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É esta uma secção permanente, aberta
pelos Serões, onde terão cabimento todos os problemas de diversas
índoles que possam exercitar as faculdades do raciocínio. Os Serões
convidam os seus leitores para nela colaborarem com quaisquer
problemas, enviando-nos desde logo as respectivas soluções, por isso
que a redacção não aspira, por falta de tempo, ao justo orgulho de
as encontrar. A fim de compreenderem bem a índole das questões que
especialmente nos convêm, continuamos neste número o interessante
artigo sobre o que vulgarmente se chama perguntas de algibeira,
muitas das quais são verdadeiramente intrincadas.
Fique bem assente no entretanto que
não é propriamente com charadas, enigmas e logogrifos que
pretendemos encher esta secção, embora um ou outro desses exercícios
de raciocínio se possa impor à nossa atenção pela sua originalidade
e pelo seu engenho. Pelo artigo que hoje continuamos nesta secção e
pelos problemas que apresentamos sob o titulo «Para Cismar»
perceberão melhor os leitores quais sejam os nossos desejos,
conformes, queremos crer, aos seus interesses intelectuais.
Perguntas de algibeira
SOLVITUR AMBULANDO
Há problemas que têm o privilégio de
irritar os nervos por causa da dificuldade real que se oculta sob a
aparente facilidade. Tal é o seguinte:
«Se três serpentes, formando círculo,
desatarem a engolir-se umas às outras, começando pela cauda, parece
que o círculo deve diminuir gradualmente de diâmetro. Até que ponto
irá parar por este processo, e que sucederá às cobras?»
O leitor que parafuse no caso, se
estiver para isso.
A este problema se pode dar uma
resposta análoga à famosa resposta dada por um rabugento ao célebre
filósofo grego Zenon. Pretendia este engenhoso casuísta provar que
não existia movimento, e a sua argumentação era a seguinte:
«Todos os corpos devem estar num ponto
ou noutro. É impossível que um corpo esteja ao mesmo tempo em dois
sítios, portanto é impossível que haja movimento.»
Parecia, e ainda parece, o argumento
irrespondível. Mas a resposta do tal sujeito impaciente solvitur
ambulando, «a solução é andar», é talvez afinal a melhor de
todas as soluções. Quer dizer, em vez do raciocínio, a experiência
que resolva o caso.
Muito semelhante a este é aquele velho
enigma grego do veloz Aquiles e do Cágado. Ao passo que o Cágado
vence a muito custo dez metros, Aquiles deixa cem metros atrás de
si. Numa corrida de velocidade entre os dois, Aquiles dá ao Cágado
cem metros de / 176 / partido, e nessas condições teimavam os
escolásticos que Aquiles nunca poderia alcançar o seu pachorrento
competidor. «Porque», diziam eles, «quando Aquiles completou os seus
cem metros, o Cágado tem dez metros de dianteira. Enquanto Aquiles
percorre esses dez metros, adianta-se Cágado mais um metro. Ao tempo
em que Aquiles venceu esse metro, ainda o Cágado tem um decímetro de
vantagem. Quando Aquiles avançar mais esse decímetro, está o Cágado
um centímetro adiante dele. Por esta forma, o raciocínio pode
prolongar-se infinitamente, demonstrando com a maior evidência
possível que, apelar da velocidade superior, Aquiles há-de ser
sempre distanciado pelo Cágado.» É claro que na argumentação há de
haver uma falha, por isso que na prática a conclusão é sem dúvida
oposta. É o caso do solvitur ambulando.
ATÉ AO INFINITO
É de natureza idêntica o seguinte
problema:
«Um sujeito, que deve dez mil réis a
outro, promete pagar segundo as seguintes condições. No primeiro mês
dá-lhe cinco mil réis, no segundo dois mil e quinhentos, no terceiro
mil duzentos e cinquenta, e assim sucessivamente, sendo cada
pagamento igual a metade da importância do precedente. Supondo-se
que o devedor tem sempre maneira de dar o equivalente exacto de cada
prestação, em quanto tempo se realizará o pagamento total da
dívida?»
Matematicamente, a resposta é nunca.
Se fizerem a conta, verão que no fim do ano, a dívida ainda monta a
dois reais e uma fracção inferior a metade. Se as prestações
continuarem a ser feitas segundo a mesma proporção, e o credor e o
devedor viverem até ao dia do juízo final, ainda nesse momento não
estará saldada a divida, por infinitésima que seja a diferença a
favor do credor.
Há quem diga que os burros são animais
inteligentíssimos, talvez ainda levando vantagem aos cães. Mas, se
dermos crédito a certos adeptos da lógica impreterível, o célebre
burro de Buridan, colocado entre duas medidas de cevada exactamente
iguais e exactamente à mesma distância do seu focinho, devia morrer
de fome. Com efeito, não se oferece ao espírito daqueles sujeitos
razão suficiente para que o burro preferisse a medida da direita à
da esquerda, ou vice-versa.
E nestas condições o pobre do
animalzinho seria vítima das suas faculdades lógicas. Mas nós
estamos persuadidos que, por mais burro que fosse, ele mandaria a
lógica à fava, e não permaneceria num estado de equilíbrio instável
senão o tempo absolutamente preciso para se compenetrar da situação.
CÁLCULOS CURIOSOS
Há outra espécie de perguntas que
levam a resultados curiosíssimos, explicando de um modo
perfeitamente simples e natural muitas das pretendidas coincidências
extraordinárias que maravilham as almas simples. Por exemplo:
«Como se prova que existem no mundo
duas pessoas, pelo menos, que têm na cabeça exactamente o mesmo
número de cabelos?»
Calculem pelo alto o máximo número de
cabelos que podem crescer na cabeça de um indivíduo. Um milhão já é
um número considerável, mas, para não haver dúvidas na cadeia da
argumentação, suponham mesmo que se possam contar dez, cem milhões
de cabelos num toutiço humano. Ainda assim ficarão muito abaixo do
número que representa a população total do mundo. Admitido isto,
está provada a asserção. Basta que o número de indivíduos exceda em
dois a mais exorbitante avaliação do número de cabelos existentes em
uma cabeça para que haja pelo menos dois indivíduos com o mesmo
número de cabelos exactamente. Ainda supondo que existe um indivíduo
careca como uma bola de bilhar, e que há cem milhões deles que
possuem desde um cabelo até cem milhões, a cabeça do segundo homem
que excede os cem milhões, deve igualar em número de cabelos alguma
das incluídas nesses cem milhões.
Por forma idêntica se provará o erro
dos naturalistas, quando afirmam que a natureza nunca faz dois
objectos absolutamente iguais, quer sejam folhas de plantas quer
caras de gente. O ponto é mostrar que as diferenças existentes entre
as folhas ou entre as caras são menos que o número total de folhas
ou de caras que há no mundo. Note-se que a população do mundo, num
dado momento, sobe a um número respeitável de centenas de milhão. Se
considerarmos o número de entes humanos que hajam vivido,
suponhamos, durante os últimos mil anos, chegaremos a / 177 /
números tão elevados que a imaginação mal os concebe. É indubitável
que esse número há-de exceder muito quaisquer diferenças
perceptíveis aos nossos deficientes sentidos num objecto de tamanho
tão limitado como uma cara humana. Por conseguinte, a conclusão
inevitável é que cada indivíduo possui ou possuiu no passado um
duplicado da sua pessoa, pelo menos, provavelmente muitos,
absolutamente idênticos no aspecto. Por extraordinária que esta
conclusão nos pareça, não há meio de fugir à convicção de que ela
não é um simples capricho de fantasia, mas uma verdade positiva.
Veja-se como este facto tem sido aproveitado pelos escritores de
obras de imaginação, e repare-se como é frequente aparecerem nos
tribunais casos de erro de identidade.
ARMADILHAS AO
PENSAMENTO
Suponham que um cavalo e uma vaca
estão deitados em diferentes pontos de um campo que tem de comprido
o dobro da largura. Qual será a diferença entre a maneira por que os
dois animais se levantam? Experimentem fazer esta pergunta a um
amigo lavrador, e vejam se encontra sem hesitação a resposta, por
mais inteligente e vivo que seja. E no entanto ela é simplicíssima:
ainda que o campo tenha de comprido cinquenta vezes a largura, o
cavalo levantar-se-á primeiro nas patas dianteiras, e a vaca nas
traseiras, sem se importarem nada com as dimensões do campo.
Menos desculpa terá o lavrador que
sucumba à anterior pergunta mistificadora, do que o relojoeiro de
aldeia que caia na seguinte esparrela. Conte-lhe o leitor que há
pouco fez encomenda de uma corrente de relógio, mas que devido a
qualquer equívoco, o ourives forneceu, não uma corrente completa,
mas seis pedaços contendo cada um quatro elos para a cadeia. Deseja
o leitor que lhe unam esses pedaços; se o relojoeiro quer
encarregar-se desse trabalho, pagar-lho-á à razão de um tostão por
cada elo que ele abrir, e outro tostão por cada elo que ele fechar.
Se ele estiver de acordo, pergunte-lhe qual é a importância total.
Segundo todas as probabilidades, ele
responderá imediatamente: «Dez tostões», explicando-lhe que para
unir as secções ele terá que abrir e fechar pelo menos cinco elos.
«Não há tal!» replicará o leitor. «Se eu lhe pagar conforme as
condições propostas, não tenho que lhe dar mais de oito tostões».
Se ele fizer questão, o leitor tratará
de lhe mostrar que, caso ele pegue numa das secções e abra os quatro
elos de que ela é formada bastarão eles para unir numa cadeia as
restantes cinco secções. Ele não terá remédio senão admitir que a
razão está da parte do leitor.
Muitas perguntas terão igualmente
resposta pronta, a qual, conforme o desejo do mistificador, será
errónea.
Entre elas há aquela velhíssima: «Quem
é o pai dos filhos de Zebedeu?» Uma da mesma família se costuma
fazer em Inglaterra: «Noé teve três filhos, Sem, Cham e Jafet. Quem
foi o pai deles?» E outra também curiosa é a seguinte: «Quem foi o
matador de Caim?» Qualquer pessoa desprevenida responderá quase
invariavelmente: «Abel». É espantosa a quantidade de gente, aliás
esperta que deixará de dar a devida resposta às perguntas
antecedentes, quando enunciadas com rapidez e a sério.
——— O ———
Para Cismar
ADIVINHAR UM NÚMERO
Maneira de atrapalhar as pessoas, com
um número de três algarismos.
Peçam a um amigo que ponha um número
desses no pensamento. Digam-lhe que inverta a ordem dos algarismos,
e que subtraia o menor do maior. Suponhamos que ele pensou no número
487, que invertido dá 784: o resto será portanto 297. Agora o ponto
é o seguinte: Depois de ele ter feito as operações indicadas,
peçam-lhe que lhes diga o último algarismo do resto. Imediatamente
lhe poderão declarar qual é esse resto. É facílimo, porque o
algarismo do meio deve ser sempre 9, e a soma dos dois outros deve
ser também 9. Assim, sendo o último algarismo 7, no exemplo acima, o
primeiro será forçosamente 2. / 178 /
AS SECÇÕES DA BATATA
A figura junta representa uma fatia de
batata, de feitio especial, na qual se espetaram seis fósforos.
Trata-se de a pôr em cima da mesa, e
com uma faca fazer dois cortes em linha recta, de forma que se
reparta a batata em seis pedaços, ficando em cada um deles um dos
fósforos espetado.
O DIÂMETRO DE UMA
ESFERA
Ora vamos lá a ver se há quem resolva
o engenhoso problema que vamos apresentar, envolvendo princípios de
geometria e de física.
Suponham que têm na frente uma esfera,
uma bola de bilhar por exemplo, e que precisam determinar-lhe o
diâmetro. Não querem riscá-la, nem podem fazer uso do compasso.
Nestas condições, como hão de resolver o intrincado problema?
Esperamos as respostas dos estudiosos.
UM TESTAMENTEIRO
ATRAPALHADO
Isto de testamentos extravagantes é
coisa tão vulgar em problemas, que chega a gente a supor que os
mortos ficam na outra vida a regalar-se de porem aos vivos
dificuldades. Mas casos há em que é a sorte quem cria terríveis
embaraços. Aqui têm um exemplo:
Um patusco endinheirado morreu,
deixando a viúva em vésperas de lhe dar um herdeiro. (isto, já se
vê, aconteceu numa terra onde havia para testar a máxima liberdade).
Aberto o testamento, reconheceu-se que continha, em resumo, as
seguintes disposições:
Se o filho que estava para nascer
fosse varão, ficaria este com dois terços da fortuna, restando para
a viúva um terço. Se acaso pelo contrario fosse fêmea, o testador
destinava à viúva dois terços da fortuna, reservando para a filha o
terço restante. Sucedeu um caso inesperado: nasceram dois gémeos, um
rapaz e uma menina. Aflições do testamenteiro!
Como é que nestas condições deve ser
repartida a herança, para corresponder à vontade do testador?
QUAL É O PARTIDO?
Conheço três amigos, António, Bernardo
e Carlos, que se reúnem às noites num clube, onde se entretêm a
jogar o bilhar. Mas são de força desigualíssima. O António, quando
joga com o Bernardo, dá-lhe 30 de partido às 50. O Bernardo, quando
joga com o Carlos, dá-lhe partido igual. É claro que o Carlos nunca
se atreveu a medir-se com o António, tal é a diferença entre as suas
forças. Mas de uma vez que se encontram os dois sozinhos, o António
propõe uma partida. O Carlos aceita, com a condição que o partido
seja equitativo, segundo a proporção determinada pelos números
acima. Qual será neste caso o partido que o António deve conceder ao
seu humilde parceiro?
– O –
Num dos números seguintes, trataremos
das soluções dadas pelos nossos leitores aos problemas do n.º 1. E
daremos sempre longo prazo, a fim de que os leitores, residentes
fora de Portugal, possam ter tempo de enviar-nos quaisquer
respostas.
– O –
Primeiro concurso dos SERÕES
Chamamos a atenção dos «fotógrafos amadores» para o programa do
nosso primeiro
concurso, inserto nas páginas de anúncios.
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