas do Centro Vidreiro, à saída do
comboio, em Espinho, foi acometido de uma hemorragia cerebral que o
reteve no leito durante uma semana, até que a morte, que ele recebeu
estoicamente, lhe cortou o último fio de vida com uma crise cardíaca.
Naquele breve mas doloroso lapso de tempo, que mediou
entre a sua prostração e o ultimo sopro de vida, não cessou António Braz
de mostrar a sua inquietação, a sua ânsia pelo trabalho, afeito como
estava a este nobilitante e dignificador Atributo.
A sua vida foi uma luta incessante, por isso mesmo luta
gloriosa que só a morte foi capaz de interromper.
Filho de pais humildes, habitou-se muito cedo à labuta
exaustiva, temperando o seu carácter para todas as vicissitudes. Mercê,
pois, do seu temperamento e da sua exemplar conduta, conseguiu
guindar-se a uma posição de destaque nos meios comercial e industrial e
reunir uma apreciável fortuna.
Debaixo daquele seu aspecto, que parecia rude, António
Braz albergava uma alma de eleição, um coração diamantino. Espalhou à
sua volta bem-fazer quase a rodos e os pobres de Oliveira de Azeméis
sentiram também a sua acção meritória.
Para qualquer boa iniciativa ou acção beneficente,
empreendidas nesta terra, nunca recusou abrir a sua bolsa quando o seu
auxílio era solicitado.
Quer entre o pessoal superior, quer entre a massa
operária das suas fábricas de vidros, contava em cada cooperador um
admirador e um amigo, pois a tanto lhe davam jus a forma lhana de
tratar, atenção de quase camaradagem que a todos dispensava, além do
auxílio que tantas vezes lhes prestava, da sua bolsa particular.
Os centenares de pessoas que se deslocaram a Espinho na
última segunda-feira, em comboio especial, foi uma prova concludente de
quanto era querido no seio oliveirense, em todos os meios e camadas
sociais. Foram centenas e centenas de pessoas que quiseram patentear de
forma iniludível o sentimento de gratidão e dizer o último adeus ao
chefe e ao amigo querido.
Mas nem só os seus operários, o seu pessoal, foram de
longada a Espinho prestar-lhe a sua derradeira homenagem; foram
bastantes pessoas de categoria, individualmente e com representação das
diversas colectividades e instituições beneficentes, que, em nome da
nossa terra agradecida, lhe quiseram também prestar a sua homenagem ante
os despojos do Homem.
Se António Braz algo fez em Oliveira de Azeméis, mais,
muito mais faria se a morte o não houvesse colhido tão prontamente. Do
seu plano de realizações fazia parte a construção e um bairro operário,
bairro que possivelmente viria a erguer-se ali em cima, próximo da
fábrica «A Boémia», melhoramento tanto de utilidade para o
desenvolvimento e expansão da nossa terra, como de grandioso passo a bem
do problema social.
Nesta hora cheia de dor e de lágrimas, curvemo-nos sobre
a inolvidável memória do Amigo e do Homem cuja acção ficará a construir,
pelas gerações fora, um padrão e um nobilíssimo exemplo a seguir.
C. d’A
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…)
O artigo continua com a descrição das diferentes etapas
do funeral, desde Espinho até Lisboa, onde ficou sepultado no cemitério
dos Prazeres. Termina com a data,
Oliveira de Azeméis, 2 de Dezembro de 1937
C. d’A
In: "Correio
de Oliveira
de Azeméis, 04-12-1937 |