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primeira coisa que me feriu a retina, ao entrar, um dia, em uma casa
onde fui de visita a uma amiga, foram duas crianças muito mimosas
que se achavam assentadas ao longo do tapete imenso que se estendia
defronte da mobília de jacarandá e onde surgia bem no centro,
bordada em alto-relevo, a figura de um leão com a juba eriçada, a
boca aberta, sanhuda e feroz como se estivesse prestes a morder. O
sol muito alegre, sol de verão, ao meio dia, tremente de
esplendores, doirava fortemente, luzindo toda a sala, onde os
objectos muito modestos adquiriam cores diferentes, tomando aspectos
belíssimos aos reflexos dos vidros azuis e vermelhos que ornavam as
bandeirolas das janelas, indo esses raios celestes banhar de
claridade as cabeças das duas pequenitas que, unidas em um só grupo,
tinham nos lábios um desses sorrisos que os pintores desenham
rodeados com um belo e magico fulgor de luz, simbolizando a auréola
divina. Muito lindo, realmente, esse místico painel, onde a alvura
de uma se confundia com o moreno da outra, entrelaçando-se ao mesmo
tempo os cabelos louros com os cabelos cor de ébano, muito longos,
espalhados docemente em cachos que esvoaçavam por cima de ambas,
brincando e pulando com a viveza e o encanto que elas mesmo
possuíam.
Nas visões do meu passado, vejo ainda
com a mesma limpidez esse quadro luminoso da primavera de uma
criança de seis anos, prestes a fenecer debaixo da acção brusca de
um acontecimento que lhe veio ferir o coração!
Quando me aproximei para beijá-las,
notei que a morenita, a mais moça, sorria contente, porem ao mesmo
tempo desconfiada; seus olhares de felicidade exprimiam também
constrangimento. A outra sorria como ela; entretanto, dentro dos
olhos azuis profundamente pensativos, tremia melancolicamente uma
lágrima prestes a se derramar!
Sem compreender de momento aquele
estertor paralisante, adivinhei logo pela claridade virginal de suas
meigas pupilas a grande perturbação que lhe ruminava no cérebro;
toda a suavidade de sua alma esquisita e boa transparecia no seu
olhar que possuía a mesma claridade do azul do céu formoso; e a
simpática e arrebatadora tristeza das noites penumbrosas se
destacava no círculo negro de suas pálpebras franjadas de pestanas
delicadas que se dilatavam alternativamente, enchendo-lhe o rosto de
luz e sombra como o despertar da aurora, ou o entardecer nas
estações estivais do nosso belo pais. Nesse instante em que eu as
contemplava com o pensamento mergulhado num verdadeiro abismo, quase
a perder o equilíbrio, a morena, muito esperta, suspendeu nos
braços, como um bébé, uma grande boneca, luxuosamente vestida, que
tirara de uma caixa perfumada, toda forrada de cetim, e disse-me com
a voz misteriosa e baixa:
– O tio Pedro não deu boneca a ela,
deu a mim e ela ficou triste...
Defronte dessa injustiça que fizera
nascer a primeira dor no coração da criança que não era querida e
trazer também a ambas um precoce amadurecimento intelectual a
respeito dos sentimentos da humanidade, imediatamente, / 514 / com a
revolta desse insignificante acontecimento, uma grande tristeza me
avassalou como um círculo de ferro que viesse ex abrupto
magoar-me as carnes.

Mais tarde voltei à mesma casa
trazendo uma outra boneca para a mimosa esquecida, de quem guardei
para sempre o olhar de reconhecimento que me lançou ao receber a
dádiva, premio da reserva e angélica resignação que lhe deram no
mesmo instante o realce admirável de uma verdadeira mulher com o
formato vaporoso de anjo pequenino! Tão bela e sedutora! Enleio,
harmoniosa canção de anjos, natureza! Porque será que se estabelece
irresistivelmente na vida, por qualquer coisa, a ligação eléctrica e
espontânea de uma simpatia que o tempo e o espaço não têm muitas
vezes o condão de conseguir apagar?
Será o acaso? Ou (quem sabe?) talvez
unicamente a força incompreensível da fatalidade que age e impera no
espírito. Desde esse tempo que essa criança foi para mim como a
visão celeste que apareceu a Jesus quando chorava rezando no jardim
das Oliveiras, coberto de sangue com o coração dilacerado de
tristeza. Na terra também existem desses anjos cheios de meiguice
que sabem amenizar os sofrimentos e que sorriem com a mesma pureza
dos querubins adoráveis das célicas e desconhecidas paragens do
infinito.
Recife, Março, 1906.
AMÉLIA DE FREITAS BEVILAQUA
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