ALENTEJANO

Poema regionalista de FRANCISCO DE JESUS NUNES

Ao José Domingues Rosa, «Ex-Toto Corde»

Que saudade imensa dos meus pátrios lares,
Níveos como arcanjos d' asas muito brancas!...
Dos trigais dourados; ondulantes mares,
Segredando à brisa ecos singulares!
Estrofes de magia com risadas francas.

Lembro as radiosas, meigas alvoradas,
Límpidas, serenas, campesinas, sãs!...
Aleluias d'oiro, auras matizadas!
De rubis sanguíneos, gemas lapidadas!
Em esplendores de luzes rituais, cristãs.


Lembro os matutinos sons d' Ave-marias,
E da voz dos sinos eu me lembro, até!...
Como as claras preces de passados dias,
De pureza augustas!... – Gratas nostalgias
Que em minh' alma fulgem, com saudade e fé.


Lembro as ermidinhas, lírios virginais,
Estrofes duma crença que floriu da Cruz!...
Donde, em trono d' oiro, a Virgem dos mortais,
Com sorrisos castos, imateriais,
Nas almas difunde a mais divina luz.


Lembro as almas crentes, dessa crença pura
Que há milhentos anos nos ampara e guia!...
Que inocentes falas! – Preces de candura
Que sublimes 'strofes, em grata postura,
Nessas capelinhas rendem a Maria.


E do trono doiro, quantas graças, – quantas! –
Faz descer a Virgem, Mãe dos pecadores!...
Não lhas nega Deus, apesar de tantas...
Antes as converte em rosas sacrossantas,
Que mitigam fome e amenizam dores.


Lembro os radiantes campos, silenciosos,
Paraísos de alma d'aloés perfumados!...
E os montes que alvejam, despretensiosos,
Marfinadas contas de mistérios gozosos,
Pérolas fulgindo n' amplidão dos prados.


Lembro... Como eu lembro o rancho das ceifeiras
Quando em Maio desponta o límpido arrebol!...
Rostos de Madona e nas mãos feiticeiras
Foices rebrilhando, nas douradas leiras,
Numa dança exótica em louvor do sol.


Lembro-as, visionando a grata pradaria,
Como um bando alado, d'olhos garços, ledos!
Quando, campos fora, a brisa preludia..,
Cantochões de neve, maga sinfonia
Que à minh' alma fala em místicos segredos.
 

Ai! Como eu vos lembro estrelas refulgentes,
Rútilas fogueiras de imortais fulgores!...
Fraternas amigas, mudas confidentes
Dessas noites idas, quando em ais frementes,
Eu vos segredava devaneios de amores.


Bergantins alados, navegando óvantes
Na amplidão sidéria do formoso lago!...
Eu já não vos olho como olhava dantes!...
Meus segredos, hoje, são ais lancinantes,
Pelas negras mágoas que em minh' alma trago.


Lembro Ceres, nas eiras, calma e sorridente,
Nos frascais que emergem do solo escaldante!...
Quando o monstro geme, num labor ingente,
Ao hercúleo esforço da fornalha ardente,
Numa faina dura, bruta e extenuante.


Retraçando a messe, numa fúria insana,
Lembro, além, o trilho, sobre o calcadoiro!...
Quando os loiros fusos lembram filigrana,
E o astro ilumina, na meridiana,
O Pão, convertido em pepitas d'oiro.


Lembro as ganharias, legionárias do Pão,
Heróis que pelejam sem louvor ou glória!...
Ínclitos exponentes duma geração
Nobre, porque a Terra lhes confere brasão,
Engastado em oiro, nos florões da História.


Lembro-os, ao Zenith, quando o sol dardeja
Fogo sobre a terra, louco de furor!...
Quais Titãs, fruindo sombra benfazeja,
Forças retemp'rando, para que a peleja
Da paz, recrudesça com maior vigor.


Lembro-os, à tardinha, quando o Deus-louvado
Ecoa festivo pelos campos fora!...
Paz nas consciências! – Grato predicado!
Enquanto nas almas, como que em noivado!
Fulge a inocência em clarões de aurora.


Lembro-os, nessas noites calmas, de pureza,
Quando milhões d' astros ardem n'amplidão!...
Numa fusão d'alma com a Natureza,
Seus amores expandindo, casta singeleza,
Em que a alma chora e ri o coração.


Tudo lembro, tudo, com saudade imensa!
Nostálgico sonho, que sonhar desejo!...
Magas visões d'alma duma bem querença
Fulgurante e bela, mágica presença
Que em minh' alma vive, do meu Alentejo.

 

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