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Boletim n.º 20-21 - Ano XI - 1993

Novas Publicações

 

1. ARQUIVO DO DISTRITO DE AVEIRO – ÍNDICES

Para comemorar o centenário do nascimento do emérito aveirense Dr. Francisco Ferreira Neves, ocorrido em 24 de Dezembro de 1992, a Câmara Municipal editou uma brochura com os índices dos autores e dos assuntos, referente a todos os números da revista "Arquivo do Distrito de Aveiro" (1935-1972). O trabalho foi elaborado por Alberto de Sousa Machado Ferreira Neves, José de Sousa Machado Ferreira Neves e João Gonçalves Gaspar.

Homenageando especialmente um dos fundadores e directores da citada revista, a Edilidade Aveirense não quis esquecer os outros dois responsáveis do "Arquivo" – Dr. António Gomes da Rocha Madahil e Dr. José Pereira Tavares – assim como os demais colaboradores.

É que Aveiro e a sua Região devem-lhes um sincero preito de gratidão pelo muito que fizeram na pesquisa e na divulgação da nossa história e da nossa cultura.

Os autores dos "índices", ao finalizarem a Nota Prévia, puderam escrever com verdade:
"Com este trabalho, trazemos à superfície uma enorme riqueza cultural relativa à Região de Aveiro e que, até agora, estava submersa nos volumes do "Arquivo do Distrito de Aveiro"; desta forma, sentimo-nos satisfeitos e recompensados por prestarmos uma homenagem a todos os que, durante tantos anos, se dedicaram ao estudo das mais variadas facetas do Distrito de Aveiro e, ao mesmo tempo, por facilitarmos o trabalho daqueles que, na actualidade, continuam empenhados nos mesmos meritórios objectivos".

 

2. AGENDA CULTURAL

Os Serviços de Cultura da Câmara Municipal publicaram a "Agenda Cultural", referente ao primeiro semestre de 1993. / 66 /

Além de informações de ordem geral, no pequeno desdobrável encontramos o registo das mais diversas manifestações de interesse público, culturais, religiosas, recreativas, musicais, etnográficas e folclóricas, além das datas de várias feiras.

A "Agenda Cultural" não se circunscreve apenas á cidade de Aveiro, mas contempla também as freguesias do concelho.

 

3. BÔ TENDÊ?

Com ilustrações de José Alfredo Ramirão Costa e capa de Jeremias Bandarra, a Câmara Municipal de Aveiro editou o livro de poemas "Bô Tendê?" ("Compreendes?"), em português, da autoria da santomense Dr.ª. Maria Olinda Beja.

O presidente da Edilidade Aveirense, Dr. José Girão Pereira, escreveu a introdução, onde expõe a razão por que a Câmara tomou a iniciativa da publicação:

– «Arrancada aos dois anos de idade da sua terra natal, Olinda Beja veio para Portugal, onde se processou todo um caldo de cultura que se reflecte em toda a sua poesia como um hino ao encantamento da redescoberta com olhar adulto das suas raízes duma africanidade transplantada para uma certa insularidade atlântica. (...)

Ao proceder à sua primeira publicação de poesia, quer a Câmara de Aveiro prestar homenagem à sua autora e ao povo de São Tomé e Príncipe.

Príncipe e Aveiro são cidades irmãs. (...) Para que a geminação se vivifique, há que acalentar gestos desta natureza que favoreçam um novo impulso de atitudes entre os povos (...) "Bô Tendê ?" é um pequenino passo nesse sentido.»

A apresentação do livro realizou-se no dia 5 de Fevereiro de 1993, no anfiteatro do CIFOP, da Universidade de Aveiro; encarregou-se do acto o Prof. Doutor Machado de Abreu, que proferiu as seguintes palavras, sob o título "Bô Tendê? – A circunstância da voz":

O lançamento de um livro é uma festa de cumplicidades e entendimentos. Estamos aqui porque aceitamos ser cúmplices da voz e do mistério da poesia. . A voz chama por nós, o mistério seduz-nos, e os poemas de Bô Tendê? desafiam a nossa memória colectiva.

Há rumores de África na cadência de versos que, embalando a memória de remotas manhãs, pintam aguarelas de rios e areais, transportam mensagens de amor e desencanto, visitam acácias a florir e palmeiras gigantes, rezam orações a "Santo Avião", acariciam mulatos corpos de mel e malícia, e perguntam: Bô Tendê meu grito rouco bô tendê?

minha mensagem é levar até você

o amor que me une a S. Tomé.

São de amor e raiva, de raiva e ternura, de ternura e queixume, de queixume e sortilégio as páginas deste livro. E porque nelas corre a seiva de ancestrais memórias e a fidelidade ao antiquíssimo húmus de Mãe-África, estas páginas são raízes. Arrancada com pouco mais de dois anos ao chão de São Tomé e Príncipe, a autora foi transplantada para Mangualde, aí fazendo a sua aculturação no Portugal colonizador de finais da década de quarenta. O cerco em torno da sua diferença tornou-se mais apertado ao ser criada e passar a viver numa terra pequena do interior beirão. E o mar imenso em que naufragaram os seus olhitos inquietos de menina tornou-se mar interior sem praias, sem cais, sem barcos, mar revolto em vagas de ansiedade e medo. Na terra sem mar onde cresceu e estudou, aprendeu nomes de rios, serras e de outro mar. Foi súbdita de muitos e bravos reis, homens hábeis nas artes da conquista, povoamento e descoberta.

Tornou-se então portuguesa, europeia? Talvez sim, quando lhe alisaram os cabelos e a alma. Não, certamente, quando fala mais alto a voz do sangue e estremece o instinto da ancestral carne. Desta dualidade tensa dá razão a estrofe final do poema Visão:

Conseguiram fazer de mim

uma Europeia

só que se esqueceram de cortar

o cordão umbilical que ficou preso

às raízes da velha eritrineira

que meu bisavô plantou em Molembú.

A voz reprimida solta-se nos poemas de Bô Tendê? para interpelar a Europa do pai e desabafar com a África materna. Os dois continentes são aqui mapas de uma geografia dos afectos a cuja circum-navegação e reconhecimento se entrega esta expedição poética. São também lugares de exílio e, por isso, destinatários de queixumes e desconforto de um ser apaixonado, de uma subjectividade possuída por desejos incontidos entre a Europa que se tem e a África donde se é. Se a esta luz lermos os poemas de Bô Tendê? veremos que neles se diz ou intenta significar o mistério de todas as origens e da sua desocultação. A origem dos continentes, das etnias, do homem, da vida, do ser. As origens da fragmentação do uno e a razão da múltipla variedade de quanto existe. Essa vontade de compreender encarna sobretudo nos poemas de maior tensão e de mais expressiva experiência de recusa dos limites.
Vejam-se o Não, não me conformo, / nunca me
/ 67 / conformarei... repetido como um refrão no poema Queixume, ou a curiosidade impetuosa e sôfrega de saber originário e libertador do poema Quem?:
 

Vem cá meu negro

vem junto a mim eu quero ouvir-te

contar histórias que só tu sabes

conta-me tudo sobre esta terra

sobre este mar
conta-me tudo... eu quero ouvir-te


tu tens no sangue o testemunho

duma epopeia

e tens nas veias essas algemas

que renegaste

partiste

voltaste

conta-me tudo... eu quero ouvir-te


quem nos criou a lua ou o sol?

quem nos deu esta cor original?

quem assaltou os nossos barcos

e levou os nossos sonhos?

quem plantou esta floresta tropical?


Não faltam tão pouco assomos de revolta provocados por uma serra-fronteira (a portuguesa serra da Estrela) donde se não vê nem ouve o mar, serra assassina alçada como um punhal:
 

ai esta serra aqui defronte do meu peito

que sufoca os meus ais e os impede

de passarem para além do céu azul

e assim a dança das gaivotas

perdeu-se na rota dos meus sonhos

entre o grito e o uivo da revolta

[...]

só que a serra

se ergue entre nós como um punhal.

 

A vivacidade da entoação poética não degenera, contudo, em palavra monocórdica, vingativa ou panfletária. A África-paixão e a vontade de regresso vividas como regeneração de liberdade primordial e de um perdido estado de natureza:

Hei-de voltar um dia para saber
o valor da liberdade que não tive


nunca se assumiu como renegação da europeia e paterna herança:

Hoje
percorro a nossa ilha pai
e vais ao meu lado tão feliz
por me veres entre os meus
que tu amaste
pois branco eras por fora
e não por dentro.


O que cativa neste livro é a funda e fremente ressonância de uma humanidade que se encontra consigo mesma, para lá da Europa e da África. Se essa humanidade nos contagia e faz vibrar é porque, na voz com que nos fala, se ouve o sussurrar de uma memória originária, única, capaz, por isso, de nos surpreender.

No plano puramente formal, talvez não se descortine nestes poemas muito de provocadoramente novo. Sublinhem-se ainda assim algumas felicíssimas utilizações da anáfora, a toada salmódica de Dêçu paga bô!, o ritmo e musicalidade de Molembú. No poema Apelo, com o seu imperativo

Vem ver a nossa ilha tropical
de aromas remotos
de cores garridas
de roças sem fim


como não evocar o António Nobre de Lusitânia no Bairro Latino?!

Nas literaturas africanas de expressão portuguesa, por entre apelos de independência de uns e imperativos de construção de novas nações de outros, a voz de Maria Olinda Beja pode ouvir-se agora como liturgia de afectos e renascimento ou primavera de fundas e africanas raízes. Deste punhado de poemas apetece dizer, parafraseando Orfeu rebelde de Miguel Torga, que são poemas cantados como quem usa / os versos em legítima defesa. / 68 /


4. MANUAL DO MUNÍCIPE

Com a capa desenhada por Daniel Tércio Ramos Guimarães, a Câmara Municipal – Serviço de Relações Públicas / Gabinete de Imprensa editou, em Janeiro de 1993, o "Manual do Munícipe"; ao longo de 65 alíneas, os aveirenses aí poderão encontrar as mais diversas indicações, apresentadas de forma simples e ordenada.

As palavras subscritas sob a epígrafe "Simplificar para melhor servir", que servem de pórtico à publicação, esclarecem a finalidade desta iniciativa:

– A ideia que esteve na base da feitura deste Manual é, antes de mais, facilitar a vida do munícipe nos seus contactos regulares com a administração municipal, na dupla expectativa de uma maior eficiência dos Serviços e de uma mais pronta resposta aos desígnios dos seus utiliza dores – que somos todos nós.

Procedimentos simples e respostas rápidas são já hoje – e cada vez mais – condição necessária a qualquer gestão que se pretenda moderna e, simultaneamente, respeitadora dos direitos dos cidadãos – aqueles a quem, no fim de contas, ela se dirige.

Pensamos que o trabalho produzido, se não atinge plenamente esse objectivo, traduz, pelo menos, um grande esforço nesse sentido. Quer pelo universo de situações que abrange, resumindo numa única publicação a vasta gama de produtos e serviços que é encargo da Autarquia pôr à disposição das pessoas. Quer pela forma simples e esquemática como as diversas matérias são apresentadas.

Estamos sinceramente convencidos – e esse foi outro dos objectivos que esteve sempre na sua elaboração – que, para lá da utilidade de um guia de procedimentos, o presente Manual do Munícipe encerra, também, o mérito de se apresentar como instrumento de vulgarização dos direitos dos cidadãos relativamente à sua Câmara.

Não sendo, como nunca se pretendeu que fosse, panaceia de todos os males, muito está ainda por fazer – e será feito a seu tempo para além deste Manual, com vista a melhorar a resposta dos Serviços.

Para já, introduz-se outro elemento simplificador: um modelo de requerimento único – múltiplos fins e de preenchimento fácil elaborado por forma a dar resposta, se não a todas, pelo menos à maior parte das solicitações dos munícipes.

E, para desfazer dúvidas ou obter qualquer informação complementar, aconselha-se o cidadão a recorrer, sem qualquer tipo de constrangimentos ou hesitações, ao Serviço de Atendimento, instalado no rés-do-chão dos Paços do Concelho, que estará habilitado a dar-lhe a resposta adequada, ou a encaminhá-lo para a pessoa ou o Serviço que estiver em condições de o fazer."

5. ASSOCIAÇÕES CULTURAIS DO CONCELHO DE AVEIRO

A Câmara Municipal, através dos Serviços de Cultura, organizou um índice das quarenta e oito associações e grupos culturais existentes na Cidade e no Concelho de Aveiro; era uma velha aspiração da Autarquia, que assim desejava patentear a sua gratidão e o seu incentivo a todos os que graciosa e dedicadamente trabalham por manter com vida tantas agremiações, para bem das suas comunidades locais.

Com capa desenhada por Jeremias Bandarra, o pequeno mas valioso livro foi apresentado e começou a ser distribuído no dia 18 de Junho de 1993, no dia em que foi inaugurado o novo edifício da Biblioteca Municipal.

Na "Apresentação", assinada pelo Vereador Prof. Celso dos Santos, podemos ler o seguinte:

– A presente publicação, já há muito sonhada, é um elenco das associações e grupos culturais, existentes e sediados na Cidade de A veiro e nas freguesias do seu Concelho, que / 69 / se mantêm em actividade. Como é evidente, está fora do nosso programa, a catalogação de outras associações, como as de índole desportiva, política, sócio-caritativa e religiosa, bem como as agremiações dependentes de organismos nacionais, internacionais ou supranacionais; todavia, não desconhecemos tais grupos e até nos congratulamos com o fervilhar do seu dinamismo, nos campos que lhes são específicos, em favor de crianças, de adolescentes, de jovens e de adultos. Todos se orientam positivamente para a humanização da sociedade aveirense.

Seria imperdoável que, nestas linhas singelas, não lembrássemos a acção relevante em prol da cultura local tanto do Museu Nacional de Santa Joana como da Biblioteca Municipal e de outros pequenos museus e bibliotecas. Também não desejamos esquecer as muitas publicações saídas da pena dos nossos escritores e as frequentes e diversifica das exposições e mostras de artistas aveirenses e nacionais; o seu contributo tem de ser enaltecido e encorajado, que não apenas apontado.

Folheando este pequeno livro, veremos um breve apontamento de cada associação... quase uma simples ficha; porém, vai aí a expressão do agradecimento da Autarquia, como legítima representante de toda a comunidade, a todos os que se dedicam às suas associações, sem outro interesse senão "servir".

Bem hajam todos!"

6. ROTEIRO TURÍSTICO

Como complemento das publicações da Região de Turismo da Rota da Luz, desde Junho de 1993 que os interessados têm à sua disposição um Roteiro Turístico sobre Aveiro, profusamente ilustrado a cores e com textos do Dr. Diamantino Dias. O arranjo gráfico pertenceu à Marcontur, as fotografias são de Carlos Alberto Ramos, Emanuel Garcia, Luís Filipe, Cândido de Oliveira e Mário Marnoto e colaboraram Carlos Martins e Fernando Nogueira.

A publicação, editada pelo Pelouro do Turismo da Câmara Municipal, inclui também grande número de informações de carácter económico e ainda sobre edifícios públicos, escolas, igrejas, hotéis, restaurantes, locais para congressos, etc. Esquemas de percursos na cidade e na região que se estendem até Vale de Cambra, Arouca, Santa Maria da Feira, Mealhada, Buçaco e Vagueira, encontram-se convenientemente assinalados com o fim de melhor orientar os visitantes. Ao mesmo tempo, saiu também do prelo um pequeno folheto desdobrável.

Esta iniciativa vem demonstrar que, sem se sobrepor às Regiões de Turismo, os respectivos Pelouros de Turismo das Autarquias não se devem esvaziar das suas competências – como referiu o Presidente da Edilidade no acto de apresentação das duas publicações. / 70 /


7. A CIDADE SALGADA

No dia 25 de Junho de 1993, no auditório do novo edifício da Biblioteca Municipal, decorreu a cerimónia da apresentação e do lançamento do novo romance do Dr. Vasco Branco, que tem por título "A Cidade Salgada"; a edição é da Câmara Municipal.

No desejo de colaborar com o conhecido autor e artista aveirense, Jeremias Bandarra enriqueceu o livro com o desenho da capa.

A obra, que aguardou algum tempo para sair do prelo, retrata aspectos de Aveiro e traduz o drama de tantos que nela vivem. Mas... nada melhor do que as palavras do próprio autor, ditas na referida sessão pública:

– "Já se perguntaram por que necessitarão todos os livros paridos por quem escreve, neste nosso paraíso à beira-mar prantado, de uma cuidada apresentação? Não será isto só, ou apenas, e um elemento, hoje considerado indispensável, de uma política de marketing? Não será isto uma das chamadas necessidades desnecessárias tão próprias do mundo consumista em que vivemos e que já nos tocou profundamente? Partamos do princípio de que qualquer apresentador, sempre escolhido pelo autor da obra não vai, com certeza, pôr em causa a sua factura, mas antes procurar fazer justiça ou exorbitar, até, as qualidades que lhe devem ser inerentes, mas que talvez o autor não tenha conseguido encontrar na sua totalidade ou correcta exactidão.

Boa ou má, a obra está escrita e pronta a enfrentar a crítica. Esqueçamos as palavras de veludo condimentado de simpatia e boa vontade. Será que a reconhecida competência do apresentador se destina a uma aprovação tácita? Ou a preparar a predisposição para uma anuência sem dúvidas da parte de quem a vai ler, mastigar e, em última análise, inferir o seu denominador comum? Uma obra, se obra de arte, ainda no dizer de Ernst Fischer, «não tem necessidade de ser compreendida e aprovada por toda a gente desde o princípio. A função da arte não é a de passar por portas abertas, é antes a de abrir portas fechadas». Por tudo isto, suponho que será mais curial habituarmo-nos a julgar os trabalhos segundo a nossa sensibilidade e cultura e não pelo habitual e sugestionável alarde de quaisquer panóplias curriculares. Deixemos, dormentes, em seu mundo de nada, os títulos académicos ou honoríficos, as bolsas ou estágios, a frequência de academias nacionais ou em cidades de países mais ou menos excêntricos e que costumam, com a sua alquimia privilegiada, ser garantia de qualidade de quem por lá se perde, ou se encontra. Sim, vamos habituar-nos a julgar a obra apenas pelo que representa para quem possui olhos de ver e o condão de sentir. Só. É fácil, palavra que é fácil, se portadores de sensibilidade suficiente, ou da cultura necessária que nos permitam reconhecer o talento (quando ele exista) muito independentemente de coordenadas circunstanciais que em nada podem, ou devem, empanar ou realçar o valor da obra.

É fácil, se deixarmos de cultivar em solo úbere a pequenês e de incensar o tacanho. É que, neste nosso país, as auréolas, como o resplendor dos santos mártires, continuam a ser privilégio avaramente a leste do autêntico valor. Julgar a obra de arte pelo conta-quilómetros da verborreia curricular só pode aumentar os glutões da ignorância, ou certa crítica, refocilando alarvemente adentro do seu círculo canhestro e que costuma pontificar por compêndios de importação onde o modismo hábil habitualmente se grita. Mas credenciar os trabalhos do escritor ou do artista plástico pelo «status quo» académico, outro erro tristemente endémico entre nós. Por isso, permitam-me opinar que o importante é o que se lê ou o que se expõe, isto é, única e exclusivamente a obra em si própria. O resto é simples literatura. Claro que há quem compre livros a metro, como há quem receba os espermatozóides pelos ouvidos (e até quem emprenhe por aí, como o nosso povo afirma). Aberrações admitidas pela nossa muita carência de conhecimentos, Há dias, afirmava / 71 / me o artista Júlio Resende que, quanto a Cultura, continuamos na estaca zero. Talvez por isso a autorga da glória continua e continuará orientada pelos magos das artes com os seus genes poluídos, também, pelo detergente de carácter político. É pois necessário e urgente que o leitor, quanto o observador desprevenido, se cultiva suficientemente para dispensar, diante de qualquer obra de criação, a ajuda de verborreicos palma rés, ou das opiniões oficiais quase sempre teóricas e caseiras, quando não definitivamente anquilosadas. Mas notem bem. Que uma apresentação honesta tem grandes virtudes ninguém o pode duvidar ou pôr em causa, mormente se funciona como ensejo para a apreciação de outras manifestações culturais de que todos andamos tão carecidos. Têm sido sempre uma pedrada no charco.

Eu quis que este livro fosse Aveiro e a sua laguna, o drama e o sonho dos menos privilegiados que aí mourejam e por aí arrastam as suas quimeras. Eu quis que este livro traduzisse um sentir despido de quaisquer teias de tantos quantos viveram uma meninice mais ou menos anfíbia. Este mapa de palavras não passará, pois, de um roteiro traçado no tempo, no qual a acção purificadora das águas salgadas da ria foi durante muito tempo, para nós, uma muito carinhosa segunda mãe. Cidade salgada, sim, tereis ocasião de o testemunhar depois de uma leitura, tanto quanto possível, atenta. O livro, como toda a obra, começa por ser uma necessidade interior que volve, muito lentamente, esboço daquilo que se concretizará através do esforço, feito suor, de quem à criação se atreva. Procurei nunca fugir à clave da sinceridade. Mas, como sempre, a ideia fixa de não ter sido grosa-me, de imediato, algumas arestas de entusiasmo perante a obra que, aliás, nunca tenho por inteiramente acabada. Bebi durante anos e anos a luz branca da minha cidade, os seus odores que sugerem mar, cantei, sempre que disponível, a planura azulínea, o fluxo-refluxo das suas águas em constante inquietude. Ao fim e ao cabo, o meu livro é o que é. Um simples pedaço de sonho da minha terra. E nada mais. Nada mais.»


8. LEVE, LEVE

No intuito de estreitar, cada vez mais, os laços de amizade entre a cidade do Príncipe e Aveiro, a Câmara Municipal editou um novo livro da Ora. Maria Olinda Beja que, tendo nascido em São Tomé e Príncipe, reside hoje em Mangualde, onde exerce as funções de professora do Ensino Básico.

A publicação, com quarenta e sete composições poéticas, distribuídas ao longo de oitenta páginas, foi enriquecida com ilustrações e capa do artista aveirense Jeremias Bandarra.

São do Dr. José Girão Pereira as palavras de abertura, sob a epígrafe "Geminação":

"Papagaio de papel
na ria
fica só pensando
na ilha
que um dia deixou...
/.../"
 

O Atlântico as abraça: as ilhas de São Tomé e do Príncipe.

O mesmo Atlântico que nós, aqui em Aveiro, abraçamos, prendendo-o na sua Ria com os nossos canais, cales e esteiras, filigrana de areias esbarrondadas da serra moída pelo Vouga e amassadas de junco e lamas no cadinho do litoral.

Ilhas presas pelo Atlântico; o mesmo Atlântico que aqui se deixa prender nesta nesga da Península Ibérica.

Uma prisão libertária e que une o que está afastado pela distância que as pessoas tornam próxima.

Como acontece com a poetisa Maria Olinda Beja Martins Assunção que, no afastamento geográfico, sabe encontrar os laços de geminação / 72 / que fecunda a relação Príncipe-Aveiro.

Sim; como acontece quando, com o seu /.../
"Papagaio de papel
na ria
já não pensa na ilha remota
que um dia deixou
deu suas asas à gaivota
e ficou
na proa
esperando a canoa que a ria abraçou" /.../

Sim e mais uma vez:

/.../ "Geminação
palmeira coqueiro
salina de Aveiro
café sempre em flor"
duma árvore de amizade que tudo faremos
para sempre se tornar mais forte, mais robusta.

 

 

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