IZER como veio a introduzir-se e a radicar no nosso país a cruzada do ensino racional dos cegos, é o objecto especial a que se destina este segundo artigo, por quanto o primeiro se consagrou a relatar apenas o que dizia respeito à acção benéfica de simples protecção e amparo exercida pela caridade publica para com esta classe de desditosos indigentes.

A completar o que nele se dizia acerca do Asilo de S. Manuel, fundado pela misericórdia do Porto, incluem-se neste segundo artigo as duas gravuras pelas quais o leitor poderá fazer ideia daquele instituto, e juntamente o retrato do seu dedicado iniciador.

O ensino dos cegos constitui porém outro capítulo não menos interessante de moderna e bem orientada beneficência.

Foi outra filha do celebre Dr. Xavier Sigaud vinda para Portugal, onde se tornou muito conhecida sob o nome de madame Souto, quem, encontrando dedicados auxiliares no Sr. A. M. de Lima Carvalho, no cego Sr. Léon Jamet, antigo aluno do Instituto de Paris, organista e musico da capela real, e no Dr. Aniceto Mascaró, e conquistando a boa vontade e protecção da alta sociedade portuguesa, / 484 / procurou criar uma forte corrente afectiva de tiflófilos de que resultou a Associação promotora do ensino dos cegos. Após uma reunião nas salas do Comércio de Portugal, onde alguns cegos executaram em público exercícios de leitura, escrita e música, cativando assim a adesão de espíritos inteligentes e cultos, fundou esta Associação, em 1889, o seu Asilo-Escola António Feliciano de Castilho, situado primeiro ao Calvário, perto da residência da instituidora. Dali passou para Pedrouços e depois para o palacete na rua de S. Francisco de Paula, onde hoje se encontra.

Abriu apenas com 4 alunos e 5 alunas, menores, todos filhos de famílias pobríssimas, alguns dos quais antes recorriam à mendicidade; hoje mantém 57 asilados de ambos os sexos.

Directores inteligentes e dedicadíssimos promoveram a implantação do ensino profissional a par do da instrução primária, de português, de francês, de música, de piano, e de violoncelo e canto, que já existiam.

Criaram-se em 1899 as oficinas de escovas e de sapatos de trança, bem como as de obras de malha, croché, flores e rendas de Peniche. Alguns dos professores são cegos, e ultimamente com os alunos de música se formou ali uma pequena orquestra, que tem tocado em concertos públicos, com aplauso dos auditórios.

Ainda no dia 20 de Maio último, na sala do Real Ginásio Clube, se efectuou perante numerosa concorrência um sarau, onde os ceguinhos com a sua orquestra, sem regente, executaram dificultosos números do programa musical. Além disto, porém, recitaram poesias, cantaram, dançaram, com admirável precisão, e apresentaram exercícios de ginástica sueca, em que os alunos de ambos os sexos foram pacientemente adestrados pelo professor Sr. Aníbal Pinheiro. / 485 /

Pelas nossas gravuras verá o leitor alguns aspectos do asilo e grupos de asilados nos seus vários misteres. São reproduções de belos clichés que o nosso hábil colaborador artístico Sr. A. Barcia ali foi expressamente tirar, mediante graciosa concessão dos actuais e zelosos directores do Asilo.

Paralelamente, a corrente das ideais pedagógicas ia insuflando no Instituto Imperial dos meninos cegos, do Rio de Janeiro, notável desenvolvimento e radical transformação.

Foi o Dr. Xavier Sigaud quem primeiro lhe deu impulso inicial, para demonstrar «o erróneo preconceito de que o cego é um inválido condenado à ignorância, merecendo só compaixão e cuidados corporais».

O seu continuador, depois de 1856, Dr. Cláudio Luís da Costa, consagrou-lhe durante 13 anos igual dedicação, e por fim seu genro o ilustre Dr. Benjamin Constant, nomeado director em 1869, foi, quando ministro do governo democrático, o seu feliz reformador. Até 1889 o grande asilo, que D. Pedro II patrocinara tanto, doando-lhe terreno onde se construiu em 1872 o vasto edifício, era apenas um hospício onde se acolhiam e albergavam cegos indigentes.

O espírito lúcido de Benjamin Constam esboçou o novo plano, e deu ao Instituto, pelo Decreto de i7 de Maio de 1890, o carácter de uma verdadeira escola de ensino teórico e profissional.

É curioso ver nos relatórios e noticias elaboradas pelos seus últimos directores Dr. Brazil Silvado e Jesuíno da Silva e Melo, como ali, semelhantemente ao que sucede no Instituto Braille, em Saint Mandé, de que é proficiente director o Dr. Péfaud, se ensina aos cegos, com processos e material de ensino interessantíssimo, a geografia, a história natural, além das línguas vivas, da história pátria, da matemática elementar, etc.

E, a par do ensino teórico, vêem-se também as oficinas onde aprendem o fabrico de escovas, de vassouras, de espanadores, a empalhação de móveis, e os misteres de tipógrafos e de encadernadores. As raparigas aprendem a fazer croché, bordados, flores e obras de missanga.

Benjamin Constant morreu em 1891, e o governo brasileiro, entre as honras que tributou à sua pranteada memória, deu o seu nome ao Instituto, de que ele fora durante 21 anos o mais dedicado director.

O ensino de música e de canto ocupa também ali, como nos asilos de Lisboa, um lugar / 486 / importante, visto serem artes mui peculiarmente cultivadas pelos cegos.

Para esse fim mantém aulas de canto e de canto coral, de instrumentos de sopro e de corda, de piano, harmónio e órgão, e do concerto e afinação destes instrumentos; nestas aulas se tem habilitado a ganhar honrosamente a vida muitos músicos, pianistas e afinadores.

Havia no Instituto uma banda, que o director Brazil Silvado transformou em orquestra. Com elas se efectuaram magníficos concertos e saraus, como os do nosso Asilo Escola António Feliciano de Castilho. Para uma destas soberbas festividades, escreveu o ilustre e malogrado poeta brasileiro Valentim de Magalhães inspiradas poesias.

Uma destas poesias intitula-se Os dois edifícios (A Cadeia e a escola), e a outra Os cegos.

Nesta última se enaltecem as aptidões aproveitáveis dos cegos, ante os quais se abre o mundo do Ideal, o mundo do Pensamento.

Não é possível resistir à tentação de transcrever aqui, apesar de extensa, esta sentida poesia, obra-prima do poeta brasileiro. É um serviço prestado aos nossos leitores que não facilmente conseguiriam lê-lo de outro modo.

Foi escrita no Rio, em Agosto de 1898. Ei-la:

Há dois mundos no mundo. Um palpável e enorme,

Composto de milhões de formas e de aspectos.

Que ao sol palpita e vive e que nas trevas dorme;

Mundo de sensações, de contactos, de objectos.

 

É o visível. ……………………...

……………………………………………..

Esse mundo é o que nós de vista conhecemos;

Só de vista, que a essência e a origem ninguém sabe.

Nele vemos a luz e nele a luz perdemos…….

Esse mundo sem fim numa pupila cabe!

 

O outro é o que se vê sem olhos, o que ao tacto

Escapa e nenhum sábio ainda pôde grafar;

É o que palpita e ruge e canta, imenso e intacto;

Tem mais astros que o céu, mais pérolas que o mar.

 

É o mundo do Ideal, do Pensamento; é o mundo

Interior, que não tem formas nem aparências;

Em cujo intimo seio, incógnito. profundo.

Tumultua, fervendo, a mó das consciências.

 

Cegos, é nesse mundo o vosso reino, o vosso

Céu é esse, em que há luz e não há vendavais;

Cujo sol – o Ideal, não tem, qual tem o nosso,

Ocaso, eclipse e noite, e não morre jamais,

………………………………………………..

 

Cegos, a vossa luz é a luz da Alma, é a boa,

A que não se macula em charcos e pauis;

Vem dum céu em que o Bem serenamente voa,

– Pomba de neve e rosa em páramos azuis. / 487 /

 

Cegos, vedes p'ra dentro e melhor e mais certo

Que os que cegos não são; os males e as desgraças

Adivinhais, se tanto; estais de Deus mais perto;

Seguis dos anjos d'Ele as luminosas traças…

 

Nunca vereis a chaga, o sangue, o pús, a lama

Nunca vereis matar, nunca vereis morrer!

Ignorais o que seja a Fealdade, e o drama

Do crime não o podeis, horrorizados, ver!

 

Do amor tendes somente a essência delicada.

Toda a mulher p'ra vós é formosa e perfeita...

Não tendes, como nós, a alma insaciada,

Desejando sem trégua e nunca satisfeita.

 

Cegos, porquê? Porque não vedes o que vemos?

O nosso mundo vil, o nosso inferno atroz?

Tristíssima cegueira esta em que nós perdemos!

Oh ! Como vedes bem!

                                   Os cegos somos nós!

*

*        *

Lancemos agora uma rápida vista de olhos pelos processos ou sistemas inventados para o ensino dos cegos.

Ao francês Carlos Barbier, falecido pouco antes de 1850, se deve a ideia-mãe, a base principal em que todos os sistemas se fundaram – a dos pontos salientes para os cegos lerem as letras em relevo, pela palpação com os dedos. Esta ideia simples e engenhosa teve a opinião favorável da Academia das Ciências de Paris, em três relatórios sucessivos de 1820, 1823 e 1830, firmados por nomes célebres como os de Lacépede, Cuvier, Ampère e Molard.

Barbier chamava à sua escrita – escrita nocturna – por ser aplicável a videntes, cegos, surdos-mudos e até aos ignorantes da leitura usual, em razão da sua extrema simplicidade.

Luís Braille, contemporâneo de Barbier, aproveitou a ideia e dispôs os pontos em relevo de modo a formar sinais convencionais correspondentes às letras e algarismos.

Outro francês, Balu, desenhava as letras do nosso alfabeto por fieiras de pontinhos picotados ou em relevo, tornando assim mais difícil e morosa a sua leitura pelos cegos.

Análogo também é o sistema do abade Canon, que contudo procura desenhar a letra do alfabeto comum, aproximando-se já de uma perfeição ideal.

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